quarta-feira, 9 de outubro de 2013

HIGIENISMO INTELECTUAL?


Por Alexandre Figueiredo

Continua um grande mistério a dúbia postura das intelectualidades dominantes, ditas "de vanguarda", no que se refere às campanhas contra a exploração pejorativa associada à mulher brasileira pela mídia.

As mesmas pessoas que reclamam maior regulação nas campanhas publicitárias veiculadas na televisão, temerosas pela imagem caricata e debiloide que os comerciais de tevê trabalham a respeito da mulher brasileira, contraditoriamente defendem que o "funk", por exemplo, continue fazendo a exploração da mulher como um reles objeto sexual.

Ou seja, é um discurso contraditório. Para os comerciais de tevê, a intelectualidade parte para um zelo rigoroso que se opõe à imagem coisificada da mulher por eles veiculada. Já no "funk", a imagem da mulher-objeto é defendida sob a desculpa do "direito à sensualidade", em que valores machistas mal conseguem ser desmentidos pelo persuasivo mas confuso discurso intelectual.

No "funk", a intelectualidade não consegue explicar por que existe o machismo, da mesma forma que não consegue explicar sua visão, um tanto delirante, de que as mulheres funqueiras estariam se libertando da opressão machista. Quando tentam justificar, cometem muitas incoerências.

Evidentemente, as esquerdas sofrem a interferência de intelectuais, uns cientistas sociais, outros cineastas e outros jornalistas culturais, surgidos dos porões do academicismo cultural tucano. Tais denúncias são silenciosamente engolidas pelas esquerdas médias, que raramente fazem menção a isso e, quando fazem, é timidamente.

Porque existe aquela coisa. É o ex-jornalista da Folha que se inspirou ideologicamente em Fernando Henrique Cardoso, Francis Fukuyama e Otávio Frias Filho para esboçar sua visão de "cultura popular". Mas ele é amigo do ativista social daqui, da professora universitária dali, e ingressa nos espaços esquerdistas entrando pela porta dos fundos.

Talvez isso é que influi nas contradições que a intelectualidade cultural em tese comprometida com algum tipo de visão progressista comete constantemente. Sem falar da formação elitista de muitos intelectuais.

Só que o que preocupa é essa defesa tão desesperada, paranoica, neurótica em relação a um tipo de "cultura popular" em que o "funk" se torna seu exemplo mais típico, da parte da intelectualidade cultural dita "progressista", se torna tão persistente.

MORALISMO DEFENDENDO IMORALIDADES

O discurso intelectual dominante insiste que não se deve mexer na "pureza" das periferias. O que "nós" consideramos imoral e degradante, o "outro" considera "sinônimo de felicidade". Recusar-se a mexer nos problemas das classes populares, preferindo glamourizar a pobreza e a miséria, virou a campanha máxima do establishment da intelectualidade e do ativismo brasileiros.

Enquanto essa intelectualidade se mobiliza para defender uma imagem mais cidadã dos brasileiros nos comerciais de televisão, ela mesma reage quando se fala que o "funk" carioca despeja um monte de baixarias, grosserias que reduzem as classes populares à imagem estereotipada de "selvagens modernos".

Ou seja, o que é imoral para comerciais de TV dirigidos à classe média, de preferência a média alta, para o "funk" são "outros valores morais". E as elites intelectuais, defendendo a imoralidade do que entendem por "cultura das periferias", está sendo bastante moralista.

Não se pode ensinar o pobre a coisa alguma. Nada ele pode fazer. As grosserias das mulheres funqueiras, por exemplo, é um "direito à sensualidade", pouco importando se são as mesmas atitudes que, feitas por uma supermodelo de renome internacional, soam "aberrantes".

É o elitismo às avessas, o moralismo pelo avesso. Se a supermodelo faz o tipo diabinha sexy num comercial de lingerie, ela é depravada, abominável, degradante. Se a "mulher-fruta" ou coisa parecida faz a mesma coisa, ela é vista como admirável, corajosa, audaciosa.

HIGIENISMO

O que faz as elites "pensantes" do país, que se atrevem a fazer pregações nos espaços progressistas - faria mais sentido se os "farofa-feiros", por exemplo, fizessem suas pregações sentados no palco do programa Encontro com Fátima Bernardes, da Rede Globo - , quererem que as periferias permaneçam "puras" nos seus problemas, carece de alguma explicação oficial.

Nós deste blogue fazemos por onde. É verdade que muitos textos são escritos sobre o mesmo assunto, "chateando" muita gente. Mas, fazer o quê, a luta contra a ditadura midiática, sobretudo nas suas abordagens culturais, é muito grande, com o agravante que os seus arautos fazem pregação não nos cenários da grande mídia, mas infiltrados nas mídias alternativas.

Fica soando uma campanha higienista, essa defesa do grotesco, do pitoresco, do sensacionalista e do piegas que deslumbra a intelectualidade dominante brasileira. Porque ela quer que o povo pobre se "apodreça" na manutenção de seus problemas sócio-culturais, amenizados apenas por medidas genéricas ou outras de caráter paliativo.

Tendo saneamento, energia elétrica e garantias de proteção legal básicas apenas basta, na visão da intelectualidade dominante, para manter o povo pobre nos parâmetros mínimos, ainda que insuficientes, de cidadania. Seja para dar um aparato de democracia para livrar as classes dominantes da culpa, seja para garantir uma massa de consumidores "pobres" mas felizes.

Isso é higienismo porque não se considera o progresso sócio-cultural efetivo. O povo pobre é condenado, pelo "positivo" discurso intelectualoide, à degradação sócio-cultural, que nós, "não sendo obrigados" a gostar, somos forçados a aceitar sob pena de sermos vistos como "preconceituosos" e comparáveis, de forma surreal, a antigas elites moralistas de 1910.

Assim, o povo pobre se "naufraga" nos valores ligados ao machismo, à criminalidade, à corrupção, o alcoolismo, as drogas e o subemprego, trabalhadas "positivamente" por estilos como o "brega de raiz" (Waldick Soriano, Odair José) e o "funk", tão neuroticamente defendidos pela intelectualidade dominante como símbolo de "cultura de verdade".

Só que isso não é cultura, porque não trabalha o progresso sócio-cultural para as periferias. Tal progresso não cai do céu das verbas do Ministério da Cultura, da Lei Rouanet. A cafonice, o grotesco, o pitoresco continuam aprisionando o povo pobre, porque isso não traz cidadania, apenas trabalha uma imagem glamourizada e estereotipada da pobreza e da ignorância do povo.

A bregalização cultural traz conforto para as elites intelectuais. Talvez seja uma maneira de amansar as classes populares. Os intelectuais criam um discurso pseudo-ativista, que conforta a todos. Mas é um discurso bastante fora da realidade, e fora de qualquer possibilidade de expressar um pensamento realmente progressista e voltado aos interesses das classes populares.

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