quarta-feira, 9 de outubro de 2013

CERVEJA DEVASSA FAZ PROPAGANDA ABUSIVA. E O "FUNK", NÃO?


Por Alexandre Figueiredo

O Ministério a Justiça entrou com um processo administrativo contra a campanha publicitária da cerveja preta Tropical Dark, da marca Devassa, que reduz a mulher negra a um mero objeto sexual, prevando à indústria uma multa de R$ 6 milhões.

O anúncio publicitário, em forma de cartaz, mostra uma mulher negra, de vestido vermelho e decotado, sentada em posição de sedução, enquanto o texto indica, com estas palavras: "É pelo corpo que se reconhece a verdadeira negra".

Com toda a certeza, a medida é acertada e necessária, e veio de denúncias encaminhadas para o Procon do Espírito Santo, por conta do conteúdo abertamente machista e deplorável que junta, num só momento, julgamentos machistas e racistas, ambos da pior espécie.

Evidentemente, a intelectualidade acerta quando estabelece campanhas contra os abusos da exploração da imagem da mulher nas campanhas publicitárias. É algo louvável e cuja aprovação é imprescindível. Mas o problema é que a mesma intelectualidade dominante cumpre o trabalho pela metade.

INTELECTUALIDADE DEVASSA

Afinal, se uma marca de cerveja acaba depreciando a imagem da mulher negra brasileira, um ritmo como o "funk" também não faz algo diferente. E as apologias intelectuais para o gênero, marcado pela exaltação do grotesco e pela glamourização da pobreza, se agravam quando tentam associar o suposto valor do "funk" à negritude brasileira.

A campanha da Devassa não se insere num contexto exterior ao da exploração das mulheres-objetos, pois, se observarmos bem, esse processo percorre um caminho de campanha midiática no qual o próprio "funk" está inserido.

Aí é que entra o problema da intelectualidade "sem preconceitos", mas bastante devassa. Pois o que a campanha da marca de cerveja faz, quando é no caso do "funk", é travestida sob o rótulo de "discurso direto" e "direito à sensualidade".

As funqueiras negras, no "funk", são entregues à propaganda de valores machistas e a um falso conflito com os homens, num processo de amor-e-ódio que no ideário brega está marcado em canções como o sucesso breganejo "Entre Tapas e Beijos" (Leandro e Leonardo, Banda Calypso).

Elas mesmas são induzidas a trabalhar como mulheres-objetos, sendo respaldadas por factoides ou pseudo-ativismos que temperam suas aparições na mídia. O "funk" é racista quando diz defender o negro, da mesma forma que o ritmo é retrógrado quando se passa por "progressista".

DOIS PESOS, DUAS MEDIDAS

Portanto, é o mesmo discurso, mas a intelectualidade dá dois pesos e duas medidas. No comercial de cerveja, quando a mulher é explorada como objeto sexual, a intelectualidade dominante classifica como deplorável e digno de condenação.

No entanto, quando é o "funk" transmitindo a mesma mensagem, até de forma ainda mais depreciativa, a intelectualidade faz defesa, diz que é "discurso direto", "direito à sensualidade". O que na campanha publicitária é, para tais intelectuais, sinônimo de baixaria, para o "funk" é sinônimo de "cidadania".

É como no caso da pedofilia. Se a pedofilia é manifesta por internautas comercializando fotos de adolescentes nuas, o que de fato é condenável e abusivo, a intelectualidade se junta ao protesto contra tal abuso. Mas se a pedofilia é expressa com uma adolescente transando com um rapagão no "baile funk", a intelectualidade atribui isso como "saudável iniciação sexual nas periferias".

A impressão que se tem é que a intelectualidade pró-brega e pró-funqueira não está condenando as baixarias em si, mas usando a aparente revolta como um pretexto contra alguma raiva pessoal contra as agências de publicidade.

Talvez seja até uma ingratidão da intelectualidade pró-brega e pró-funqueira com a classe dos publicitários, uma vez que vários cineastas documentaristas que defendem o "funk" e outras breguices aprenderam seus métodos com os cineastas de filmes publicitários que hoje trabalham para a Globo Filmes. Cospem nos garçons que lhes deram o prato de comida em que comeram.

Ou seja, a mulher negra é deixada no meio caminho de sua defesa pela cidadania. Se ela é depreciada pela Publicidade e Propaganda através de uma campanha de cerveja, ela é amparada pela lei e pode recorrer contra tais medidas abusivas.

Mas, se ela é depreciada pelo "funk", chamada de "cachorra" para baixo, usada para servir a esse mercado absurdo de baixarias, ela não pode reagir. E várias funqueiras até compactuam com isso, porque é um mercado lucrativo e elas também não tiveram escolaridade suficiente para se prevenirem contra esse mercado da degradação sócio-cultural.

Portanto, não existe diferença entre o machismo de uma campanha publicitária e o machismo de uma mídia que investe no "funk". É a mesma mídia, são os mesmos valores, é a mesma exploração de estereótipos sociais injustos. Condena-se a referida campanha da Devassa, completamente. Mas deve-se condenar também expressões que contribuem para a mesma degradação.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...