terça-feira, 10 de setembro de 2013

REFORMA AGRÁRIA OU NEO-CORONELISMO NA MPB?


Por Alexandre Figueiredo

A intelectualidade dominante, sobretudo da parte de "tarimbados" como Paulo César Araújo e Pedro Alexandre Sanches - agora conduzindo o "fukuyamiano" Farofa-fá ao lado de Eduardo Nunomura - , adota um discurso de esquerda para defender ideias de centro-direita que não fariam feio se partissem de adidos culturais do PSDB.

Um desses discursos é se apropriar de jargões como "reforma agrária", como fez Sanches no texto mais recente do Farofa-fá, lançado na véspera do 07 de setembro e focado na carreira do rapper e militante do Coletivo Fora do Eixo, Emicida.

O texto "conciliador" de Sanches começa vinculando Emicida a mulheres ligadas à poesia pós-moderna ou à MPB, seja Eliza Lucinda (também atriz e dramaturga), Tulipa Ruiz (uma das revelações da MPB), Leci Brandão e Pitty (cantora que surgiu da banda baiana Inkoma, depois seguindo carreira solo em São Paulo).

O decorrer do longo texto até segue bem, com comparações com Itamar Assumpção, citações de nomes como Ruy Maurity etc. Não que Emicida seja um grande nome da MPB, mas o desfile de bons nomes parece agradar os leigos. Até que numa passagem, Sanches cita o queridinho do "funk ostentação" MC Guimé, não bastasse adjetivar a poetisa atriz de "MC Eliza Elucinda".

O colonista-farofa-fá, lembrando as lições do trio-ternura FHC-Frias-Fukuyama - com todos os "F" farofa-feiros a que se tem direito - forja um verniz esquerdista na pregação "funk-uyamiana" do "funk ostentação" na parceria "rap-funk" de Emicida e MC Guimé (o "maior nome" do "funk ostentação" que agrada até a Veja, depois da tragédia com MC Daleste):

"'Gueto', em dupla com o funkeiro MC Guime (manja aliança rap-funk?), é um tratado de luta de classes, movimento 'sem' teto do movimento 'sem' terra do movimento 'sem' música: 'O zé povinho só pode falar/ mas o mundo todo pode ver/ onde estiver, onde pisar/ nóiz sempre vai ser gueto', 'pique Adoniran, saudosa maloca', os home mandou derrubar, 'nóiz quer carrão e mansão, né?, por que não?'."

Exaltando uma letra que tem um português malfeito que "nóiz percebe" logo de cara, o pretensiosismo da citação "funk-uyamiana" de Sanches (se Francis Fukuyama fosse "fora do eixo", seria "zapatista-guevariano"?) usa uma retórica de "luta de classes" que, na verdade, é letra morta, num mercado em que a cafonice não rompe, mas reforça o conflito de classes, antes "amenizado" pelo apoio das elites intelectuais.

Como falar em reforma agrária, MST, MTST etc e compará-los a um suposto "movimento 'sem' música" de estilos cujo DNA tem muito mais a ver com o coronelismo midiático, ligado ao coronelismo político e econômico, aos latifúndios rurais e aos modernos latifúndios urbanos do neoliberalismo? E o "funk", controlado por jagunços-DJs, tem a ver com "reforma agrária"? Não.

O "funk ostentação", como foi também o "funk carioca" e o É O Tchan e o brega "de raiz" que passaram antes por pesada blindagem intelectualoide, se serve de valores, signos e crenças transmitidos pela ditadura midiática desde os tempos da ditadura militar e assimilados de forma resignada pela população pobre que não iria mesmo transformá-lo em reação.

Combater o "seis" com meia-dúzia? A "abóbora" do "funk ostentação" é a solução para o problema do "jerimum" do "forró eletrônico"? Nessa gororoba em que bregas se travestem de vanguarda, cortejados por militantes fora-do-eixo que fingem ser contra o poderio midiático, não há como levar a sério essa retórica de "reforma agrária no ar".

A propósito, o "feminista" Emicida que havia tido um problema com uma letra "machista", ele mesmo o paladino da "revolta contra a mídia", foi lá para o evento do Prêmio Multishow 2013 - Multishow é um canal pago das Organizações Globo - foi celebrar o establishment caetânico ao lado dele mesmo, Caetano Veloso, que andou meio "tucanado" e criticou até mesmo o Emir Sader.

Emicida já apareceu na Caras, na Folha de São Paulo, talvez só apareça no Caldeirão do Huck depois do "funk ostentação", quando MC Guimé, abraçado ao Luciano Huck, consolar o também presente Mr. Catra que "nem tudo está perdido" e reservar um lugar ao sol do "ostensivo funk paulista" para os desolados e criticados amigos cariocas.

O que dói é que, nessa gororoba toda, o espírito de Itamar Assumpção é evocado para assinar embaixo de tudo isso. Pobre Itamar. Assim como Raul Seixas é manobrado hoje para assinar embaixo em seitas esotéricas de segundo escalão e até em eventos de "sertanejo" (Raulzito daria uns bons cascudos em Chitãozinho & Xororó) e axé-music, Itamar sofre o mesmo destino.

Sem a visibilidade do cantor baiano, o criador de "Nego Dito" agora é usado por Pedro Alexandre Sanches para assinar embaixo no "funk ostentação", no brega "de raiz", no tecnobrega e tudo o mais. Sem poder mais reagir, Itamar Assumpção é pouco conhecido do grande público, mas provavelmente não aceitaria ver seu nome sendo usado para qualquer roubada.

Enquanto isso, a "reforma agrária" dos "farofa-feiros" mais se assemelha à (condicionada) reforma agrária dos antigos udenistas de 50 anos atrás: só é válido se rolar dinheiro dentro (mas até vindo "de fora" - George Soros?). No caso "farofa-feiro", o do jabaculê brega-popularesco.

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