sexta-feira, 18 de outubro de 2013

"FUSÕES" NÃO RESOLVEM O PURISMO DO "FUNK"


Por Alexandre Figueiredo

Desde que rompeu com toda a linha evolutiva do funk autêntico, o que hoje se conhece como "funk" (ou "pancadão", ou "batidão"), surgido desde 1990, tenta todo tipo de apelo para ser reconhecido "cultura séria", num discurso que chega a ser maçante e chato de tão persistente.

Não bastasse o desgaste do "funk carioca" ter obrigado o mercado funqueiro a criar um genérico paulista, o "funk ostentação", acreditando em São Paulo como "laboratório de reciclagem" de ideias desgastadas no resto do país, o "funk" agora precisa adotar outros apelos para tentar sobreviver ao natural desgaste.

Depois de uma campanha para transformar a "batalha do passinho" em "coreografia superior" - quanta choradeira será necessária para colocá-la na agenda do Teatro Municipal do Rio de Janeiro ainda não se sabe, mas deve ser muita - , com uma pequena ajudinha até de documentaristas, agora é a vez das pretensas "misturas" feitas para aquecer o mercado funqueiro no resto do país.

No Paraná, há o tal "eletrofunk", que é uma tentativa de inserir o "funk exportação" ou "funk de DJ" - ou então o "funk para turista inglês ver", quando o DJ tenta "caprichar" nas sampleagens para simular "riqueza artística" ao gênero - para o público brasileiro, sobretudo os jovens de maior poder aquisitivo que vivem sobretudo na Grande Curitiba ou no interior coronelista local.

Em Recife, sob as bênçãos do Coletivo Fora do Eixo mas sob o patrocínio do coronelismo nordestino, há o Bregafunk, algo como a fusão do tecnobrega, do já decadente "forró eletrônico" e do "funk carioca", também feito para o consumo de jovens riquinhos locais.

E para quem imagina que ambos os ritmos sofrem "discriminação da grande mídia", no último domingo eles foram divulgados com um certo entusiasmo pelo Fantástico, da Rede Globo de Televisão. Mas até mesmo a intelectualidade cultural dominante já começa a cansar desse discurso de "boicote da mídia" que não corresponde à realidade.

Aliás, graça a esse discurso intelectualoide, verdadeiras armações e modismos claramente comerciais do brega-popularesco são difundidos como se fossem "movimentos libertários". Que beleza seria, se levarmos em conta esse ponto de vista, se os modismos dançantes mais tolos dos EUA fossem associados às rebeliões libertárias que marcaram a Contracultura dos anos 60.

Mas a realidade é que, com todos os sit ins (protestos pacíficos e quase silenciosos de pessoas sentadas), passeatas e transgressões sociais, culturais e artísticas, nada que fosse feito de descartável no chamado pop estadunidense era forçosamente vinculado à Contracultura sessentista, nem com lágrimas jorradas aos montes nas palestras intelectuais.

Lá é coisa séria. Aqui é que modismos que tratam o povo pobre como uma verdadeira caricatura e se caraterizam por cantores e dançarinos com trajes ridículos e sorrisos abobalhados, claramente tutelados por empresários "pobrezinhos" mas muito, muitíssimo ricos, são defendidos pela chorosa intelectualidade brasileira como se fossem "causa nobre e libertária".

Aqui até funqueira é tida como "feminista" porque mostra seus glúteos siliconados em close para crianças diante de uma tela de TV. E aí de alguém reclamar, porque o intelectual "bacaninha" vai logo classificar esse alguém como "militante de obscuras patrulhas moralistas que estavam adormecidas há mais de 100 anos atrás".

Mas nada resolve a situação do "funk", porque o ritmo, extremamente purista nos seus aspectos,  é culturalmente e ideologicamente fechado, resistindo a todo tipo de transformação na cultura e na sociedade. As "misturas" apenas envolvem outros ritmos decadentes, num processo que, por exemplo, já ocorreu com o arrocha, a tchê-music e o próprio tecnobrega.

Portanto, o "eletrofunk" e o "bregafunk" são novos gritos da mesmice brega-popularesca que, para o desespero da intelectualidade "superbacana" e "farofa-feira" de hoje, é rejeitada em larga escala pelas próprias classes populares cansadas de serem vistas de forma caricatural pelas supostas tendências populares que enriquecem latifundiários e barões da grande mídia.

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