domingo, 13 de outubro de 2013

CASO BRITTANY MURPHY EXPLICA O SENSACIONALISMO MIDIÁTICO


Por Alexandre Figueiredo

Nas discussões brasileiras sobre a questão das biografias de famosos feitas no país, se fala muito da aparente censura atribuída aos biografados em potencial, que se voltam contra a lei que permite a produção de biografias não-autorizadas de personalidades brasileiras.

Um bom subsídio para esse debate, que alerta para o outro lado, o risco da exploração sensacionalista nas biografias, se encontra num caso estrangeiro de exploração de uma tragédia ocorrida há quatro anos.

Em 20 de dezembro de 2009, a encantadora atriz Brittany Murphy, com apenas 32 anos de idade, faleceu por overdose acidental de medicamentos. O fato chocou a opinião pública, que não tinha ideia da grave situação da atriz.

Mas o pior veio depois. Com a imprevista tragédia, a imprensa norte-americana carregou de sensacionalismo, passando praticamente dois anos explorando a tragédia da jovem e bela atriz, sem dar qualquer destaque ao seu talento e a luta que ela teve para obter o reconhecimento público.

Salvo exceções - como a divulgação de uma declaração saudosa do ex-namorado Ashton Kutcher, com quem Brittany fez par romântico na comédia Recém Casados (Just Married), de 2003 - , a cobertura sobre a saudosa atriz se concentrou mais na tragédia, sobretudo nas doenças e na ingestão de remédios.

Tudo isso era feito de uma forma mórbida, que não combinava com o perfil alegre e jovial que a adorável Brittany sempre procurou transmitir ao público e aos que estavam em sua volta, ao longo de toda sua carreira.

O que a imprensa subestimou foi que a talentosa atriz faleceu por motivos causados por uma série de circunstâncias que a deixaram em situação difícil e amargurante, que lhe causaram a depressão que a fez se entregar a doenças e remédios que a fragilizaram até a morte.

Em primeiro lugar, Brittany, conhecida por comédias juvenis como As Patricinhas de Beverly Hills (Clueless) e ex-estrela da Disney, além de comédias românticas como a citada Recém Casados e Grande Menina, Pequena Mulher (Uptown Girls), esta recentemente reprisada pela Rede Globo, na Sessão da Tarde, queria ser reconhecida como uma atriz de trabalhos mais consistentes.

Brittany sabia do mercado competitivo de fazer testes para elencos de filmes diversos. Ela já foi reprovada em testes para diversos filmes e para a dublagem de um dos filmes da Disney com a personagem Sininho (Thinkerbell). E buscava sobretudo participar de filmes de suspense além de produções independentes. Além disso, ela era talentosa cantora e dubladora.

Ela chegou mesmo a ter uma produtora própria, a BAM Productions (sigla das iniciais de seu nome, Brittany Anne Murphy), que chegou a produzir o filme The Ramen Girl (traduzido, em diferentes dublagens brasileiras, como A Garota do Ramen e Sabores de uma Paixão), lançado em 2008 e rodado no Japão.

Seu esforço para trabalhar em produções que variavam desde o filme televisivo Nora Roberts' Tribute ao interesse de participar, como atriz e cantora, do filme Os Mercenários, foi abalado por uma declaração dos executivos da Warner, produtora do filme de animação Happy Feet, em que Brittany fez a voz da pinguim Gloria, que a vetaram para a continuidade do filme.

Entendendo mal a necessidade de Brittany tomar remédios - ela sofria de um problema cardíaco - , e pelas doses a mais que a atriz tomava até pela pressão de médicos movidos pela ganância da indústria farmacêutica (aspecto que pude saber através do livro Comer Rezar Amar de Elizabeth Gilbert), os executivos classificaram a atriz como "drogada" e a cortaram de Happy Feet 2. A cantora Pink, que não tem a doçura de Brittany, foi chamada para fazer a voz de Gloria.

A declaração deixou Brittany bastante ofendida e triste. Para piorar, houve ainda o desentendimento dela com os produtores porto-riquenhos do filme de suspense The Caller, que a fizeram desistir de participar do filme, sendo substituída por Rachelle Lefevre, atriz canadense da saga Crepúsculo.

Enquanto isso, Brittany também era abalada pelos indícios de traição do então marido, o roteirista de filmes inglês Simon Monjack (falecido em 2010), que teria assediado até mesmo a mãe da atriz, Sharon Murphy (que sobreviveu a um câncer de mama em 1991).

Pressionada pelos momentos difíceis, Brittany esqueceu até mesmo duas circunstâncias que lhe diziam à sua vida. Uma é a própria frase que a atriz deu, durante uma entrevista, a qual dizia que "os tempos difíceis podem se tornar os melhores dias de sua vida se você sobreviver a eles" e o enredo do videoclipe da música "Closest Thing to Heaven", dos Tears For Fears, de 2004.

No videoclipe, a própria Brittany faz a moça que está em um balão voando no céu, que depois enfrenta uma grande tempestade que atinge o veículo, que então cai sobre o mar. A mocinha, depois de cair no chão com o impacto, se recupera e, vendo um peixinho balançar sobre seu peito, dá um sorriso, enquanto o clipe se encerra com o veículo boiando tranquilo sob uma paisagem ensolarada.

As pressões da vida impediram que Brittany seguisse adiante nos seus projetos. Ela não pôde fazer Os Mercenários - filme comercial, de pancadaria, mas que devolveria o sucesso à atriz - nem dar início a um projeto de cantora solo, e se viva fosse teria até mesmo feito filmes de grande destaque ou, quem sabe, fazendo participações até em sitcons como Two and a Half Men, com o mesmo Asthon. Frank Miller já lhe teria garantido participação no Sin City 2, hoje em produção.

Mas a segunda tragédia de Brittany Murphy foi dada pela imprensa sensacionalista, que ignorou o que havia de melhor na atriz, seu grande talento e seu jeito meigo, alegre e jovial. Hoje está em andamento a biografia oficial da atriz, feita pelo pai Angelo Bertolotti sob a colaboração de uma jornalista, num esforço de garantir para a posteridade a memória sobre essa pessoa admirável.

O medo é que venham, na carona, outras biografias não-autorizadas que possam explorar de forma mórbida a tragédia da atriz, numa clara intenção sensacionalista. Daí o risco de liberarmos indiscriminadamente as biografias.

Que venham as biografias oficiais e sejam benvindas até as não-oficiais, mas que haja limites para a exploração sensacionalista que só destrói reputações em prol do lucro fácil de biógrafos e editores maliciosos.

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