sábado, 12 de outubro de 2013

BIOGRAFIAS: A INTELECTUALIDADE NÃO FAZ SUA PARTE


Por Alexandre Figueiredo

A intelectualidade cultural dominante dá sua bronca violenta aos integrantes do Procure Saber. Acusam seus membros de censurarem o trabalho dos biógrafos e jornalistas - e dos cineastas que produzem documentários, que se equiparam a essa trabalho - , mas não fazem a sua parte em resgatar o que realmente vale a pena na cultura brasileira.

O que se vê hoje de documentários, cinebiografias, biografias, em sua maioria? Apenas nomes bregas que nem valem a pena serem guardados para a posteridade, sendo apenas ídolos feitos para o consumo efêmero de seus sucessos fáceis, mas que, protegidos pelo rótulo "popular", querem se passar por "libertários" e "eternos".

Juntem-se o material cinematográfico e bibliográfico lançado, em andamento ou ainda em preparação. Temos atrás, tínhamos Zezé di Camargo & Luciano, Leonardo, Daniel, Waldick Soriano, Frank Aguiar.

Temos livro sobre os antigos ídolos cafonas, livro sobre É O Tchan, temos documentário sobre funqueiras e até sobre dançarinos "lelekes". Vamos ter cinebiografia com Banda Calypso, documentário sobre Valesca Popozuda, deve vir aí a de Michel Teló, Thiaguinho, Naldo Benny e por aí vai.

Muita perda de tempo e dinheiro para reafirmar apenas aquilo que se consagrou pelo jabaculê, uma pseudo-cultura que só se tornou "popular" graças à "pequena" ajuda de rádios e TVs controladas por oligarquias apadrinhadas por José Sarney e Antônio Carlos Magalhães.

A intelectualidade cultural dominante, que tanto fala mal da "corte" da MPB que se mobiliza no Procure Saber, também não faz sua parte. Há muito mais coisas legais para se trabalhar em biografias e documentários, ou mesmo monografias.

Por exemplo: fala-se tanto de Alexandre Pires (dentro dos ambientes da grande mídia) e de Leandro Lehart (dentro dos meios acadêmicos), mas ignora-se que, fora do âmbito desses ídolos cafonas pseudo-sambistas, tivemos nomes muito mais talentosos do samba moderno, como Jorge Veiga, Roberto Silva, Noite Ilustrada e o "jazzístico" Denis Brean.

De Denis Brean, autor da música "Bahia com H", gravada por Dorival Caymmi, e de músicas humorísticas como "Boogie-Woogie do Rato", quase nada se lembra. Não se trabalha a memória da música brasileira de verdade na forma devida, apesar dos esforços de algumas pessoas (como Charles Gavin e Ricardo Cravo Alvim).

E a cantora Sylvia Telles, uma das maiores da História do Brasil? Nada é descrito sobre ela, a não ser biografias coletivas sobre Bossa Nova ou o envolvimento dela com outros personagens bossanovistas biografados, como Tom Jobim, Vinícius de Moraes e João Gilberto. Fora isso, não há uma preocupação de um trabalho biográfico especialmente dedicado à saudosa cantora.

Tivemos coisas brilhantes, vibrantes, que não consistem em meros processos rápidos de lotar plateias, vender discos ou promover grandes audiências na mídia. Hoje o "valor" da cultura brasileira é meramente econômico, daí a convicção da intelectualidade em defender o brega: porque o brega é uma questão de números, não de valores sócio-culturais.

Por isso, a choradeira intelectual mais parece uma raiva de ressentidos. Preferem desmoralizar a MPB, em vez de dar uma contribuição substancial. Os intelectuais só usam os "malditos"da MPB para assinar embaixo da breguice que tais intelectuais defendem. Só usam o "lado B" da MPB para defender as convicções nem sempre confiáveis da intelectualidade cultural dominante.

Daí a situação agravante. A intelectualidade cultural dominante reclama pela construção de uma memória justa para a MPB. Mas não faz a sua parte, preferindo se guiarem pelo jabaculê do momento. Acham que o jabaculê de hoje será o folclore do futuro. Só que isso nada tem a ver com a preservação da cultura, porque são apenas mercadorias que nada acrescentam ao nosso país.

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