domingo, 15 de setembro de 2013

PROMISCUIDADE NÃO É LIBERTAÇÃO


Por Alexandre Figueiredo

No blogue Farofa-Fá (com seus dois F de Francis Fukuyama), Pedro Alexandre Sanches escreveu um texto irônico chamado "Vamos Brincar de Protestar?" em que enumera canções de protesto que marcaram a música brasileira.

A lista é correta, embora em parte de antipatia do próprio autor (Chico Buarque, por exemplo), e começa citando o "traíra" Roberto Carlos, antigo ídolo da intelectualidade dominante (que sonhava com "Caminhoneiro" prenunciando os breganejos dos anos 90) com o qual rompeu depois de um processo judicial contra o festejado Paulo César Araújo.

A lista no entanto é um gancho para incluir a "prata da casa" (leia-se Coletivo Fora do Eixo) e jogar uma letra boba de Gaby Amarantos, a música "Xirley", em que o refrão pró-pirataria é definido pelo "filho da Folha" como "protesto": "Eu vou samplear, eu vou te roubar!".

Vendo por esses aspectos, a lista enumerada por Pedro Alexandre Sanches mais parece uma exaltação ao "anti-protesto" do que ao "não-protesto". E como é essa diferença entre "anti-protesto" e "não-protesto"?

Simples. Como discípulo (ainda não-assumido, mas comprovado em ideias) de Francis Fukuyama, Sanches prega o "fim das ideologias" como método para permitir as ideias de "livre mercado" na música brasileira, traduzidas no termo eufemístico de "diversidade cultural".

"Fim das ideologias", na ótica do historiador do "Fim da História" e do blogue Farofa-fá, significa encerrar o debate político, ideológico e sociológico, para o bem do "livre mercado". No caso da teoria de Fukuyama, o que ocorreu de movimentos sociais e ideologias, ocorreu, agora a ordem é "consumir", "abrir o mercado", os únicos movimentos viáveis são o do dinheiro, com as emoções humanas girando em órbita das mercadorias de todo tipo.

Na música brasileira, o que isso significa. O brega é comercial, portanto abramos mais mercados para eles. Abramos mercado para tudo: drogas, sexo (inclusive uma visão deturpada do direito à homossexualidade), cafonice, pirataria, hackeagem, vestuários ridículos etc etc etc.

Aliás, a "libertação" do ridículo é na verdade uma liberação dos instintos e da promiscuidade emocional, mercadológica, política, sociológica, como se libertinagem fosse sinônimo de liberdade, como se isso desse em algo realmente libertário que fosse evoluir nossa sociedade. Mas nada disso acontece.

O que gente como Paulo César Araújo, Pedro Alexandre Sanches e companhia querem é o "livre mercado" em todos os aspectos, numa espécie de versão lisérgica do neoliberalismo. Eles estabelecem um casamento por conveniências com as esquerdas, mas fazem amor escondido com a direita da qual fingem odiar definitivamente.

Mas é como na canção brega "Entre Tapas e Beijos", sucesso de Leandro & Leonardo e, mais recentemente, dos "padrinhos do tecnobrega", a Banda Calypso, que narra um jogo de amor-e-ódio de um casal. O sucesso ilustra essa atitude supostamente anti-mídia e anti-direita dos intelectuais pró-brega, que fazem amor escondido com o tucanato e com os barões da grande mídia.

Daí Pedro Alexandre Sanches, que lança ideias da Folha de São Paulo fora da Folha e supostamente "contra" a Folha. Daí Gaby Amarantos. Supostamente anti-mídia, Gaby foi elogiada até pela revista Veja (dos sinistros Reinaldo Azevedo e Augusto Nunes, revista que agora faz tráfico de influência no programa Roda Viva da TV Cultura) e anda vivendo uma lua-de-mel com a ditadura midiática.

Daí a participação dela em vários eventos das Organizações Globo, inclusive um reality show de dietas que inclui também outro nome do brega-popularesco, César Menotti, da indigesta dupla César Menotti & Fabiano (clone musical de Bruno & Marrone), por sinal parceiro da "musa do tecnobrega" no programa, feito em parceria com o programa Fantástico, da Rede Globo.

Daí os falsos ataques à "urubologia", ao poder midiático e ao tucanato, que a intelectualidade pró-brega faz só para "se jogar na plateia". Acham que a plateia irá segurá-los, mas um dia eles cairão no chão, vendo que não dá para falar mal do poder político-midiático se segue justamente suas ideias e valores.

Defender pirataria, prostituição, cafonice, subemprego, terrorismo digital não faz dessa "panela farofa-feira" um grupo realmente libertário. Nada disso. Pelo contrário, os coloca numa posição até pior do que os hoje criticados Anonymous, entidade independente que só pratica terrorismo digital contra os grandes grupos de poder.

Um país "mais drogado", "mais meretriz", "mais gay", "mais pirata" e "mais atrevido" não é necessariamente um país mais justo. Até porque a libertinagem, em várias passagens da História, sempre permitiu que um grupo de privilegiados nascesse desse contexto, sendo "mais livre" do que os outros e cometendo abusos que geram mais injustiças e cada vez menos liberdade.

Afinal, a promiscuidade supostamente "esquerdista" na verdade é uma forma porralouca e "provocativa" de defender o mesmo neoliberalismo defendido por gente que Sanches tanto critica, como Arnaldo Jabor, Eliane Cantanhede, Suzana Singer, Marcelo Tas, Marcelo Madureira, Geraldo Alckmin, Augusto Nunes etc.

Admira o pessoal do Farofa-fá falar mal até do Instituto Millenium, com um Nelson Motta que defende tudo que Sanches defende (exceto a assumida ojeriza aos petistas do letrista de "Como Uma Onda") e um Carlos Alberto di Franco, surgido dos porões da Opus Dei, com as mesmas ideias de mídias digitais defendidas pelos "fora do eixo".

Seria melhor Sanches e companhia olharem melhor quem é que está mesmo em seu barco. Antes que ele afunde de vez.

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