terça-feira, 8 de outubro de 2013

"ANTROPOFAGIA" DOS LELEKES?


Por Alexandre Figueiredo

A intelectualidade dominante tenta "etnografar" a "cultura de massa". Não existe diferenças entre escritórios, quadras de esportes, pistas de dança, latifúndios. Tudo é "tudo", oras! Não precisamos gostar, mas somos obrigados a não discutir.

(Mau) gosto não se discute, se aceita sem verificar. Este é o mandamento máximo da intelectualidade dominante, sobretudo cineastas que aprenderam a fazer "cinema independente" com os cineastas-publicitários da Globo Filmes. E que breve seus filmes serão exibidos em algum canal da Globosat, abençoados, na "pior" das hipóteses, por Luciano Huck.

Mais um da cinematografia funqueira está com lançamento previsto. É o documentário Batalha do Passinho, de Emílio Domingos, que segue a cartilha da "etnografia de resultados", do "marketing da exclusão" que reforça o mito da "pobreza legal" trabalhado pelo "funk".

O filme tenta, de alguma forma, recuperar a reputação perdida do "funk carioca", que agora virou "vidraça" nas redes sociais da Internet e cujas críticas, pesadíssimas, ultrapassam os supostos limites das elites eruditas de nosso país. E, antes que o "funk ostentação" vire "vidraça" (o que já começa a ocorrer), é hora de salvar a pele dos "lelekes".

O documentário, portanto, se guia na dança popularizada pelo jogador de futebol Neymar (atualmente na seleção brasileira e no clube espanhol Barcelona), através de um sucesso do grupo MC Federado e Os Lelekes, que encontra problemas judiciais por conta das disputas por "autoria" do referido hit, "Passinho do Volante" ("Ai lelek-lek-lek-lek"...).

Não seria o documentário uma forma de arcar recursos para "resolver" a questão, talvez contribuindo para alguma indenização ou procurando promover o grupo que ainda sofre problemas por haver um clone se apresentando com o mesmo nome?

Em todo caso, o documentário mostra que a intelectualidade dominante não cansou de tentar salvar o "funk", um ritmo travestido de "liberdade artística e moral" que, na verdade, impõe um rigor extremo na sua linguagem sonora e cultural, prendendo a juventude das favelas num sistema rígido de valores morais e artísticos presos na mediocrização e na degradação.

O documentário ainda aposta na retórica "antropofágica" da dança do "passinho". Claro, põe na conta de Oswald de Andrade, falecido há quase 60 anos! E ainda se fala em usar o samba e o frevo para "justificar" este modismo funqueiro, na vã tentativa de atribuir ao ritmo uma diversidade cultural que na verdade não existe.

O discurso intelectual se torna repetitivo, persuasivo, choroso, e este documentário, em que pese o verniz de reportagem e etnografia, é mais uma campanha publicitária do "funk" em forma de documentário. Vende-se um modismo, um estereótipo, mas vende-se com "categoria".

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