terça-feira, 10 de setembro de 2013

O "PRÍNCIPE" DA PRIVATARIA OU O "BRUXO" DO PÓS-BREGA

 
Por Alexandre Figueiredo

Há alguns dias, foi lançado o livro O Príncipe da Privataria, de Palmério Dória, pela mesma editora Geração Editorial que lançou A Privataria Tucana, de Amaury Ribeiro Jr. Apesar dos autores diferentes, os dois livros complementam entre si nas denúncias relacionadas aos dois governos FHC e  ao PSDB.

Não li os dois livros ainda, mas sei que eles falam das diversas manobras financeiras feitas por tecnocratas que cercavam os governantes do PSDB - sejam prefeitos ou governadores paulistas, seja o próprio sociólogo e então presidente - para aumentar o lucro dos beneficiados e depositar todo o dinheiro em "paraísos fiscais", para "alimentar" o patrimônio financeiro deles.

São escândalos que envolvem até mesmo figuras como o economista Mailson da Nóbrega, um dos sócios do Instituto Millenium, e o banqueiro Daniel Dantas, conhecido investidor de operações suspeitas, não bastassem Fernando Henrique Cardoso, José Serra, Geraldo Alckmin e até Mário Covas como beneficiários do engenhoso esquema de corrupção.

Fernando Henrique Cardoso é de uma família de militares. Um dos antepassados, o avô do sociólogo, Joaquim Inácio Batista Cardoso, chegou a propor, durante as movimentações para a implantação da República (que teria sido instaurada por um golpe liderado pelo marechal Deodoro da Fonseca, seu primeiro governante nesse regime), o fuzilamento de D. Pedro II e sua família, o que não ocorreu.

FHC não chega a esse ponto, mas seu governo, em que pese o sucesso do Plano Real - moeda que existe até hoje - e de relativa estabilidade econômica, propôs uma política sócio-econômica excludente, prejudicando a Educação, com o fim dos cursos técnicos de nível médio e o estímulo à criação de universidades particulares, que hoje envolvem participações societárias de estrangeiros e até corporações midiáticas (como o Grupo Abril).

Além disso, a lógica neoliberal de Fernando Henrique quase destruiu a Petrobras, que ameaçou até mudar o nome pelos delírios de um administrador francês, o economista Henri Reischtul, que sugeriu Petrobrax por ser "mais competitivo".

Não bastasse essa mudança patética, a FHC promoveu uma "racionalidade" profissional que, sobrecarregando os funcionários de uma plataforma de exploração petrolífera, a P-36, localizada na Bacia de Campos, provocou um trágico acidente em 1998, que quase pôs a perder a reeleição do sociólogo, que ainda havia xingado os aposentados de "vagabundos".

MANIPULAÇÕES CULTURAIS

O subestimado problema das relações entre politica e cultura, quando oligarquias políticas, econômicas, empresariais e midiáticas manobram todo o processo relacionado à cultura popular, faz com que poucos brasileiros percebam mesmo a gravidade da coisa.

Desde os tempos de José Sarney, o poder midiático procurava manipular a cultura popular, transformando-a não apenas num processo asséptico, desprovido de consciência crítica e expressividade autêntica, mais voltado ao consumo e a uma imagem caricata e estereotipada do povo pobre, entregue aos mais baixos instintos emocionais e psicológicos.

Com isso, José Sarney, o então presidente, e seu ministro das Comunicações Antônio Carlos Magalhães, ambos antigos udenistas que ascenderam apoiando fiel e abertamente a ditadura militar, entregaram concessões de rádios e TVs para amigos e aliados, sem qualquer critério técnico, mas por puro apadrinhamento mesmo.

Isso foi nos anos 80, mas seus efeitos, hoje subestimados e pouco debatidos, resultaram, entre outras coisas, na supremacia da chamada "cultura" brega, que o eufemismo da intelectualidade dominante de hoje define como "cultura das periferias", julgando o "mau gosto" supostamente popular como se fosse uma doutrina "libertária" da cultura brasileira.

E como se formou essa intelectualidade? Nos porões de guerrilhas do Araguaia? Nos sindicatos trotskistas, nas entidades estudantis guevarianas? Nas cátedras universitárias neo-marxistas ou nos auditórios dos movimentos ativistas castro-chavistas?

Nada disso! A intelectualidade que defende o brega, o tecnobrega, o "funk", o "sertanejo", a axé-music etc se formou nos porões do tucanato acadêmico, nos laboratórios do status quo da ditadura midiática, nos cursos informais de neoliberalismo cultural.

Hoje gente como Paulo César Araújo e Pedro Alexandre Sanches tentam tirar o corpo fora, mas a formação deles se dá justamente com o "príncipe" FHC, traduzindo para o âmbito da cultura brasileira as ideias do "príncipe da privataria", que também desempenhou papéis de "bruxo" da "cultura" brega, hoje num estágio pós-brega, de tentar prolongar o sucesso desses ídolos descartáveis até quando for possível.

Até mesmo o termo "periferia" é emprestado da Teoria da Dependência que o "príncipe" havia lançado a partir de 1967. A a defesa do brega, do "funk", do tecnobrega etc, tem muito dessa visão de "desenvolvimento social" controlado e restrito, que não interfira na hierarquia política e sócio-econômica (e também cultural) que garante a supremacia dos países ricos e as elites associadas.

Não tem como fugir. Muitos intelectuais dizem "nunca fui tucano". Mas, seguindo ideias tucanas, eles são tucanos até a medula. Outros chegam a dizer "fui tucano, hoje não sou mais". Mas a identificação com as ideias de FHC, tendo continuidade, mostram uma postura tucana impecavelmente mantida. Se as ideias continuam seguidas, elas valem mais do que mil posturas que tentem desmenti-las.

O É O Tchan foi a primeira "cobaia" da blindagem intelectual que hoje tenta salvar o "funk" através da cena paulista, e que até agora não conseguiu reabilitar qualquer dos ídolos bregas cortejados por PC Araújo e seus amiguinhos.

O grupo baiano, famoso pelas dançarinas "calipígias", recebeu a primeira blindagem do professor da UFBA, Milton Moura, sob as calças de ACM e do coronelismo midiático local. Não deu certo, porque a reação da sociedade contra as baixarias do Tchan, exibidas até para a criançada, foram muito enérgicas.

Com a reação, o Tchan ficou tão abalado que, quando Mônica Neves Leme tentou dar ao Tchan os mesmos argumentos de "negócio aberto" que o pupilo de George Soros, Ronaldo Lemos, tentou dar ao tecnobrega, o grupo baiano já estava queimado demais para qualquer reabilitação acadêmico-midiática.

Fernando Henrique Cardoso criou uma linhagem de intelectuais que hoje se dizem "progressistas". O padrão "Globo Filmes" criou a lógica dos documentários que exaltam a bregalização do país, influindo decisivamente a partir de documentários como Sou Feia Mas Tô Na Moda, de Denize Garcia, que já gerou um genérico para o "funk ostentação", dirigido por Alice Riff.

Se eles defendem a bregalização do país sob o pretexto da tal "diversidade cultural", é porque essa expressão tem o mesmo sentido de "livre mercado" na economia neoliberal, assim como de "liberdade de expressão" para a imprensa mais reacionária. A analogia é essa mesma, o que põe a intelectualidade numa postura "incômoda" de arautos do neoliberalismo do qual tentam se desvencilhar no discurso.

Defender a bregalização do país não tem a ver com a defesa da verdadeira cultura popular. Tem a ver com neoliberalismo, mesmo. Na Economia, defende-se a privatização do patrimônio público com a desculpa da "livre iniciativa". Na Cultura, defende-se a cafonização da cultura brasileira com a desculpa da "diversidade cultural". É a mesma coisa.

O verniz "progressista" de hoje não apaga as manchas da herança do tucanato ou da ditadura midiática da intelectualidade associada. Fernando Henrique Cardoso também quis bregalizar o país, vendo que o processo incide em emburrecer o povo e entregá-lo à cafonice, através do conformismo sócio-cultural com a miséria, a pobreza, o "mau gosto" e a imoralidade.

Com o povo entregue à cafonice - a mesma que a intelectualidade de hoje acha "o máximo" - , emburrecido, conformado e abobalhado, como uma caricatura de si mesmo, FHC e seus asseclas puderam cometer sua corrupção tranquilamente, sob o silêncio da grande mídia e com os "bobos da corte" da intelectualidade pregando que o futuro da cultura brasileira é o brega.

Hoje Reinaldo Azevedo, Diogo Mainardi e asseclas pregam o "fim da corrupção", enquanto ficam coniventes com a corrupção das elites e do capital estrangeiro. E Paulo César Araújo, Pedro Alexandre Sanches e outros pregam a "diversidade cultural" pela supremacia do jabaculê, coniventes com a cumplicidade de bregas, tecnobregas e funqueiros com o coronelismo midiático nacional e regional.

Daí ser possível, diante desse quadro, recorrermos a Renato Russo, o poeta e cantor de "Que País é Este?", através de outro de seus versos, na comparação de "urubólogos" e "farofa-feiros": "Qual é a diferença"?

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