domingo, 6 de outubro de 2013

BONITO É ELITE INTELECTUAL GOSTAR DE LIXO CULTURAL. JÁ POVO CURTIR CULTURA DE QUALIDADE...

QUINTETO VIOLADO - Intelectuais acham que só eles podem gostar de música de qualidade. O povo pobre que fique com seus breguinhas "maravilhosos"...

Por Alexandre Figueiredo

O discurso intelectual em prol da bregalização do país fala em "diversidade cultural", mas dentro da mesma perspectiva que os chamados "urubólogos" - a tal "massa cheirosa" do noticiário político da grande imprensa - entendem como "democracia".

É a mesma perspectiva, também, do "livre mercado". "Livre mercado", "democracia", "liberdade de expressão", "livre iniciativa" e, claro, "diversidade cultural". Todos esses conceitos evocando uma "liberdade" que tem muito mais a ver com a manutenção do "estabelecido", o que indica um conservadorismo ideológico, do que para qualquer pretexto realmente libertário.

Sem poder convencer com seus pontos de vista confusos, os intelectuais pró-brega não vão além das vitrines vivas de suas palestras. Seus pontos de vista, da forma como eles são apresentados, até arrancam aplausos entusiasmados de plateias de desavisados, mas, quando confrontados com argumentações contrárias, se fragilizam.

Eles mantém até mesmo um discurso vicioso. Tornam-se um tanto autistas. Acham que poderão ser "progressistas" fazendo comentários forçadamente negativos contra gente da qual recorrerão nos momentos mais difíceis, de Ali Kamel a Marcelo Madureira, de Fernando Henrique Cardoso a Ana Maria Braga, de Yoani Sanchez a Eliane Cantanhede.

No entanto, caem em muitas contradições, ficam com medo de explicar suas posturas, de esclarecer. Porque esclarecer significa tirar suas máscaras "provocativamente libertárias", exibindo os neocons que são, em que "grandes lobos" e "estudiosos de urubus" jantam com os "farofa-feiros" a mesma gororoba "popular" servida pela grande mídia.

Aí essa intelectualidade acha bonito ver elites tidas como esclarecidas - independente de sê-las de fato ou de forma bastante falsa - gostar de "cultura ruim". Certa vez Eduardo Nunomura esnobou, numa "urubóloga" ironia, sobre a "cultura que não presta", choramingando porque não pode ele, lá de São Paulo, salvar o forró-brega em queda livre nas próprias regiões Norte e Nordeste.

Ou então há a choradeira do pessoal da APAFUNK, "exilada" em São Paulo, ao ver a crescente rejeição que o "funk" sofre no Rio de Janeiro e contra a qual nada é feito pelo próprio povo das periferias.

Todo mundo chorando pelo óbvio: a cultura de qualidade duvidosa, de "mau gosto", é rejeitada até mesmo por boa parte do povo. A rejeição, do contrário que a intelectualidade pregava, nem de longe veio de sociedades moralistas adormecidas há cem anos atrás, mas de pessoas com algum senso significativo de modernidade e flexibilidade moral.

Outro aspecto que deixa a intelectualidade dominante transtornada é que seu discurso pró-brega de uma forma ou de outra cai no ridículo. Acabam ficando constrangidos com a má repercussão de suas posições.

Isso se deve pelo fato de que, para a intelectualidade, é bonito que as pessoas dotadas de algum esclarecimento, seja presumido ou real, aprecie ou ao menos respeite a bregalização cultural em todos os aspectos.

Dizendo mais claro: para os intelectuais, é bonito que alguém esclarecido apoie o brega, o "funk", o forró-brega, o tecnobrega, o "pagode romântico", as "popozudas" e os mendigos embriagados dançando feito falsas odaliscas nas ruas. É bonito, segundo tal visão, ver o povo pobre fazendo seu papel pitoresco, grotesco, cafona, piegas e, acima de tudo, ridículo.

Só que para a mesma intelectualidade, feio é o povo pobre superar tudo isso, sem o patrocínio paternal da própria intelectualidade. Feio é rejeitar os símbolos, valores e ídolos da mediocrização cultural, constatando que eles são inúteis para representar a futura evolução cultural das classes populares.

Bonito, para essa intelectualidade, é ver o povo pobre preso nos valores degradados do "funk", que envolvem do machismo à criminalidade, e musicalmente não ir além de um microfone e um toca-discos. Feio é ver um pobre tocando piano, violão, querendo ser Oscar Castro Neves, Turíbio Santos, feio é surgir um novo Pixinguinha e um novo Gonzagão nas próprias periferias.

Daí que a intelectualidade dita "progressista" que defende o brega cai em contradição. Tanto reprovam o suposto "moralismo" contra o "funk" que eles atribuem aos valores de 1910, mas se esquecem que eles mesmos evocam, ironicamente, neuroses vindas dos antigos escravocratas parcialmente identificados com o iluminismo francês.

Naqueles tempos, meados do século XIX, os intelectuais dominantes tinham medo que a abolição da escravatura faria os negros saquearem lojas, incendiarem cidades e matarem quem estivesse na sua frente, criando um banho de sangue.

É a mesma coisa que os intelectuais pró-brega pensam. Se surgir um novo Pixinguinha, em vez de um Thiaguinho, Belo ou Alexandre Pires da vida, ou um Gonzagão no lugar de um Calcinha Preta da vida, a intelectualidade dominante prega seu horror moralista verdadeiro, julgando que um novo Pixinguinha e um novo Gonzagão trarão desordem e vandalismo nas ruas.

Isso é que é elitismo. É muito fácil defender a "cultura ruim" nos salões intelectuais. Muito fácil. Difícil é combatê-la e desejar uma cultura melhor para o povo pobre, sua superação de uma "cultura popular" claramente ligada aos interesses dominantes existentes nos subúrbios, nas roças e favelas. Desejar cultura melhor não é elitismo.

Elitismo, sim, é defender que o povo pobre permaneça na sua mediocridade cultural, na sua indigência, na sua degradação, e achar tudo isso "lindo e maravilhoso", apostando num mito de suposta pureza atribuído à ignorância e a pobreza que permitem a libertinagem e as barbaridades que acontecem sob o rótulo de "popular" no Brasil.

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