quinta-feira, 10 de outubro de 2013

A ELITE DA MPB, A INTELECTUALIDADE, A MÍDIA E AS DESILUSÕES PELO CAMINHO

 
Por Alexandre Figueiredo

O episódio do Procure Saber, o movimento que a elite da MPB articulou para proteger suas imagens pessoais e restringir as biografias à autorização prévia de cada envolvido - situação que vai além do âmbito musical, mas atinge diretamente a MPB - , criou uma crise dentro do âmbito da música brasileira, sem precedentes na sua história.

Afinal, é uma crise que atinge seriamente a chamada "nata da MPB", composta sobretudo de medalhões de talento indiscutível, mas que há muito deixaram o ímpeto idealista e de alguma forma libertário que os consagraram sobretudo na segunda metade da década de 1960.

A atitude de aparente conservadorismo dos artistas de MPB acaba sendo um efeito do distanciamento ao grande público que a ditadura militar, através da mídia que a apoiava, fez da música brasileira que havia sido vanguarda nos idos de 1965 e 1966 e "chegou ao poder" nos festivais da canção das emissoras de TV.

Não que o grande público ficasse proibido de ouvir a geração de universitários que, numa síntese, juntava para si - fala-se coletivamente, não em casos individuais - o legado da Bossa Nova, a redescoberta da música popular de raiz e a influência do pop contemporâneo, sobretudo através do rock. Mas, para este público, a moderna MPB é tão distante quanto a canção dos EUA.

Esse afastamento elitizou a MPB, não bastasse o rompimento do debate sobre cultura brasileira trazido pelos CPCs da UNE. Esse debate ficou inócuo, por razões óbvias, e o rico patrimônio cultural do povo acabou ficando discriminado e confiscado pelas elites. Enquanto isso, a "cultura" que o povo pobre passou a "ter" vinha da mídia coronelista de todo o país.

Diante disso, a intelectualidade cultural que se tornou hegemônica no Brasil passou a defender a bregalização como forma de acentuar esse separatismo, embora a pretexto de "extingui-lo". Sob a desculpa da "diversidade cultural", a intelectualidade pregava para as elites a aceitação da breguice cultural, enquanto o povo pobre continuava privado de cultura de qualidade.

A intelectualidade dominante na abordagem cultural passou então por diversas utopias e desilusões. Ela se formou a partir de adaptações das ideias neoliberais, sobretudo de Fernando Henrique Cardoso, que influía no pensamento acadêmico até 2002.

Depois, com a vitória de Luís Inácio Lula da Silva, a intelectualidade cultural pró-brega e formada sob o signo do combo neoliberal PSDB/Folha/Globo resolveu, feito pombos voando sobre o milho, assumir um pretenso esquerdismo, chegando a ocupar espaços midiáticos progressistas.

Culturalmente, era uma intelectualidade que primeiro estava vinculada, numa clara tietagem e veneração fanática, a Caetano Veloso. Por associação, era também uma intelectualidade simpatizada com Roberto Carlos, visto como o "modernizador da música brasileira", por popularizar a guitarra elétrica e abrir os "portos" brasileiros às nações amigas.

Com o tempo, vieram as desilusões. Caetano Veloso, por seu tendenciosismo e pelas queixas constantes da imprensa cultural, deixou de ser a "unanimidade" na nossa intelligentzia, por às vezes apoiar personalidades pouco simpáticas à intelectualidade dominante.

Recentemente, foi a vez de Roberto Carlos, com seu incidente com o historiador Paulo César Araújo, que foi proibido de publicar a biografia não-autorizada do cantor capixaba, que fez romper o apoio da intelectualidade dominante, que saiu solidária com Paulo César, enquanto passava a definir o "Rei" como conservador, paranoico e supersticioso.

A intelectualidade passou também a se antipatizar com Chico Buarque, por razões aparentemente não muito claras. Supostamente é devido ao fato de Chico pertencer a um clã de artistas e intelectuais, cujo patriarca foi o historiador Sérgio Buarque de Hollanda, e por simbolizar o elitismo poético-musical da Bossa Nova, hostilizada por por intelectuais dotados de certo populismo.

A antipatia criou uma polarização dentro do grupo que estava na órbita do Ministério da Cultur.a, entre a gestão de Gilberto Gil e Juca Ferreira e a de Ana de Hollanda, irmã de Chico Buarque. O primeiro grupo era mais de simpatia da intelectualidade cultural dominante, enquanto o segundo grupo era ligado aos burocratas do ECAD (Escritório Central de Arrecadação e Distribuição).

A polarização mostrava um grupo "libertário" se opondo ao grupo "elitista". De um lado, a turma de Gil e Juca defendendo a quebra do copyright, a bregalização do país, o aquecimento do mercado musical. De outro, a turma que queria estabelecer regras rígidas de direitos autorais, sem repassar muito dinheiro para os próprios artistas e autores envolvidos.

Só que, com a adesão de Gilberto Gil ao grupo do Procure Saber, veio mais uma desilusão da intelectualidade, que passou a ironizar a postura "libertária" do compositor baiano, quando pouco antes Gil era quase uma unanimidade para essa mesma intelectualidade.

O grupo ainda atraiu Erasmo Carlos, para o qual a intelectualidade depositava a confiança perdida em Roberto Carlos, o que vale ainda mais desilusão. E ainda tem a adesão de Milton Nascimento e Djavan, num terreno em que fazia mais sentido o apoio de um Ivan Lins, ligado ao grupo do ECAD.

A reação do grupo contra o Procure Saber, por outro lado, uniu Pedro Alexandre Sanches tanto a Kiko Nogueira (Diário do Centro do Mundo) quanto André Barcinski, André Forastieri e Mônica Bérgamo. Esta teve um "bate-boca" (ou melhor, um "bate-teclas") agressivo com Paula Lavigne, a "capitã" do Procure Saber.

Enfim, a intelectualidade cultural dominante enfrenta uma verdadeira tormenta, que coloca o mainstream da MPB numa séria crise, tão grave quanto aquela do ECAD quando queria censurar o uso de vídeos do YouTube em blogues.

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