quinta-feira, 12 de setembro de 2013

ZECA BALEIRO NÃO ENTENDEU CHICO BUARQUE


Por Alexandre Figueiredo

Em seu texto "A cantilena do fim da canção", o cantor e compositor Zeca Baleiro fez uma comparação entre o comentário que Chico Buarque tinha feito, anos atrás, de que a era da canção chegou ao seu fim, e a famosa tese do historiador Francis Fukuyama sobre o "fim da História".

Baleiro tentou argumentar que o "fim da canção" lamentado por Chico Buarque seguia o mesmo raciocínio do "fim da História" fukuyamiano, que afirmava que não haveria mais evolução na História da humanidade e que o mundo foi reconfigurado por paradigmas tecnocráticos e "globalitários" que eliminavam as ideologias e as movimentações sociais que impulsionavam o curso histórico.

Só que Zeca cometeu um sério equívoco, ao comparar as duas visões. Há uma grande diferença de um Chico Buarque lamentando o fim da canção e Francis Fukuyama anunciando, feliz da vida, que a História "acabou".

Por um erro de interpretação, Zeca confundiu o "não" do cantor com o "sim" do historiador, lembrando muito um conhecido vício gramatical cometido por pessoas bastante letradas em que, num preciosismo discursivo "erudito", mas semanticamente equivocado, colocam palavras como "algum" e "nenhum" como "sinônimos".

O que Zeca não percebeu é que Chico Buarque quis dizer "Que chato! A canção não existe mais", enquanto Francis Fukuyama dizia "Que legal! A História acabou!". São até posturas antagônicas, que talvez a pressa de leitura numa entrevista grande não tenha permitido perceber sem uma avaliação mais cautelosa.

Ora, este é o problema de Chico Buarque para aqueles que militam pela bregalização da cultura brasileira. Mesmo para quem já gravou canções do compositor carioca, como Zeca Baleiro. Chico é capaz de dar grandes, interessantes e consistentes entrevistas, contra a suposta "simplicidade" dos ídolos brega-popularescos, mesmo um veterano Odair José, que foi produzido pelo mesmo Baleiro.

O que Zeca também não percebeu é que os defensores de Francis Fukuyama estão no seu lado. Vide os amigos blogueiros Pedro Alexandre Sanches e Eduardo Nunomura, do blogue Farofa-fá. Estes, sim, discípulos ainda não assumidos, mas escancarados, do "fim da História" na música brasileira: a História "acabou", vamos consumir, vamos samplear, vamos bregalizar, vamos emporcalhar.

Evidentemente, Francis Fukuyama e suas iniciais em F duplo de Farofa-Fá, com seu "funk-uyama ostentação" histórico, queria definir um novo tipo de sociedade pós-histórica, baseada na supremacia da tecnologia e do mercado, com a suposta superação das ideologias. É justamente essa a plataforma ideológica dos farofa-feiros, sobretudo Sanches, o "filho ainda não-pródigo" da Folha de São Paulo.

E olha que tal definição independe de ser a favor ou contra seus pontos de vista. É questão de parar para pensar e observar o que Sanches e Nunomura querem dizer, sem nos atermos ao discurso aparente, relacionando mensagens ocultas, contextos de suas trajetórias pessoais, inclusive a verdadeira ruptura do preconceito contra a memória histórica.

Afinal, é um preconceito muito grande, o pior deles, a memória curta. Ela permite que antigos personagens abandonem suas posturas tradicionais em troca de vantagens pessoais. Daí o "efeito Lula" que trouxe para as esquerdas o apoio tendencioso de "raposas velhas" direitistas, até mesmo Paulo Maluf.

Por isso a falta de memória histórica permite certas manobras. Os defensores da memória curta, por mais que critiquem Francis Fukuyama, deveriam agradecer a ele pelo "fim da História", que sugere também o sepultamento da memória da humanidade e pela dispensa da necessidade de uma verdade histórica.

Afinal, é graças a Francis Fukuyama que Paulo César Araújo pôde manipular a seu bel prazer a historiografia da música brasileira, fazendo os ídolos do brega "de raiz", que na verdade eram direitistas, apoiavam a ditadura militar e não queriam saber de protestar contra coisa alguma, passarem a ter a imagem falsa, mas agradável, de "artistas de protesto".

Em contrapartida, Chico Buarque, figura progressista, artista ímpar, esquerdista autêntico, passou a ser visto como um "bode expiatório" da MPB, falsamente promovido como "apoiador da ditadura", "discípulo de Fukuyama", "elitista feroz", "príncipe do ECAD" e outras injustiças. Depois vão dizer que os bregas, bem de vida no circuito midiático, é que são os injustiçados.

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