terça-feira, 24 de setembro de 2013

O SENTIDO OSCILANTE DO JORNALISMO TENDENCIOSO

JORNAL METRÓPOLE - Periódico baiano tem raízes em esquema de corrupção de ex-prefeito de Salvador, capital da Bahia.

Por Alexandre Figueiredo

Há um sentido deturpado do significado de jornalismo tendencioso. Aquele que se limita a tão somente defender o ponto de vista das elites, sem qualquer sutileza. É verdade que o tendenciosismo jornalístico inclui a cobertura facciosa, mas ela apenas é uma parte dele e não o seu significado como um todo.

Para entendermos o que é o jornalismo tendencioso, é só verificar quando veículos conservadores da grande mídia adotam posturas relativamente "progressistas", mais por oportunismo ou por uma questão concorrencial - quer levar vantagem a outro veículo rival mais abertamente reacionário - do que por alguma solidariedade aos movimentos populares diversos.

A própria Folha de São Paulo agiu assim. Tentando apagar o passado de jornal que apoiou a ditadura militar e que forneceu até viaturas para transportar presos políticos para as prisões, em colaboração com o DOI-CODI, chegou mesmo a apagar essa imagem sombria quando tentou pegar carona nas mobilizações pela volta das eleições diretas no Brasil, entre 1983 e 1984.

A Folha aproveitava a intransigência das Organizações Globo em fazer a cobertura do movimento Diretas Já e parecia triunfar no seu profissionalismo. Só mesmo denúncias recentes, como as feitas pelo jornalista de Caros Amigos, José Arbex Jr., no livro Showrnalismo: A Notícia como Espetáculo (Casa Amarela, 2004), mostraram a farsa desse projeto, o Projeto Folha.

A Folha de São Paulo mostrou-se, com o tempo, um jornal tão reacionário quanto o rival regional O Estado de São Paulo e o rival nacional O Globo. O verniz progressista do Projeto Folha, que tornava o jornal supostamente mais enxuto e "digestível", escondia um conservadorismo "higienista" e cada vez mais voltado ao status quo da burguesia paulista.

Por ora, o verniz progressista do Projeto Folha apenas reflete na aparente reputação de pelo menos dois de seus "alunos", Pedro Alexandre Sanches (blogueiro do Farofa-fá) e Ronaldo Lemos (advogado e professor da Fundação Getúlio Vargas, no RJ), que aprenderam direitinho as lições ditadas por Otávio Frias Filho, sobretudo a visão que este tem de "cultura popular".

O CASO BAIANO

O que poucos percebem, sobretudo na Bahia, é o caso do monopólio da influência do Grupo Metrópole (revista e rádio), do ex-prefeito de Salvador Mário Kertèsz, na cobertura aparentemente "progressista" da mídia local, é uma forma típica de jornalismo tendencioso.

O próprio histórico de Kertèsz não deixa mentir. Ele foi político lançado por Antônio Carlos Magalhães pela ARENA, o partido da ditadura militar. De perfil bastante conservador, Kertèsz teve uma inclinação para a corrupção política e o oportunismo administrativo que o fez um equivalente baiano do ex-governador paulista Paulo Maluf, também surgido na ARENA.

Na sua segunda gestão como prefeito de Salvador, já na década de 80, Kertèsz realizou, ao lado de Roberto Pinho (recentemente ligado ao esquema mensaleiro de Marcos Valério), um esquema de desvio de dinheiro público, em tese destinado para obras urbanas da capital baiana, no qual duas empresas "fantasmas" foram criadas para o recebimento do dinheiro sujo.

Ambos usaram o dinheiro para alimentar seus patrimônios pessoais. Kertèsz, querendo ser um barão da mídia local, resolveu comprar ações em emissoras de rádio e numa de TV locais. Desse patrimônio, que teve que ser parcialmente desfeito a cada denúncia de corrupção, criou-se o feudo midiático de Kértesz com a Rádio Metrópole FM e o jornal Metrópole.

Um dado que não há nas historiografias oficiais do Jornal da Bahia é que Kertèsz foi o responsável direto pelo assassinato do jornal progressista, fundado em 1958 e extinto em 1994. A culpa foi atribuída apenas ao mandante, ACM, pois, na época, os fundadores do JBa, João Falcão e Teixeira Gomes, precisavam da Rádio Metrópole para obter visibilidade.

As esquerdas baianas estavam iludidas com Kertèsz, como as esquerdas paulistas chegaram a serem iludidas pelo Projeto Folha. Uma consequência dolorosa disso foi quando Kertèsz, nos seus surtos reacionários, desmoralizou os esquerdistas Emiliano José e Oldack Miranda (autores de um livro sobre Carlos Lamarca) no ar, durante seu programa de rádio.

Emiliano e Oldack, até aquele momento, ainda confiavam na "diversidade ideológica" prometida pela Rádio Metrópole. Traídos pelo tendenciosismo da rádio, e desmoralizados diante de muitos transmissores - embora a audiência da emissora seja bem menor do que oficialmente é declarado - , resolveram ir mais fundo na campanha pela redemocratização da mídia na Bahia.

Kertèsz, que hoje reúne o oportunismo político de Paulo Maluf com a astúcia político-midiática de Silvio Berlusconi, é o símbolo do tendenciosismo midiático local. Ele se acha "dono" das esquerdas baianas e "senhor" da opinião pública, exercendo monopólio numa fração supostamente "menos coronelista" da mídia baiana.

Eventual bajulador do PT - chegou a participar como locutor de campanha de Luís Inácio Lula da Silva - , Kertèsz, que é machista, tem fama de fazer assédio sexual com as funcionárias, possui "gatos" de energia elétrica em sua casa, promove culto à sua personalidade em suas empresas e contradiz seu falso esquerdismo endossando notícias até da reacionária revista Veja.

Além disso, o jornal Metrópole já chegou a imitar uma concepção visual da Folha de São Paulo e criou uma campanha publicitária para mídia impressa que plagia quase que totalmente um anúncio da CBN para a mesma mídia, em que aparece um cãozinho pegando um jornal pela boca.

Kertèsz é o tipo de pessoa que ninguém deve recorrer para obter apoio para a regulação da mídia. Porque ele é o tipo de pessoa que fará tudo para parecer apaixonadamente solidário à causa, mas que no fundo fará tudo para a mesma causa ficar perdida e reduzida à letra morta.

Ele é perigoso. No primeiro momento, ele defende o bom jornalismo, a diversidade de opiniões e quer vincular à sua imagem os movimentos sociais e as instituições de esquerda baianas. Em segunda instância, comete surtos reacionários de fazer Bóris Casoy ficar boquiaberto, além de mostrar-se machista e corrupto, fazendo acordos ilícitos até com dirigentes esportivos.

Portanto, o grupo Metrópole tem muito mais a ver com província. Ou talvez com a visão antiquada de modernidade que a Folha de São Paulo chegou a pregar para o país, e que foi herdada com gosto pelo Maluf baiano.

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