sábado, 14 de setembro de 2013

ROCK IN RIO, 89 FM E O "ROCK DOS SENHORES"

EIKE BATISTA E ROBERTO MEDINA - Apenas dois dos "senhores" que faturam em cima da cultura rock artificialmente resgatada pelo Rock In Rio.

Por Alexandre Figueiredo

O que têm a ver os irmãos Marinho, Otávio Frias Filho, o paulista José Camargo e seus filhos Neneto e Júnior, o empresário Eike Batista, o dirigente esportivo José Maria Marin, "laranja" de Ricardo Teixeira e o empresário Roberto Medina? Muito em comum.

A alimentação do mercado turístico, da realização de eventos internacionais e a ciranda de empresários e políticos em torno - que se reflete também nas arbitrariedades "desenvolvimentistas" do grupo político de Sérgio Cabral Filho e Eduardo Paes, no Rio de Janeiro, e as "higienistas" de Geraldo Alckmin, em São Paulo - , de mãos dadas com o conservadorismo midiático, dão o tom do corporativismo dos envolvidos.

O Rock In Rio 2013 chega sem o impacto de mídia de 28 anos atrás. Chega com o segmento rock enfraquecido, mercadologicamente deixado para trás pelo brega-popularesco - que, do "sertanejo universitário" ao "funk ostentação", passando pelo "pagode romântico" mas já excluindo a axé-music e o "forró eletrônico", que estão em declínio - , do contrário da posição ascendente de 1984-1985.

A publicidade do evento chega mesmo a ter um quê de pieguice, com "homenagens" a Beatles e Cazuza que não correspondem à aura original, tornando-se mais formalidades e reverências naquilo que um dia era apenas cotidiano e humano.

O que era legal era esse aspecto cotidiano, cru, imprevisível, das experiências originais enquanto presentes, muito diferente das "homenagens" que celebram clássicos do rock nacional e internacional, algumas delas sinfônicas, que não traduzem o estado de espírito original. Além disso, o tributo a Cazuza mais pareceu um especial do canal pago Multishow, apesar de alguns bons convidados, como Frejat, Ney Matogrosso e Bebel Gilberto, gente que conviveu com o saudoso cantor.

O Rock In Rio é patrocinado pela Rede Globo e foi a razão principal da volta da 89 FM à exploração (um tanto caricata, diga-se de passagem) do segmento roqueiro. Nem de longe a 89 lembra as antigas rádios de rock (Fluminense FM, 97 FM, Estação Primeira FM), e está abaixo até mesmo da performance dos primórdios quando, no final de 1985, motivada também pelo Rock In Rio, pelo menos era uma mediana e esforçada rádio de rock, experiência que se encerrou definitivamente em 1987.

A 89, no seu retorno em dezembro passado - depois de uma experiência no pop - , apenas retomou a mesma performance desastrosa que "queimou" a emissora em 2006 e desde então não lançou uma banda com potencial artístico para puxar uma nova cena nacional. Quem esperou que viesse uma nova Legião Urbana nos 89,1 mhz paulistanos teve que se contentar com os clones de CPM 22 e Detonautas Roque Clube ou, quando muito, com paródias de O Rappa.

Falou-se até que a cultura rock de São Paulo iria se revitalizar. Pelo contrário, ele se enfraqueceu preso aos vícios "pragmáticos" dos anos 90 e a mesmice que varia do grunge ao poppy punk, do poser ao nu metal, que transformam o rock não numa cultura musical, mas numa mera catarse, numa espécie de descarga sanitária emocional de jovens riquinhos.

Como resultado disso tudo, a cultura rock, em vez de se fortalecer, vive um período de baixo astral e até a imbecilidade do "funk ostentação" passou a ter um apelo publicitário mais eficaz para o público jovem. O segmento rock, mesmo em uma metrópole como São Paulo, apenas sobrevive com a ajuda de aparelhos.

Esse baixo astral se reflete com as tragédias que envolveram Chorão e Champignon, do Charlie Brown Jr., e Peu Souza, da banda da cantora Pitty, e de um crime passional cometido na Galeria do Rock, quando a discussão entre uma vendedora de joias com o namorado tatuador resultou no assassinato dela cometido pelo amigo dele.

Só mesmo a TV Cultura e o corporativismo dos colunistas de rádio - aqueles mesmos que fazem festa com dados fictícios de audiência das FMs - pra festejar a "volta" da 89, que não foi capaz de puxar uma cena cultural de rock no Brasil. Se, nos anos 90, a 89 FM era apenas pop demais para o segmento rock, e nos anos 2000 soava muito brega, hoje ela está ultrapassada e impotente para o segmento.

São outros tempos. Não dá mais para lançar um outro Raimundos, banda que puxou as gracinhas do "proto-emo" em território nacional, depois da tentativa dos pioneiros do emo, o Não Religião (de Tatola, que coordena a 89). E, além disso, Raimundos não é Legião Urbana. O segmento rock de hoje, lá fora, vive as transformações que fazem a 89 hoje parecer uma emissora de axé-music.

A grande mídia brasileira, na qual se insere 89, Globo, Folha e outros envolvidos nesse circo turístico-politiqueiro, agora são duramente criticados. A blogosfera cresceu muito nos tempos em que a 89 desistiu de explorar o rock para tocar o popzinho mais adequado ao seu QI de FM dance. A grande mídia, como um todo, não apita mais na opinião pública como há quase oito anos atrás.

O próprio Rock In Rio hoje não é mais o de 1985. Há atrações boas, é claro, mas o evento nem é exatamente de rock, tendo o arroz-de-festa Ivete Sangalo entre suas atrações fixas (ela sempre apareceunas últimas edições) e sempre algumas popices a mais. E o antigo ineditismo, que hoje soa um tanto provinciano, da edição original, foi substituído por um comercialismo sofisticado, mas sem muito idealismo.

A grande mídia pode até brincar de acreditar que, com o Rock In Rio, a cultura rock voltou a ficar em alta. Por alguns dias, essa lorota será reforçada com criancinhas mimadas fazendo guitarra-aérea, pais naturalmente sisudos se comportando tolamente em torno do "espírito do rock" e adolescentes mimados com lingua de fora e fazendo o sinal do demônio com as mãos.

Enquanto isso, os "senhores" são os maiores beneficiados. Empresários, barões da mídia, políticos. E eles não entendem muito de rock. Entendem mais de dinheiro. Para eles, pouco importa se o Rock In Rio é exatamente um festival de rock ou não. O que importa é ver um projeto empresarial dar lucro e favorecer o turismo e garantir retornos publicitários para a mídia associada.

Por trás dessa fantasia mercadológica, o rock segue com seu baixo astral, humilhado pelos medíocres ritmos popularescos e sem uma mídia e um mercado que possam entender a realidade do ouvinte de rock e as transformações sofridas pela cultura de rock autêntico no mundo inteiro.

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