domingo, 13 de outubro de 2013

APOIAR O BREGA NÃO REDUZ DESIGUALDADES NA MÚSICA BRASILEIRA


Por Alexandre Figueiredo

Uma verdadeira onda de desentendimentos na chamada "alta cultura" brasileira tornou-se o preço caro que décadas de mediocrização produziram sob a mais absoluta blindagem intelectual que se intensificou nos últimos anos.

O fosso que separava artistas e intelectuais que sabiam muito das coisas e outros que "não sabiam tanto assim", o que, no âmbito musical, corresponde, respectivamente, à "privatista" MPB autêntica e ao "popular" dos bregas e derivados, apenas aumentou ao longo do tempo e hoje nem mesmo os jovens universitários têm mais acesso à MPB que seus congêneres curtiam ou criavam.

Sem o apoio popular, distanciados pelas circunstâncias do grande público (do qual a ditadura separou a nata da MPB), artistas como Caetano Veloso, Gilberto Gil e Roberto Carlos se fecham num elitismo que, por vezes, se volta mais aos interesses particulares do que aos interesses públicos que deixaram de entender plenamente.

Como uma ilha que se separa de um continente por conta das transformações geológicas e meteorológicas, o mainstream da MPB autêntica há muito deixou de representar oficialmente a canção popular por excelência.

Um fato ilustrativo disso é que os medalhões da MPB resolveram fundar o Procure Saber para pedir o veto de uma lei que prevê a liberação de biografias não-autorizadas de artistas vivos ou mortos de música brasileira e de outras modalidades culturais do país.

Para piorar, os artistas musicais que sabem muito acabam criando um conflito com escritores que também sabem muito, como Ruy Castro, ele mesmo um conhecedor da Música Popular Bem Brasileira (como o saudoso Sérgio Porto definia a MPB autêntica), mas que foi vítima de um processo movido contra a biografia que ele fez do jogador de futebol Garrincha.

Só que a situação não pode ser vista como o maniqueísmo que é. Ela é muito, muito mais complexa. É muito fácil classificar a MPB como um mal e os biógrafos como um bem, mas isso tudo é muito, muito perigoso.

Como descrevemos, não são somente os medalhões da MPB autêntica que mantém esse zelo rigoroso de imagem. Se Roberto Carlos é zeloso demais pela sua imagem, esse zelo não é diferente por exemplo entre os herdeiros e partidários do cantor brega Waldick Soriano, que pediram a retirada de vídeos no portal Globo Vídeos em que ele fazia defesa da ditadura e do machismo.

Citemos também outros nomes: Leandro Lehart, Banda Calypso, Chiclete Com Banana, Mr. Catra, Odair José, Amado Batista, Calcinha Preta, Psirico. Todos ícones do "caleidoscópio" brega que habita a órbita grão-midiática sob a vista grossa da intelectualidade.

Eles também teriam um zelo rigoroso para trabalhar sua imagem. Mas eles passam a imagem de "heróis", confortavelmente cobertos pelo manto do "popular", e supostamente representam a "liberdade plena" que faria muitos suporem que eles são partidários da "biografia livre e honesta".

Por outro lado, se existem biógrafos responsáveis como Ruy Castro, da mesma escola de historiadores e jornalistas comprometidos com a boa informação - estou lendo 1889, de Laurentino Gomes, depois de ter lido seus 1808 e 1822 -  , há gente comprometida com o sensacionalismo a vender polêmica barata despejando um monte de inverdades.

O que existe é um conflito entre o saber e o não-saber, no âmbito da arte, em que o sucesso hoje é monopolizado pela mediocridade artístico-cultural, com suas aberrações associadas ao grotesco e ao pitoresco, enquanto quem tem talento se limita a ser apreciado pelas elites, e acaba, com o tempo, afetado pelos interesses e necessidades das mesmas.

E aí surge esse conflito. O Procure Saber contra a classe literária. E isso com o grande público assistindo, passivo, a tantos problemas, e, sem entender coisa alguma, prefere ligar naquelas rádios "populares" controladas por oligarquias e consumir o breguinha que está acostumado a consumir, como alguém que há muito contraiu um cacoete.

Apoiar o brega e criar maniqueísmos entre a MPB "de luxo" e os "populares", no qual o episódio do Procure Saber é apenas um exemplo, não resolve as desigualdades que existem na cultura brasileira. Não será a criação de um "Procure Não Saber" com ídolos bregas, ícones cafonas diversos e biógrafos pirateiros ou sensacionalistas que irá resolver o problema.

Pelo contrário. O falso maniqueísmo da "alta cultura" que "não presta" e a "baixa cultura" que "é o máximo" só está camuflando e pondo debaixo do tapete muitas das sujeiras que afetam a cultura popular nos últimos 45 anos.

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