quinta-feira, 3 de outubro de 2013

INTELECTUALIDADE PRÓ-BREGA E A EDUCAÇÃO


Por Alexandre Figueiredo

Ser "provocativo" é ser "urubólogo"? Se depender da intelectualidade que defende bregas e funqueiros, sim. E os "queridos" intelectuais, supostamente "progressistas" - estão de olho nas verbas do MinC, da Lei Rouanet e outros recursos estatais para neles diluírem as verbas "suspeitas" do capital estrangeiro - , nem estão aí para o verdadeiro progresso social no Brasil.

Eles defendem o brega, o "funk" e outras baboseiras culturais achando que isso é que promove a felicidade do povo pobre. Só que não conseguem explicar, por exemplo, por que existe o disparate entre uma "periferia feliz" e as tragédias cotidianas que ocorrem nas classes populares.

Desabamento de barracos não aparece em "funk". Enchentes nos subúrbios e roças não aparecem em "forró eletrônico". Trabalho escravo também não. E a contradição entre uma "pobreza feliz" que vai ao galpão mais próximo assistir ao sucesso do momento e um povo desempregado que forma grandes filas em busca de emprego é gritante.

A "periferia" dos sonhos de um intelectual - podendo ser um antropólogo, sociólogo, cineasta, jornalista cultural etc - não tem a ver com a realidade popular. Nem de longe. E mesmo suas supostas, e bastante falsas, defesas de uma tal "reforma agrária na cultura brasileira" carecem de qualquer tipo de coerência.

Afinal, ninguém defende "reforma agrária", sobretudo na cultura popular, se apoia tendências musicais que são tocadas em rádios FM controladas, mesmo de forma indireta, por oligarquias latifundiárias que exercem o poder coronelista nos subúrbios e roças de uma dada região de cidades, raio de atuação de cada emissora FM envolvida.

E o verniz "progressista" que tanto empolga as plateias que dão ouvidos a esses "pensadores provocativos" se desfaz feito castelos de areia tragados pelo mar quando o assunto é melhorar culturalmente o povo pobre.

Aí é que nossa "provocativa" intelectualidade passa a ser tão "urubóloga" quanto Merval Pereira, Augusto Nunes e Eliane Cantanhede, para não dizer Reinaldo Azevedo. Os intelectuais que deslumbram e ganharam a simpatia das esquerdas médias passam a se voltar contra qualquer tipo de melhoria das classes populares, às quais atribuem suposto "higienismo elitista".

A intelectualidade "sem preconceitos" mas bastante preconceituosa fica, então, preocupada com o fim daquela "pureza" associada aos estereótipos caricaturais de povo pobre, a tal "periferia de verdade" defendida pelos intelectuais dominantes e dotados de muita visibilidade.

Os intelectuais então passam a serem tomados pelos mesmos traumas dos pensadores escravocratas do século XIX, quando ouviram falar de campanhas abolicionistas. Acham que abolir a escravidão faria os negros libertos praticarem carnificina contra todo tipo de povos brancos, ou mesmo contra índios e outros negros, numa violenta rebelião de grandes proporções.

A intelectualidade dominante de hoje acha que, se o povo perder a "inocência" associada ao seu "re-criativo" (ou "re-creativo"?) perfil pateticamente risonho e artisticamente medíocre, transformará as classes populares numa massa violenta a assaltar as elites urbanas de todo o Brasil.

A o que dizer da Educação? Ensinar o povo a falar melhor, a apreciar e fazer músicas melhores, a escrever livros e peças de teatro, a produzir cultura de verdade? E fazer tudo isso sem ter que passar pelo estágio de expor seus defeitos, suas qualidades mais patéticas, sua ignorância e até sua estupidez?

Para a intelectualidade pró-brega, funciona o seguinte. Se, por exemplo, existe um idoso alcoólatra, mendigo e banguela, e dança pateticamente nas ruas, ele primeiro precisa expressar tudo isso, ser marcado pelo que é de pior para depois, sob o apoio da intelectualidade, ser "reeducado" e "melhorar de vida".

Em outras palavras, os intelectuais querem que o povo pobre seja marcado primeiro pela burrice e pela estupidez, pelo que tem de patético, para depois, consentido por cineastas, cientistas sociais e jornalistas culturais, entre outros, ser "melhorado" e "aperfeiçoado".

O "marketing da exclusão", do coitadinho patético, do breguinha revoltado, do cafoninha tristonho, se serve dessas manobras. E a intelectualidade associada acaba se mostrando reacionária quando se fala em melhorias na Cultura e na Educação que não se processem por meras verbas estatais, mas por uma mudança de valores, expressões e até de personalidades.

Daí o disparate que a intelectualidade associada à bregalização do país tem quando defende que a imagem da mulher nos comerciais de TV deva ser menos caricata. Se Gisele Bündchen aparece de lingerie parodiando uma mulher-objeto, a intelectualidade pró-brega desce o malho.

Quando, no lugar de Gisele Bündchen, aparece uma "mulher-fruta" do "funk", o discurso muda. "É o direito de sensualizar", dizem então os intelectuais associados, com base na glamourização da pobreza e da ignorância que faz com que os valores da cidadania só sejam válidos dentro dos condomínios de luxo, mansões ou das residências confortáveis da classe média alta.

Cidadania nas favelas? Para a intelectualidade dominante, nem pensar. O povo tem é que falar errado, praticar imoralidades, produzir cultura de baixa qualidade. A intelectualidade empurra com a barriga, dizendo que "não existe baixa cultura" e que "todos temos que perder os preconceitos".

Mas é essa intelectualidade que exerce os piores preconceitos quando se fala em melhorar os valores sociais das periferias. Se condenamos a vulgaridade feminina, a intelectualidade nos acusa de "reprimirmos o direito à sensualidade". Se condenamos a ignorância popular ao seu próprio passado cultural, "confiscado" pelo poder midiático, ela nos acusa de "preconceito elitista".

Só que lutar pela Educação é lutar a favor das classes populares. Se a intelectualidade acha que isso vai eliminar aquela "pureza inocente das periferias", o problema é dela. Ela que guarde seus resmungos urubólogos para suas cátedras e auditórios onde há plateias que aplaudirão até suas tosses e espirros.

Romper com a bregalização do país, com novos símbolos, novos valores e novos personagens é criar um caminho justo para a cultura brasileira e para o progresso das classes populares. Pensar assim nada tem de preconceituoso e elitista, mas sim de solidário e altruísta, porque pensar na melhoria da cultura é, acima de tudo, pensar na qualidade de vida das classes populares.

Portanto, não adianta tapar o sol com a peneira e esconder a pobreza e a ignorância por debaixo do tapete sob tendenciosas etnografias de cunho paternalista que só defendem o "estabelecido" sob o rótulo de "popular".

E não serão apenas as verbas estatais, às quais se misturarão as mesadas que a CIA deposita na intelectualidade dominante no Brasil, que irão fazer a breguice "melhorar por si". A breguice não melhora. O "funk" não melhora. Outras cafonices não.

Romper com a bregalização é que irá melhorar o país, na medida em que liberta o povo de se reduzir à caricatura de si mesmo que diverte e empolga a "provocativa" intelectualidade que, mesmo se autoproclamando "livre de qualquer tipo de preconceito", é uma das mais preconceituosas do mundo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...