domingo, 8 de setembro de 2013

PARA INTELECTUALIDADE, POVO PRIMEIRO PRECISA FAZER MÚSICA RUIM PARA DEPOIS "MELHORAR"

Por Alexandre Figueiredo

Para a intelectualidade dominante, superbadalada, detentora de visibilidade e prestígio, o povo pobre não pode fazer música de qualidade. Aliás, não pode fazer cultura de qualidade. Para essa intelectualidade "sem preconceitos", mas muitíssimo preconceituosa, o povo pobre primeiro precisa expressar suas piores qualidades para depois, sob o apoio das elites, "melhorar" um pouquinho.

Claro que o discurso intelectualoide - servido sobretudo pelos discípulos de Francis Fukuyama que fazem o blogue Farofa-fá - tenta "positivizar" a coisa: não vão dizer, na cara dura, que o povo pobre é melhor quando expressa o que há de pior. Há sempre uma manobra retórica, dizendo que isso é "o bom e o melhor" das periferias, que tem seu sentido "positivo" e "admirável" etc etc etc.

Aí criam até mesmo a mitologia do "mau gosto", trabalhado como se fosse uma doutrina "libertária", como uma "causa nobre", como maneira de camuflar os preconceitos intelectuais mais gritantes. É uma forma de bancar o bonzinho: as elites intelectuais tratam o povo como um bando de animais selvagens, mas traçam toda uma ideologia que dá uma imagem "positiva" a tais preconceitos.

E esses preconceitos agora são "sem preconceitos". Aceita-se o pior do povo pobre, como se isso fizesse parte de suas vidas, e qualquer desejo de melhoria real, através da educação e da ruptura com a breguice cultural, resultante da manipulação do poder midiático, é visto como "elitismo" e "higienismo".

Logo a intelectualidade, que é verdadeiramente elitista e higienista quando defende o "funk" como única alternativa (lembremos de Margareth Thatcher) de mobilização social, de preferência para desviar as classes populares das autênticas mobilizações sociais, que apelam para causas "incômodas" como a reforma agrária e a regulação da mídia!!

Na música, a coisa fica bem mais clara. Vide a tal música brega e outros ritmos derivados, inclusive o "funk", que usa e abusa da pose de pretenso coitadinho. Tais expressões musicais são lamentáveis, ruins ou, quando muito, medíocres e constrangedoras, mas a intelectualidade vem com o papo de que não se deve criticá-los, que, embora não gostemos desses estilos, devemos "aceitá-los".

A aceitação do brega é, na verdade, uma forma dessa intelectualidade elitista esbanjar bom mocismo. Neste caso, Paulo César Araújo e Pedro Alexandre Sanches estão no mesmo barco de Luciano Huck. É uma maneira da intelectualidade expressar seu paternalismo cordial, como se quisesse expurgar seus pecados burgueses tentando parecer "gentis" com o povo pobre.

A partir desse paternalismo, a intelectualidade etnocêntrica adota o breguinha da ocasião como seu "protegido" e, atraindo investimentos públicos e privados, garante um "embelezamento" que fará do breguinha um arremedo de "grande artista", numa cosmética que o faz parecer mais comportadinho e aplicado nas lições da "boa música", mas de nenhum modo mais espontâneo.

As Organizações Globo já fizeram isso com a geração neo-brega de 1990, que passou a década toda fazendo sucesso mas, em determinado momento, precisava de um "embelezamento" que os fez à imagem e semelhança de uma já pasteurizada MPB vigente desde os anos 80. Daí os "grandes nomes" do "sertanejo", "pagode romântico" e axé-music que não deixam mentir.

Agora a intelectualidade dominante, discípula de Fernando Henrique Cardoso mas por hora voando que nem pombos para a máquina financeira do Partido dos Trabalhadores (PT), quer fazer o mesmo que a Globo fez com os neo-bregas de sucesso ininterrupto, desta vez com o suposto "lado B" da geração neo-brega que se "perdeu" pelo caminho.

Daí a determinação dada pela intelectualidade "engajada" para aceitarmos nomes como Leandro Lehart, José Augusto e Luiz Caldas como se fossem "a vanguarda libertária e provocativa da MPB", uma classificação hipócrita, sem fundamento e que soa mais como um dirigismo ideológico para favorecer protegidos das elites acadêmicas e de alguns "bacanas" enrustidos da grande mídia.

A ideia é primeiro aceitar as barbaridades ou as canções constrangedoras do brega, para depois, já com seus ídolos recolocados no mainstream tocando até para socialites, eles receberem um banho de tecnologia, vestuário, técnica e passem a parecer artisticamente mais "bonitinhos" e "asseados".

A VISÃO DE QUE O ARTISTA SÓ É ARTISTA QUANDO GANHA DINHEIRO

O que a intelectualidade "sem preconceitos" mas muitíssimo preconceituosa quer quando defende, num discurso choroso, por vezes irônico, por outras vezes desesperado, a supremacia do brega e seus estilos derivados?

Simples. Além de promover uma visão domesticada das classes populares, de uma periferia "alegre" em que até a sujeira das ruas é ideologicamente "higienizada", a intelectualidade tenta nos fazer crer que o destino das classes populares é mesmo o atoleiro do "mau gosto", da miséria, da ignorância e da imoralidade, a não ser que a intelectualidade venha com seu "solidário" apoio a esse cenário.

Na música, então, o artista pobre não é dotado de valor próprio. Seu "valor", em primeira instância, é a breguice, trabalhada quando o músico ou cantor pobre é manipulado pelo poder midiático e já recebe uma péssima educação musical, restrita àquela rádio de grande audiência controlada pelo deputado X, pelo patriarca empresarial Y ou pelo latifundiário Z.

Os ídolos bregas, neo-bregas e pós-bregas primeiro cumprem felizes e conformados o papel imposto pelo mercado. Fazem tudo sem reclamar. Nesse momento, eles até se recusam a fazer MPB, seu desdém à MPB autêntica é até um tanto arrogante: "MPB não bota comida em casa, MPB é coisa de bacana", dizem.

Só depois é que eles vão querer comer nos pratos em que cuspiram. Quando suas carreiras começam a ficar abaladas pelo desgaste natural de seus talentos medíocres, eles então são socorridos por uma patrulha intelectual "solidária" que não quer que saiamos dizendo que brega é sinônimo de imbecilização sócio-cultural.

Aí, pronto. Os bregas que tinham preconceito contra a MPB passam a reclamar que "a MPB tem preconceito contra o brega". Os bregas, crias e cúmplices do poder midiático, passam a vender a imagem, muitíssimo falsa, de "discriminados pela mídia". 

Com anos de sucesso, tentam se passar por coitadinhos e, em vez de se orgulharem pelo sucesso conquistado, reclamam de não serem levados a sério por meia-dúzia de críticos musicais influentes na avaliação do cenário cultural brasileiro. E não medem escrúpulos para bancarem os resmungões, como demonstraram Odair José, Amado Batista e Leandro Lehart em várias entrevistas.

"Melhorar" o brega não contribui de forma alguma para melhorar a música brasileira nem em revelar "grandes artistas" ocultados (?!) nos primeiros discos. A conversa de que os ídolos bregas eram mal orientados musicalmente no começo é furada, porque neste processo todos eles cumpriam felizes as imposições feitas a eles. Sem falar que a mediocridade tornou-se sua receita de sucesso.

Para a opinião pública, o mito de que apoiando e assistindo o brega irá melhorar a cultura brasileira e garantir a "diversidade cultural" (eufemismo para "livre mercado" sob a ótica etnográfica) na verdade mostra uma visão elitista que vincula o povo pobre à inferioridade sócio-cultural, cuja gravidade nem o eufemismo do "mau gosto popular" consegue resolver de forma "positiva".

Com isso, a intelectualidade apenas mostrou mais uma vez seu elitismo mais cruel. Mas parece que não se incomoda com isso. Essa intelectualidade é criticada, mas não exerce sequer sua autocrítica. Continua, de forma um tanto autista, a pregar a mesma choradeira em prol da bregalização do país, achando que está falando com o povo. Que nada: essa intelectualidade só fala mesmo para si mesma.

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