quinta-feira, 19 de setembro de 2013

SUPREMO TRIBUNAL DO... FAROFA-FÁ?

 

Por Alexandre Figueiredo

Há muito escrevemos sobre os problemas das elites pensantes em nosso país. Elas, cujo compromisso em tese é servir pelas verdadeiras melhorias sociais do país, são as primeiras que traem tais propósitos, atrvés das relações promíscuas com o poderio midiático e econômico vigentes.

O grande problema que existe é que a intelectualidade cultural ainda é vista como se estivesse fora da órbita do tucanato acadêmico (Fernando Henrique Cardoso, José Serra) ou do Judiciário midiático (como Joaquim Barbosa). A opinião pública oficial ainda credita nomes como Paulo César Araújo e Pedro Alexandre Sanches, entre outros associados, como se fossem contrários a esse contexto.

Não, não são. É verdade que, no subterrâneo da opinião oficial, mesmo num contexto de esquerdas médias, a intelectualidade cultural que defende a bregalização do país não consegue convencer quando tenta se desvencilhar do DNA tucano que desenvolveu nos anos 90. Fora da Internet, então, Sanches, Araújo e companhia são duramente criticados pela militância em prol da ditadura midiática.

O problema é que o establishment do pensamento de esquerda no Brasil não consegue admitir isso. Aparentemente, todos ficam calados. Ninguém tem coragem de desmentir a ligação das ideias de Pedro Alexandre Sanches com as de Francis Fukuyama, Fernando Henrique Cardoso e Otávio Frias Filho. Mas também não existe um reconhecimento oficial dessa realidade.

Essa intelectualidade cultural, como há tempos descreve este blogue, defende os mesmos interesses dos barões da grande mídia. Isso é fato. Eles defendem um padrão de "cultura popular" que é rigorosamente o mesmo que a grande mídia defende. Há muitos "farofa-fá" escondidos nas páginas da Folha de São Paulo e O Globo. Quem duvida é só recorrer a seus textos e comparar.

A visão de povo que esses intelectuais defendem é caricata, estereotipada, domesticada. Há uma ênfase, na sua defesa da "cultura popular", da aparente confusão - ou seria deturpação - de seu sentido através da defesa do subemprego, da prostituição, do alcoolismo, das drogas, do comércio clandestino, da pirataria, apenas reivindicando a regulação de tudo isso.

É o mesmo discurso neoliberal. Se os "farofa-feiros" acham o máximo a Marcha da Maconha, é bom deixar claro que Fernando Henrique Cardoso também e George Soros não só pensa o mesmo como já deu seu patrocínio. Ele, o figurão do Fórum Econômico Mundial, o paradigma do neoliberalismo "fora-do-eixo", um direitista que se acha dono do mundo e tenta manipular as esquerdas do mundo inteiro.

Que diferença existe entre esse neoliberalismo "popular" de subemprego, comércio clandestino, narcóticos, pirataria etc com o neoliberalismo que a velha grande mídia exalta, o da "livre iniciativa" e da privatização de tudo? Nenhuma.

Até parece uma divisão de etapas. Primeiro, aumenta-se o poder do mercado privado. Segundo, estende-se esse poder na privatização de instituições públicas. Terceiro, é a vez de entrar no mercado clandestino, descriminalizando-o para torná-lo "comprável" pelos investidores estrangeiros.

O que a intelectualidade cultural brasileira que aposta na bregalização do país quer não é regulação da mídia nem reforma agrária nem revolução socialista. O que eles querem é "livre mercado", "livre iniciativa", mais dinheiro em seus bolsos, eles apenas travestem o discurso num suposto esquerdismo que engana plateias e a multidão internauta em todo o Brasil.

É um discurso de esquerda servindo ideias de direita. Protegidos pelo pretexto do "popular" - no qual a intelectualidade se confunde em definir se é realmente popular (grande público) ou alternativo (público pequeno) - , eles possuem esperteza suficiente para tentar se desvincular de um contexto que oferece políticos tucanos, barões da mídia, "urubólogos" e juristas-midiáticos do Judiciário brasileiro.

Um bom exemplo disso é a comparação entre um discurso jocoso e alegre de Eduardo Nunomura, um dos blogueiros de Farofa-fá, e Reinaldo Azevedo, o mal-humorado colunista de Veja. São dois lados da mesma moeda. Um defende a domesticação do povo pobre como se fosse "causa libertária". Outro defende a elitização das classes dominantes como "causa nobre".

Parecem discursos diferentes mas, se observarmos bem, eles têm em comum o fato de que o povo pobre não sai beneficiado em qualquer dos lados desse aparente cabo-de-guerra. Até porque Reinaldo, no fundo, consente em ver o povo pobre domesticado e subordinado à breguice, desde que seja longe do colunista. E Nunomura consente em ver a cultura sofisticada privada desse mesmo povo pobre, feliz que ele está com a breguice a que os pobres são forçadamente associados.

PRIVATIZANDO O PATRIMÔNIO CULTURAL

Dá no mesmo. A própria grande mídia segue os dois métodos, privatizando o rico patrimônio cultural brasileiro acumulado até 1964 (ou o patrimônio não-brega de 1958 a 1976 e seus derivados posteriores) e privando o povo pobre de usufruir desse mesmo patrimônio, já que agora seu "patrimônio", oficialmente, é a música brega e outros ritmos "populares" derivados.

A "urubologia" da intelectualidade cultural pode não ter o mesmo discurso claramente mal-humorado de Reinaldo Azevedo, Merval Pereira e Eliane Cantanhede ou de outros membros "hidrófobos" da "massa cheirosa". Mas a "boa urubologia" às vezes assusta mesmo quando protegida pelo manto ideológico da "defesa do popular".

Exemplo disso foi Pedro Alexandre Sanches esculhambar Chico Buarque, figura claramente progressista, de grande contribuição humanista e democrática com sua arte. Paulo César Araújo fez o mesmo e, contrapondo isso à defesa dos ídolos cafonas, foi premiado pelas Organizações Globo a título de consultor informal do que os barões da grande mídia entendem como "a verdadeira MPB".

Mas também o "intocável" MC Leonardo, funqueiro que preside a APAFUNK, também deu seus dotes "urubológicos", não bastasse ele fazer cobranças às esquerdas tal qual Fernando Henrique Cardoso e Veja fazem, o que não dá para entender por que as forças progressistas ainda dão ouvidos ao dirigente funqueiro.

Afinal, ele se protege da mesma imagem "humilde" que faz Joaquim Barbosa se autopromover no STF, enquanto faz uma relação promíscua com as Organizações Globo que não compete ao seu cargo. Mas JB e o MC tentam uma "imunidade social" enquanto servem felizes aos interesses dos barões da grande mídia.

A própria intelectualidade cultural segue a cartilha da grande mídia. Ela pode falar em "cultura independente", "cultura alternativa", falar mal de alguns "radicais" da grande mídia, mas isso se torna inútil. Fala-se mal do mestre e dos colegas, mas se o aluno segue as lições compartilhadas pelos mesmos, ele se torna discípulo, cumpre totalmente o seu papel.

Daí que nossa intelectualidade cultural pode fazer todo o proselitismo nas mídias progressistas. Se suas ideias se afinam com aquelas defendidas pela visão midiática de "cultura popular", seus pregadores defendem, de qualquer modo, os interesses do baronato midiático. O palanque oposto não os faz escapar dessa realidade.

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