domingo, 27 de outubro de 2013

"FUNK" NÃO SERÁ COMO O SAMBA, O ROCK OU O JAZZ


MC GUIMÉ, ASTRO DO "FUNK OSTENTAÇÃO" - O "funk" é fechado na sua concepção estética e nos valores sócio-culturais mais primitivos.

Por Alexandre Figueiredo

O "funk" está sofrendo uma crise de reputação. Seus defensores, desesperados, tentam todo tipo de comparação, e a mais comum delas é a comparação com o samba de cem anos atrás. Dizem os defensores do "funk" que o ritmo hoje é rejeitado pela mesma sociedade que rejeitou o samba cem anos atrás.

A comparação não procede. Não tem o menor fundamento. Afinal, como se havia escrito mais de uma vez, a sociedade que rejeita os funqueiros, queiram ou não queiram, é moralmente muito mais flexível que aquela que rejeitou o samba em 1910.

A sociedade daquela época era extremamente aristocrática, não tinha consciência de sua brasilidade preferindo adotar anglicismos e galicismos, ou seja, imitar valores da chamada alta cultura inglesa e francesa, mais prestigiadas no mundo ocidental de 1910.

Esta sociedade, dotada de um moralismo extremo, se inquietava com um pezinho mostrado por uma jovem moça ingênua. Musicalmente, apreciava a música erudita. Literariamente, adorava ler textos mais rebuscados. Era muito mais voltada à pompa do que até mesmo da própria capacidade de raciocinar, que, por incrível que pareça, não era o forte daquela geração.

Existe uma diferença muito grande da mocinha ingênua de 1910 que, indo à praia, mostrava os dedinhos dos pés banhados pela água e a funqueira de hoje que, com cinismo e arrogância, empina seu traseiro volumoso para os olhos de qualquer um, de maneira claramente grotesca.

Somos moralmente muito mais flexíveis, mas isso não significa que somos abertos a qualquer libertinagem. Abusos morais também podem constranger, e a provocação como um fim em si mesmo é vazia de qualquer intenção libertária, principalmente numa sociedade midiatizada e mercadológica que é hoje.

Além dessas comparações moralistas, que mal podem ser equiparadas quando a polícia de hoje reprime "bailes funk" e a de 1910 reprimiu as rodas de samba - que a clara diferença de contexto põe o "funk" em desvantagem, até pelas baixarias que este expressa - , há a comparação com os contextos culturais de outros tempos.

Neste caso, além do samba e do maxixe de 1910, a intelectualidade dominante tenta comparar o "funk" ao jazz dos EUA em 1900 e ao rock'n'roll em 1955. As argumentações usadas pela intelectualidade dominante, em primeira instância, lhes davam esperanças da futura "reabilitação" do "pancadão" pela chamada alta cultura, o que também não tem fundamento algum.

Em primeiro lugar, porque o samba, o jazz e o rock'n'roll se valiam pela linguagem musical. Mesmo quando o público os resumia a fundos musicais de suas festas, mesmo assim o aspecto musical era considerado, não era um mero som para catarse, mas uma linguagem vocal e instrumental que tinham sua razão de ser em relação à música comportada demais apreciada pelos adultos.

Se o jazz, por exemplo, fazia alusão aos formatos fálicos de seus instrumentos, e o samba era considerado sensual e o rock'n'roll tem esse nome por alguma referência sexual, no entanto isso não era colocado como um fim em si mesmo e nem acima do aspecto musical.

Já o "funk" é o contrário. É um ritmo praticamente subordinado ao contexto sexual (e brutal) e nada tem a ver com o desenvolvimento de uma estética musical. Do contrário do jazz, do samba e do rock, o "funk" é esteticamente fechado, tem sua rigidez que o faz o ritmo mais purista do Brasil.

Tecnicamente, o "funk" fica sempre preso na figura de um DJ e um MC. Geralmente o DJ é alguém de classe média baixa, que em muitos casos se torna empresário e fica rico. O MC é o mais pobre, e tudo que ele faz é dizer uma letra com um microfone na mão.

O jazz usava muitos instrumentos, e musicalmente rumou para a sofisticação, até para escapar de diluições que a forma branca e comportada de jazz, chamada Dixieland, fazia para imitar as novidades trazidas pelo jazz negro.

O samba tinha uma ampla variedade de ritmos, como o coco, o maracatu, o jongo, o caxambu, o lundu, e trabalhava não só com instrumentos percussivos, mas com violão, banjo e até alguns instrumentos de sopro. Gerou até mesmo uma variação quase erudita chamada chorinho, que era muito tocada nos redutos boêmios do começo do século XX.

O rock'n'roll veio de uma forma mais comercial de jazz, o swing, que entrou no meio das fusões do country and western e do rhythm and blues. Já tinha uma base musical mais sólida, que já começava a se evoluir no final dos anos 50, com músicos cada vez mais criativos - como Buddy Holly e Bo Diddley - e uma geração de bandas instrumentais que aprimoraram o gênero.

Portanto, nada a ver com o "funk", que havia rompido com todas as lições do funk autêntico feitas até os anos 80 e virou um ritmo fechado em sua "ilha", em seu "mundinho ideológico". Não é o "funk" a vítima de preconceito, antes o "funk" tivesse preconceito com tudo.

O "funk" rejeita todo tipo de evolução social. Seus propagandistas até tentam argumentar o contrário, mas seus argumentos são vagos e inconsistentes. Ficam preocupados com as críticas, mas em vez de cogitarem alguma mudança, posam de vítimas, achando que farão heroísmo resistindo a todo tipo de pressão contrária ao ritmo e ao que ele representa.

Portanto, não há como esperar uma evolução do "funk". Fechado e isolado nos seus princípios estéticos e sócio-culturais mais primitivos, o "funk" só faz aumentar as críticas e a rejeição que recebe. E, quanto mais seus propagandistas tentam promover o "funk" como falsa vítima, mais a sociedade reage tornando a rejeição cada vez mais rigorosa.

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