segunda-feira, 9 de setembro de 2013

PRETENSIOSISMO AFETA BREGANEJOS


Por Alexandre Figueiredo

Numa época em que, por força da ditadura midiática, os brasileiros se acostumaram a se contentar com pouco, os breganejos mais antigos foram tomados de alto grau de pretensiosismo, se julgando de uma sofisticação artística que, na verdade, não têm.

Graças a essa doença chamada "memória curta", que permite absurdos dignos de filmes de Luís Buñuel e livros de Franz Kafka, cria-se um "mundo" em que os medíocres de outrora parecem "geniais" e os corruptos do passado se tornam "íntegros".

Nem é preciso ir muito longe na "máquina do tempo". Voltemos a 1990, um marco decisivo para a mediocrização cultural do país. Quem era sinônimo de baixaria musical no Brasil? A lista, ridicularizada na época, causaria surpresa em quem nem havia nascido naquele ano, e que mal sabe um por cento da história do nosso país e muito menos a do mundo.

A lista da baixaria é "chocante": Chiclete Com Banana, Chitãozinho & Xororó, Zezé di Camargo & Luciano, Leandro & Leonardo, Wando, Fábio Jr., Luiz Caldas, Mastruz Com Leite, Kaoma, Asa de Águia, Reflexu's, Raça Negra, Art Popular, Só Pra Contrariar, entre tantos outros.

O hoje chamado "funk de raiz", de nomes como MC Cidinho & MC Doca, ou MC Júnior & MC Leonardo, que a choradeira intelectual de hoje define como "música de protesto séria", equivaliam, naqueles tempos, ao MC Federado & Os Lelekes e eram considerados irremediavelmente patéticos. "Eu só quero é ser feliz" era tão combatido quanto o refrão "Lelek-Lek-Lek" de hoje.

No rock, dizer que nomes como Bon Jovi, Mötley Crüe e Guns N'Roses eram "rock clássico" é fazer papel de panaca. Se até mesmo o "rock-cabeça" dos Engenheiros do Hawaii recebia duras críticas, imagine então o poser metal. Eram tempos em que rádio de rock que contratasse locutor de fala "poperó", tipo locutor da Jovem Pan 2, era xingada de "vendida" para baixo.

Mudamos nós ou mudaram-se os tempos? Seria mais coerente dizer que, com a mediocrização cultural promovida pela ditadura midiática, muitos de nós passaram a se contentar com pouco. Hoje Fernando Collor é visto por alguns como "estadista de esquerda (?!)", e um secundarista de 1968 tinha um QI melhor do que um universitário de 2013.

A situação se tornou de tal forma tão dramática - Kafka e Buñuel devem se revirar em seus túmulos - que o que era medíocre naquela época virou "genial" hoje em dia. Não foram as mentes que se abriram, as percepções é que ficaram muito fragilizadas, o discernimento faz muitos se contentarem com pouco.

Para uma sociedade que pouco lê livros, adora escrever e falar mal e dificilmente consegue se lembrar do que aconteceu há cinco anos atrás, tudo que correspondia a baixarias, mediocridades e cretinices hoje é sinônimo de "sofisticação" e "idealismo".

É o que se vê nos ídolos veteranos do breganejo. Aqueles mesmos que primeiro deturparam a música caipira, com discos constrangedores e repertório risível de tão ruim. Chitãozinho & Xororó, Leandro & Leonardo, Zezé di Camargo & Luciano, João Paulo & Daniel, Gian & Giovani, Rick & Renner, considerados tão patéticos quanto o tal "sertanejo pegação" de hoje em dia.

Talvez até pela ajudinha da ditadura midiática, que nunca quis, como mídia divulgadora, contribuir para a renovação real da MPB, os breganejos de 1990, junto aos "pagodeiros românticos" da mesma época (do qual vieram Alexandre Pires, Belo, o "ativista" Netinho de Paula e o "injustiçado" Leandro Lehart), foram "embelezados" para parecerem "artistas de MPB", bem de mentirinha mesmo.

Eles, no entanto, não se tornaram geniais. Continuam tão medíocres quanto antes, e, quando muito, soam tão "artistas" quanto qualquer calouro de reality show. Os neo-bregas da geração 90 nem de longe passaram a integrar o primeiro time da MPB, apenas parecem ocupar as lacunas que, na visão dos executivos fonográficos, correspondiam à MPB que deixou as grandes gravadoras.

Afinal, por trás das performances "geniais" dos neo-bregas da geração 90, existem outros músicos, outros arranjadores, outros técnicos, outros produtores, que praticamente fazem todo o trabalho. Maestros embelezam as composições medíocres dos neo-bregas. Estes vestem roupas traçadas por outros figurinos, outros músicos e outros arranjadores dão um "trato" nas músicas e tudo parece genial. Mas não é.

O breganejo dos anos 90, por exemplo, passou até a não ter pé nem cabeça. O filme Os Dois Filhos de Francisco fez mal a Zezé di Camargo & Luciano, porque, se a dupla era ruim, ficou pior, desnorteada, tamanho o pretensiosismo que passaram a ter. Chitãozinho & Xororó agora camuflam suas breguices com arranjos sinfônicos, e Daniel e Leonardo recorrem justamente ao que houve de pior na MPB pasteurizada para "embelezar" seus discos bregas.

E, como o Brasil consiste numa terra de cego, quem tem um olho míope é rei. Daniel, que nunca teve um expressivo sucesso de sua lavra, vive de covers de outros sucessos, a exemplo de Leonardo (que, como Daniel, é remanescente de duplas tragicamente desfeitas), ambos cantores bregas que, nos anos 70, nunca sairiam dos cenários da TV Bandeirantes, TV Record e da decadente TV Tupi.

Mas hoje eles tentam dar a falsa impressão de que são "geniais". Daí a entrevista que Daniel fez ontem ao Domingão do Faustão, em que, forjando falsa sabedoria, disse que "é difícil se reinventar a cada dia", entre outras declarações que misturam falsa modéstia e pedantismo artístico.

Se os breganejos mais antigos duraram, não é por serem geniais ou porque tardiamente se descobriram "grandes talentos". Até porque, na prática, eles apenas se resumiram a crooners de um trabalho quase todo feito por outras pessoas, de arranjadores a iluminadores de palcos, passando até por diretores teatrais. O mercado é que protegeu eles na medida do possível.

Isso não é desaforo, é uma constatação. Afinal, os neo-bregas sempre foram pessoas subordinadas às regras de mercado, maleáveis a modismos diversos, gente que não possui opinião própria, e que segue as ondas ao sabor do vento.

Os neo-bregas apenas tiveram uma boa noção de marketing, e por isso puderam sobreviver incólumes ao tempo, menos pelo talento musical e mais por encaixarem num modelo de celebridade (ou sub-celebridade) exaltado pelos veículos da grande mídia.

Mas se eles são capazes de se manterem na mídia, não são capazes de acrescentar coisa alguma para a música brasileira. Daí que, com o passar do tempo, eles, hoje bastante badalados e exaltados pela mídia e pelo mercado, se apagarão esquecidos pela posteridade, porque serão tempos em que a ditadura midiática não existirá mais para socorrê-los.

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