domingo, 20 de outubro de 2013

INTELECTUAIS, ARTISTAS E A "IDEALIZAÇÃO" DO "FUNK"


Por Alexandre Figueiredo

Intelectuais sonham com a bregalização do país. Sonham tanto que idealizam a mediocridade cultural como uma utopia que só existe na imaginação desses intelectuais, que, no seu "bom" etnocentrismo, atribuem a essa mediocrização referenciais que aqueles que fazem o brega e seus derivados (como o "funk") nem sequer se interessam a seguir.

O artigo de hoje da cantora Adriana Calcanhoto é carregado desse "bom" etnocentrismo. Ela fantasia muito sobre o "funk carioca", no seu elitismo cordial em que o "outro" é visto de uma forma não realista, mas glamourizada, não como realmente é, mas "sendo" o que deveria ser para o paternalismo cultural da cantora e de outras personalidades similares.

A intelectualidade "idealiza" o "funk carioca", o "funk ostentação" e outros similares. No seu julgamento cordialmente etnocêntrico, tenta associar ao "funk" referências que ele não tem. Supostos "ecos" disso ou daquilo, falsas comparações, falsas analogias, a intelectualidade tenta projetar sua erudição privada para um ritmo que é o grotesco em estado bruto.

Uns tentam associar o "funk" ao samba e maxixe de 1910. Outros, à antropofagia de Oswald de Andrade, ao ativismo de Antônio Conselheiro. Outros, mais ambiciosos, tentam equipará-lo ao punk rock ou, indo adiante, à pop art de Andy Wahrol e companhia.

No extremo do oportunismo, há quem, num exercício de necrofilia, associe o "funk" a Itamar Assumpção e Sérgio Sampaio. Mas há quem use pessoas vivas para vinculá-las ao "funk", como o inglês Paul McCartney, que boatos difundidos na imprensa como se fossem verdade haviam atribuído ao ex-beatle um suposto e improcedente interesse pelo ritmo carioca.

Tantas referências que só existem na imaginação intelectual, não na realidade dos "bailes funk". São preconceitos "positivos" que fazem com que a intelectualidade, num paternalismo gentil, atribuísse a matéria bruta do "funk" como se fosse um ouro já acabado. Vende-se tal "visão" como se fosse realidade, mas ela não passa de simples fantasia de intelectuais paternalistas.

Adriana Calcanhoto escolheu Vinícius de Moraes. Com a mesma convicção com que Paulo César Araújo tenta definir Waldick Soriano como um "cantor de protesto", Adriana quer porque quer que Vinícius de Moraes seja um funqueiro. Ele não está mais aí para reclamar dos sonhos da sua nora póstuma, já que o poeta nos deixou há 33 anos.

Pela imaginação romântica, paternalista e poeticamente etnocêntrica de Adriana Calcanhoto, o "funk" foi o samba de 1910 que se transformou na Bossa Nova de 1958 mas que "sem a força de seus (de Vinícius) versos, o funk é todo impregnado do branco mais preto do Brasil". Uma choradeira suave, mas mesmo assim mais uma choradeira para definir o gênero.

Isso é o que o "batidão" significa para a imaginação elitista dos intelectuais. Eles querem que os funqueiros sejam vinculados a Vinícius, Oswald, Mário de Andrade, Malcolm McLaren, Antônio Conselheiro, Andy Wahrol, Leila Diniz, Martin Luther King, e até Lou Reed, Geraldo Vandré e João Gilberto.

Enquanto isso, a verdadeira dura realidade do "funk" é que ele divorciou-se até mesmo das influências sonoras de Tim Maia, Gerson King Combo, Tony Tornado e Banda Black Rio, entre outros pioneiros, para consistir num som esteticamente fechado, mal cantado, mal composto e que ainda se vale pela exploração empresarial dos "grandes DJs" e promoção de baixarias e factoides.

Enquanto Adriana Calcanhoto sonha com um "funk" de verniz bossanovista surfando pelas ondas de Ipanema, a realidade mostra um "funk" fechado no seu estilo brucutu, na sua repetição sonora, na sua baixa estética que impede até mesmo que o povo pobre aprenda novos instrumentos, e na veiculação dos mais baixos valores sócio-culturais.

Isso é o samba de 1910? Não. A rejeição do "funk" nem de longe parte de patrulhas moralistas aristocráticas, como foi o caso do samba de cem anos atrás. O "funk" é rejeitado por uma sociedade moralmente muito mais flexível do que a do século passado.

As elites se inquietavam com mulheres que, inocentemente, mostravam os dedinhos de seus pés quando iam às praias, numa época em que Copacabana não era mais do que um terreno com plantas, arbustos, areia e mar, além de algumas casinhas.

Hoje a sociedade se inquieta com mulheres grotescas e brutamontes mostrando glúteos siliconados em posições que mais parecem a de pessoas sofrendo blitz policiais ou de gente defecando na rua. Nem graciosos são tais gestos.

Portanto, o "funk" sonhado por Adriana Calcanhoto não é o "funk" real. O "funk" sonhado por Adriana está em paz com Vinícius. O "funk" da realidade despreza até Tim Maia, quanto mais a Bossa Nova. MCs, DJs e "mulheres-frutas" estão fechados no seu grotesco, na sua brutalidade, no seu grotesco e na sua mesmice. Até o "tamborzão" só foi usado para turista inglês ver.

Portanto, não valeu. Vinícius de Moraes, promovido assim tão levianamente como funqueiro, foi uma manifestação não de exaltação ao espírito moderno do poeta, mas de mais uma tentativa forçada de vincular o "funk" à alta cultura. Além disso, o "funk" nada tem de moderno, com suas baixarias irresolúveis, e sim de muito, muito antiquado.

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