sábado, 26 de outubro de 2013

CRISE CRIADA PELO PROCURE SABER REFLETE EM NEO-BREGAS


Por Alexandre Figueiredo

A crise provocada pelos medalhões da MPB que criaram, junto com a produtora Paula Lavigne, o movimento Procure Saber, que defende a prévia autorização de biografados ou seus herdeiros para a produção de biografias ou material similar - historiografias ou documentários - se reflete também na geração de neo-bregas e alguns de seus derivados.

Alguns fatores podem até ser coincidência, como Alexandre Pires voltar ao seu antigo grupo Só Pra Contrariar, Chitãozinho & Xororó "presos" no seu auto-tributo sinfônico, Leonardo e seu filho Pedro Leonardo anunciando aposentadoria da música e Daniel, aquele sem sobrenome e repertório próprios, alimentando "visibilidade" no júri do programa The Voice Brasil, da TV Globo.

Podem ser coincidência, mas tais fatores indicam não só a perda de fôlego dos ídolos neo-bregas que marcaram os sucessos "populares" da década de 90 como a perda de sentido que o mainstream da MPB passa a ter para esses ídolos.

Afinal, desde uns quinze anos atrás os neo-bregas - geralmente ídolos do chamado "sertanejo" e "pagode" românticos, mas incluindo também alguns nomes da axé-music, do "forró eletrônico" e do "funk melody" - usaram a mesma MPB que aparecia nas trilhas de novelas e que hoje se reúne no "maçônico" Procure Saber para "repaginar" sua "estética" musical e visual.

Todos esses ídolos - como Chitãozinho & Xororó, Zezé di Camargo & Luciano, Ivete Sangalo e Alexandre Pires - entraram como penetras na festa da MPB através de concessões ao brega feitas por Roberto Carlos, Caetano Veloso e Gilberto Gil, todos encabeçando o Procure Saber.

Era através deles que os neo-bregas adotavam uma estética de luxo e de pompa, que envolvia desde o vestuário até mesmo iluminação e até mesmo normas de etiqueta que, mesmo contradizendo seu aparente apelo popular, davam uma aparente sofisticação que disfarçava suas breguices.

Musicalmente, isso envolvia um aprimoramento técnico dos músicos de apoio, a intervenção de outros arranjadores no repertório dos neo-bregas ou mesmo recorrer a covers do que há de mais manjado na MPB autêntica, de Lupicínio Rodrigues a Renato Teixeira, geralmente com algum conteúdo aparentemente ligado ao romantismo, à fraternidade e à ecologia.

Os neo-bregas foram impulsionados sobretudo por Roberto Carlos, que eu sua fase bregalizada, após a boa fase soul de 1969-1975, e tutelada pela Rede Globo de Televisão (que contribuiu no "refinamento" dos neo-bregas). Nessa fase, o "Rei" havia se convertido de moderno ícone pop brasileiro a um cantor romântico conservador e em certo ponto antiquado e ranzinza.

A música "Caminhoneiro" abriu o caminho para a ascensão de "sertanejos" - ou melhor, breganejos - que deixaram a exclusividade dos palcos do Clube do Bolinha e outros programas da TV Bandeirantes, TV Record e SBT, ou, um pouco antes, na agonizante TV Tupi, para estrearem nos palcos de maior visibilidade da Globo e depois fingirem que "também fazem MPB".

Juntamente com os breganejos, vieram os "pagodeiros", ou melhor, os sambregas, todos diluindo seja a música caipira e o samba durante a Era Collor, mas que, já no fim do primeiro governo de Fernando Henrique Cardoso, exibiam trajes de gala e camuflavam sua crise criativa com covers oportunistas que variavam do Clube da Esquina a Jackson do Pandeiro.

É certo que os neo-bregas, com sua cosmética pseudo-sofisticada, não alcançaram o primeiro time da MPB. Eles só "são MPB", assim, meio de mentirinha, para uma mídia e um público inseridos no contexto popularesco, já que, em verdade, nem de longe representavam a veia realmente criativa que marcou os grandes nomes da MPB autêntica.

Hoje, com a crise atingindo a MPB autêntica pelo zelo excessivo de seus medalhões, os ídolos neo-bregas chegam a um impasse. Aparentemente, adotam uma postura de neutralidade em relação ao Procure Saber. Tentam parecer "apolíticos" nesse processo todo.

Agora, vendo que a "fonte" se sujou através da postura protecionista de suas imagens pessoais, os neo-bregas já nem sabem o que fazer. Ideologicamente conservadores, eles não partirão para uma guerrilha libertária nem jogarão fora suas convicções.

No fundo solidários com o Procure Saber, os neo-bregas sabem muito bem o que é sensacionalismo na mídia "popular" e por isso tendem a exercer um rigor ainda maior na proteção de suas imagens do que pregam Roberto Carlos e Chico Buarque.

Daí situações surreais como certas intérpretes de "funk carioca" se passarem por "solteironas" num artifício sutil para esconder sua vida privada de mulheres bem casadas. Além de um recurso comercial para garantir a imagem "sensual" delas, é também um meio de proteger seus maridões de qualquer factoide.

Quem pega carona nas pregações intelectuais "provocativas" e "superbacanas" ignora que o próprio contexto sensacionalista da mídia "popular" faz com que os neo-bregas tendam a serem muito mais zelosos por sua imagem que qualquer medalhão de MPB.

Ou será que Alexandre Pires vai permitir que algum biógrafo enfatize sua ligação com George W. Bush? Ou as amizades de Belo com criminosos do narcotráfico carioca? Ou a pedofilia do É O Tchan e sua letra sobre estupro ("Segura o Tchan")? Ou o escândalo sexual do DJ Marlboro? E a sonegação fiscal de Ivete Sangalo? Ou o coronelismo de Chitãozinho & Xororó? Etc etc etc.

Os neo-bregas têm muito a temer com as biografias, bem mais do que os membros do Procure Saber. Mas, para evitar problemas, eles evitam qualquer posicionamento. Se assumirem suas posições, não muito diferentes da de Roberto Carlos, por exemplo, passariam por uma projeção negativa que deixaria suas carreiras à deriva.

Não bastasse sua crise criativa, seu desgaste de imagem e mesmo as transformações sócio-culturais que fazem suas músicas perderem o sentido - apesar de relativamente populares para um público ao mesmo tempo conservador e de baixo poder aquisitivo - , os neo-bregas preferem reagir em silêncio à crise causada pelo Procure Saber. Mas, neste caso, quem cala consente.

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