quarta-feira, 25 de setembro de 2013

O "LIVRE MERCADO" POR TRÁS DA "DIVERSIDADE CULTURAL"


Por Alexandre Figueiredo

Basta ser "provocativo" para promover um debate justo sobre a crise - sim, crise - da cultura brasileira? Não. Quando os microfones estão sempre abertos para elites intelectuais que preferem defender o comercialismo "popular" em detrimento da cultura de qualidade que eles julgam "cansados" (no sentido "movimento Cansei" do termo) de apreciar, então algo está errado.

Eles falam tanto em "diversidade cultural", usam e abusam do termo "popular", perdem tempo ruminando questões sobre "bom gosto" e "mau gosto", quando o chamado "gosto popular" é manipulado de acordo com os interesses comerciais dos executivos da grande mídia.

A intelectualidade cultural que temos é reflexo da ditadura midiática da qual esses mesmos intelectuais tentam evitar o vínculo de qualquer jeito. Agora se dizem "independentes" ideologicamente, só para justificar a ambígua atitude de se infiltrar nas mídias progressistas e, por outro lado, fazer amor escondido com os barões da grande mídia.

Assim, eles estão a serviço de uma indústria de entretenimento, que inclui de gravadoras a casas noturnas, que promovem a mediocrização cultural do povo pobre, expressa desde os noticiários "populares" até "popozudas", passando pelos "injustiçados" ritmos "populares", para garantir os interesses remanescentes das classes dominantes em crise.

Claro que, como nas fábulas, o lobo não se infiltra no rebanho para dizer que é um lobo voraz. Ele irá jurar que sempre foi um carneirinho a mais no rebanho. Como nas esquerdas médias, que mais parecem defender que o Oriente Médio se torne Primeiro Mundo antes do Brasil - de preferência com o petróleo nas mãos de George Soros - , o "lobo tucano" não se assumirá como tal.

Enquanto passam sutilmente a herança de uma linha de pensamento sobre cultura popular herdada de ideias mescladas de Fernando Henrique Cardoso, Francis Fukuyama e Roberto Campos, a intelectualidade tenta dissimular suas posturas reais fazendo falsos ataques à "urubologia" da moda, tentando forçar uma dissociação da velha grande mídia da qual surgiu.

A intelectualidade "provocativa", "farofa-feira", pró-brega, pró-funqueira, pró-tecnobrega, dos "Black Blocs" etnográficos que capazes de jogar o cadáver de Itamar Assumpção no lodo de um "baile funk", ou de botar a culpa das baixarias popularescas de hoje a um Gregório de Mattos que faleceu há três séculos, tenta fazer prevalecer seu discurso sobre a cultura brasileira.

TENTANDO GANHAR TEMPO

Tentam ganhar tempo enquanto a sociedade se mobiliza pela regulação da mídia, pela reforma agrária, pela melhoria de vida e parte das classes pobres se transforma, aos poucos, em classe média (bem mais precária do que se supõe, mas é algum avanço).

Enquanto a sociedade clama por essas transformações, a intelectualidade simbolizada por gente "tarimbada" como Paulo César Araújo, Pedro Alexandre Sanches e outros prestadores de serviço da ditadura midiática - entre antropólogos, cineastas, artistas etc - , tenta manipular o processo para que as pressões se anulem e as mudanças se reduzam à letra morta e aos aspectos meramente formais.

Prestando esse trabalho informal à ditadura midiática - aparentemente eles não são, ou deixaram de ser, formalmente vinculados a elas, no sentido profissional - , eles tentam combater as causas das quais se dizem "plenamente a  favor", procurando empastelá-las no máximo, por trás desse "apoio" falsamente apaixonado.

Como é que esses intelectuais vão defender a regulação da mídia, se eles defendem uma visão de "cultura popular" difundida e claramente promovida pelo mesmo poder midiático que dizem rejeitar? E como é que eles falam em "reforma agrária na  MPB", se ficam tristinhos com a decadência do "forró eletrônico" patrocinado pelo poder latifundiário?

E a "diversidade cultural" que tanto dizem defender? Criam todo um discurso, bem mais apaixonado que o contexto "científico" no qual parecem se inserir pode indicar, exaltando o povo pobre, as classes populares, num tom que mais parece o de um político demagogo em comício no interior.

Só que é muito duvidoso o valor desse discurso de "diversidade cultural", que apenas exige que se dê à mediocrização cultural brasileira a mesma respeitabilidade da cultura de qualidade, em que pese as omissões quanto à formação moral das classes populares, em que a degradação sócio-cultural é consentida sob a desculpa do "triunfo do mau gosto popular".

Afinal, o que falam de "diversidade cultural" é tão somente a aplicação dos conceitos de "livre mercado" no chamado "gosto popular". O discurso intelectual é um discurso publicitário, com todas as mentiras e meias-verdades trabalhadas como "verdades", até mesmo num blogue como o Farofa-fá, tão "provocativo" quanto as "urubologias" e os artigos de Veja.

Como o "livre mercado", a dita "diversidade cultural" não quer saber de valores morais, identidades nacionais ou coisa parecida. Ela só quer saber de sucesso econômico. Não por acaso, ritmos como o antigo brega romântico, ou o "funk", ou o tecnobrega e o combalido "forró eletrônico", valem mais pelo sucesso econômico de plateias lotadas, discos vendidos etc.

Tudo isso é Economia. Não é cultura. A pregação intelectual só quer saber de fenômenos economicamente bem sucedidos. O que tiver "apelo popular" é o que vale, pouco importa se é degradado ou não. E com isso a opinião pública comum vai pensando que esse discurso intelectual é progressista, quando ele é neuroticamente neoliberal.

Enquanto isso, o Instituto Millenium promove suas rodas de "farofa-fá" e pouca gente percebe.

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