quinta-feira, 26 de setembro de 2013

TOGAS E DIPLOMAS: "POPULAR" NÃO SERVE DE ESCUDO


Por Alexandre Figueiredo

O que é uma intelectualidade cultural progressista? Aquela que defende o "popular", seja o que ele for ou o que, ao menos pareça ser? Não. Estamos lidando com um grave problema, por conta da intelectualidade cultural que temos, que é o de defender o "estabelecido" no entretenimento comercial representado pelo brega.

O brega e seus derivados - houve quem não achasse, por exemplo, o "funk" derivado do brega, mas sociologicamente a realidade mostrou que os dois têm a ver, sim - apostam na imagem estereotipada do povo pobre, glamourizando a miséria, o sofrimento, a degradação social, como um teatro da desgraça alheia que conforta e diverte as elites pensantes do país.

Há muito denunciamos que o povo pobre está sem sua própria cultura, seu patrimônio original foi usurpado pelas elites pensantes dos anos 90, que se autoproclamam "progressistas" e fazem falsos ataques à "urubologia" reinante, mas que são dotadas de gente cuja linha de pensamento é herdada das pregações acadêmicas de Fernando Henrique Cardoso.

Aí esses pensadores vão dizer: "Ih, lá vem o Mingau dizendo que eu tenho origem tucana. Que papo cansativo!", e vão fazendo mil malabarismos. Uns tentam dizer que isso não tem a ver, outros que estão acima das ideologias, mas a maioria faz vista grossa, confiante demais que a visibilidade lhe esconde detalhes sombrios.

Até agora não temos uma intelectualidade cultural que pense numa perspectiva esquerdista. Há apenas uma intelectualidade que expressa apenas seus referenciais pessoais e outra que estabelece pontos de vista "emprestados" de visões de centro-direita. Nesta segunda categoria incluem-se os alienígenas como Paulo César Araújo e a turma do Farofa-fá.

Pensar nos "esquecidos" ídolos bregas, falar, num tom meio jocoso, meio melodramático, que fulano um dia fez muito sucesso na TV e nas rádios, com suas músicas chorosas que falam de lamentos exagerados, mas um dia caiu no "injusto" esquecimento e hoje luta para voltar, não é em si um pensamento de esquerda. Esqueçam isso.

A intelectualidade que pensa assim, da mesma forma que a outra parcela que tenta exigir ampla respeitabilidade a ritmos como o "funk", que a ninguém respeita, só está querendo, "gilmar-mendesiosamente", vender o seu produto, e, "joaquim-barbosamente", convencer a opinião pública.

Se apoiam no "popular" achando que estão puros, tentam convencer a sociedade que expurgaram todos os preconceitos sociais, defendendo o som que toca no radinho de empregadas que esses mesmos intelectuais sentem o temor de que dirijam contra eles, a qualquer momento, algum processo trabalhista por baixos salários ou não cumprimento de encargos trabalhistas.

Eles pensam e pregam que trabalham para defender a "verdadeira cultura do povo", mas o que eles defendem é uma forma estereotipada de cultura das classes populares. É como um antropólogo que nunca defenderia as tribos indígenas da forma como realmente são, mas da forma caricata dos índios de bailes de fantasia ou dos filmes de Hollywood (?!).

Se as togas dos juízes não inspiram necessariamente total sabedoria, falhando muitas vezes com as leis e estabelecendo promiscuidade até com corporações midiáticas devedoras de impostos, por que a intelectualidade cultural, que defende os valores culturais dessas mesmas corporações midiáticas, ainda não é largamente contestada?

Dizer que não tem a ver com grande mídia ou com o grande mercado é fácil. Como é fácil a intelectualidade pró-brega, num surto pedante de crítica política, fazer ataques falsos, forçados e pouco criativos ao "urubólogo" da moda, seja Ali Kamel ou Arnaldo Jabor. O problema é que essa mesma intelectualidade cultural faz amor com a grande mídia, e a namora escondido com prazer.

Eles são diplomados, premiados etc. Mas isso não lhes garante a transparência nem a isenção de suas ideias. Pelo contrário, em algum momento eles são atropelados pelas contradições, na medida em que defendem a mediocrização cultural, a imbecilização sócio-cultural das classes populares e a permanência do povo pobre como estereótipo de si mesmos.

A cosmética discursiva pode maquiar seus argumentos, dizendo que o "funk" sempre esteve fora da mídia, por mais que esteja dentro dela, ou que o brega nunca teve a ver com a grande mídia, mesmo que dela tenha extraído seus valores, símbolos e crenças. Mas não pode maquiar a realidade, que está a olhos vistos.

Reduzir as classes populares a uma forma mais caricatural do que se vê nas comédias da TV aberta é o que o brega está fazendo. O tecnobrega, o "funk", o "sertanejo", a axé-music, o "forró eletrônico", todos esses ritmos "populares" mais tendências não-musicais como as "popozudas" e os noticiários "policiais", também trabalham na caricatura do povo pobre.

A intelectualidade pensa que questionar essa imagem - que, para ela, não é caricatural - é preconceito. Só que o preconceito está, na verdade, na visão supostamente "sem preconceitos" dessa intelectualidade. Ela é que acha que a imagem caricatural que a grande mídia, nacional ou regional, trabalha sobre o povo pobre, é que é "autêntica" e "pura".

Portanto, estamos lidando com elites pensantes que, na verdade, se recusam a pensar a cultura popular. Mais parecem economistas, porque eles defendem bregas e derivados através do sucesso que fizeram, ou seja, mais discos vendidos, maior sucesso no mercado. E sua concepção de "diversidade cultural" tem muito mais a ver com "livre mercado" do que cultura de verdade.

A própria cultura se evolui. Mas a intelectualidade dominante quer que a cultura popular caminhe para trás, permaneça naquela pasmaceira patética da breguice dominante, que transforma o povo pobre numa multidão apatetada, quase debiloide.

Pensam que só o dinheiro do Ministério da Cultura vai resolver qualquer problema no brega, e mais uma vez eles pensam economicamente. Mas cultura é um tema ligado a valores sociais e artísticos, não é uma questão de lotar plateias ou levantar audiências.


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