terça-feira, 15 de outubro de 2013

CHICO BUARQUE VETOU PEÇA "RODA VIVA". E OS VETOS A WALDICK, PATOTA PENSANTE?


Por Alexandre Figueiredo

Anos atrás, a imprensa denunciou que o cantor e compositor Chico Buarque veta as montagens de sua polêmica peça Roda Viva, que em 1968 foi montada pelo grupo teatral de José Celso Martinez Correa.

Interpretando os fatos noticiados, Chico Buarque estaria proibindo a montagem da peça por achar "fraca" e "datada", além de "apresentar sérias falhas de dramaturgia". Em contrapartida, a intelectualidade argumentava que isso era "desculpa" para o compositor proibir a montagem de uma peça marcada por sua ousadia e patrulhada pela direita reacionária nos anos 60.

Bastante controversa, a situação coloca em conflito uma intelectualidade empenhada em derrubar os medalhões da MPB, e estaria usando até mesmo seus erros ou controvérsias para desmoralizá-los. Seria uma forma de aplicar o jeito "Francis Fukuyama" de ser da intelectualidade que aposta na bregalização para transformar nosso rico patrimônio musical em peça de museu.

O grande problema é que essa intelectualidade supostamente "libertária" - capitaneada por Paulo César Araújo e Pedro Alexandre Sanches - , se condena quase cegamente o veto de Chico Buarque a uma peça feita na juventude, aplaude quando o veto é feito para proteger ídolos que tais intelectuais defendem, como o cantor brega Waldick Soriano.

Primeiro ídolo "promovido" pela nossa intelligentzia para contrapor a Chico Buarque, através da abordagem tendenciosa de Paulo César Araújo, Waldick Soriano, famoso por sucessos como "Torturas de Amor" e "Eu Não Sou Cachorro, Não", teve sua imagem "reconstruída" pelo livro de Araújo, que leva o título da canção mas se dedica ao brega "de raiz" em geral.

O livro foi lançado em 2001. Pouco mais de cinco anos depois, a atriz Patrícia Pillar, estrela da Rede Globo, fez um documentário sobre Waldick Soriano, Waldick - Sempre No Meu Coração, com patrocínio da Globo Filmes, seguindo a mesma abordagem do livro de PC Araújo.

Por conta disso, ambos, atriz e historiador, fizeram um lobby para vetar a veiculação de dois vídeos, trechos de uma entrevista de Waldick no programa TV Mulher, em 1983, em que o ídolo brega fazia defesa da ditadura militar e do papel submisso da mulher na vida conjugal. Os dois vídeos mostravam um perfil conservador do cantor já mostrado em reportagens do Pasquim.

O veto dos vídeos foi feito para evitar que se arranhe a imagem supostamente "libertária" dada ao ídolo brega, que, numa dessas situações surreais, virou queridinho das esquerdas médias mesmo sendo de direita, enquanto as mesmas esquerdas médias esculhambam Chico Buarque, que é de esquerda.

IRONIA

O aspecto irônico disso tudo é que Roda Viva, a peça, tem um enredo que satirizava a fabricação de ídolos de mercado, criticando a mesma indústria cultural cortejada positivamente pelos tropicalistas.

Pode ser um mistério a razão de Chico querer proibir a veiculação da peça, mas pode-se inferir que ele talvez a atribua a um "espírito do tempo" do qual ele se sente pouco inclinado a rever. Conservadorismo? Desilusão com os tempos atuais? Não se sabe. Mas não seria uma deixa para a intelectualidade transformar Chico Buarque na "Geni" predileta de "pensadores" tão "queridos"?

A intelectualidade cultural dominante, presa numa encruzilhada, vendo seus valores serem derrubados um a um - como a decadência irreversível do "forró eletrônico" - ou seus heróis serem postos em situações embaraçosas (como os "fora-do-eixo" Emicida e Criolo "ajudados" por Paula Lavigne), já não sabe mais o que fazer.

Afinal, eles defendem a veiculação de uma peça de teatro que satiriza o chamado "sistema de estrelato", que, com todos os seus aspectos negativos, também se observa nos "queridos" e "modestos" ídolos bregas defendidos pela mesma intelectualidade pró-brega.

Sim, porque Roda Viva fala de funqueiros, ídolos cafonas, "sertanejos", axézeiros, "forrozeiros eletrônicos", tecnobregas, e tudo mais. Pode ser que o veto de Chico Buarque tenha um certo ranço conservador ou coisa parecida, e talvez, nesse sentido, o "espírito do tempo" não passe de uma opinião pessoal da qual temos o direito até de discordar plenamente.

No entanto, a intelectualidade cultural dominante está num beco-sem-saída. Hoje suas pregações soam algo como alguém andando num campo minado achando estar passeando em um jardim florido. Num trecho ou em outro, inesperadamente, ocorre uma explosão, com efeitos danosos sérios.

Daí que ser "contraditório" e ficar feliz por isso ficou ainda mais complicado. Não dá para defender a bregalização do país e ser progressista ao mesmo tempo. Desilusões ainda menores fizeram gente como Arnaldo Jabor, Marcelo Madureira e Soninha Francine descambarem para a direita. E hoje eles esperam a assinatura de adesão da intelectualidade pró-brega.

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