quinta-feira, 5 de setembro de 2013

MPB NÃO É PARA FICAR NAS HOMENAGENS


Por Alexandre Figueiredo

Bem que a imprensa musical, desde o final da década de 1970, andava desconfiada com a mania do mainstream da MPB em fazer homenagens e reverências, às vezes para seus próprios artistas. Muito há de estranho quando a MPB autêntica se limita a se homenagear e auto-homenagear, quando ela deixou de ter alcance pleno e prioritário no grande público.

A grande mídia praticamente matou a MPB, da forma como a MPB era vista, nos anos 60. Rádios controladas por latifundiários ou por oligarquias político-empresariais, para neutralizar as já abortadas discussões dos CPCs da UNE, a partir dos primeiros anos da ditadura, investiram pesado num tipo estranho de "música popular", a música brega, hoje hegemônica em seus vários desdobramentos.

Era uma música "nem muito brasileira", mas "nem muito estrangeira". O brega original, de gente como Waldick Soriano, eliminava qualquer tipo de brasilidade, em prol das influências estrangeiras assimiladas pelo poder radiofônico, como boleros, countrys e, no caso do norte brasileiro, de ritmos dançantes caribenhos.

No entanto, as influências estrangeiras não eram assimiladas para se somarem sequer à perspectiva nacional, mesmo quando expressos na forma de ritmos estrangeiros puros adaptados para a linguagem brasileira. Eram influências muito mal assimiladas, combinando uma brasilidade fraca e quase nula com um estrangeirismo caricato e provinciano.

Pena que parte mais frouxa da intelectualidade dominante tente pregar, em discursos dramáticos de defesa, o brega como se fosse um "movimento cultural libertário", com as mesmas desculpas chorosas de "preconceito" e de uma discriminação da grande mídia que na realidade nunca houve.

E aí o brega, que a princípio renegou a brasilidade, tentou "recuperá-la", mas na forma de caricatura, tempos depois. E aí vieram lambada, axé-music, "sertanejo", "sambão-joia" e seu derivado "pagode romântico", "forró eletrônico", formas "bem brasileiras" de música brega disfarçadas de folclore brasileiro.

Enquanto isso, a MPB autêntica, que havia sido um dos focos de resistência cultural nos primeiros anos de ditadura militar, tamanha a riqueza de informações de seus artistas, foi pasteurizada pelo autoritarismo da indústria fonográfica, já a partir do fim dos anos 70, e reduziu-se a uma sofisticada, mas asséptica, música de qualidade, porém socialmente mais inofensiva e inócua.

A MPB continua tocando nas rádios e existem até (poucas) rádios especializadas no país. Mas ela passou a fazer um papel secundário no gosto do grande público, e na formação dos novos artistas populares, e o espaço que ela tem na grande mídia não é nulo nem raro - no rádio a MPB está presente também em parte do repertório de FMs de pop adulto - , mas seletivo e discriminatório.

O que se observa é que a onda de homenagens e reverências que se faz à MPB esconde um interesse da grande mídia em exaltar algo que ela considera "velho e ultrapassado". Para os barões da grande mídia, o brega é o "futuro", é a "novidade". Eles pensam de forma mercadológica e, convenhamos, o "injustiçado" brega têm mais potencial comercial do que a MPB autêntica, esteticamente mais "difícil".

No brega, as referências "culturais" não são mais comunicadas pelos membros da comunidade, mas ditadas de cima para baixo pelo poder radiofônico. A intelectualidade dá um jeito e diz que o poder das rádios não está nos seus donos (que em certos casos são ligados ao coronelismo mais assassino), mas aos programadores, meros funcionários convertidos, pelo discurso intelectual, em "militantes libertários".

Outro aspecto do brega é que seus ídolos são despolitizados, musicalmente medíocres, artisticamente frágeis e socialmente inócuos. Se eles não espantam sequer mosca, como é que eles iriam causar pavor à sociedade "elitista" que só existe na imaginação etnocêntrica da intelectualidade festiva de hoje?

O brega funcionou, aliás, como instrumento de anestesia sócio-cultural da ditadura militar sobre as classes populares. Pouco importa se a Censura Federal censurou alguns bregas. Não foi por muita coisa, e, como escreveu Beatriz Kushnir no seu livro Cães de Guarda, um belo contraponto para quem acreditou no fantasioso maniqueísmo ditadura-censores X sociedade de Paulo César Araújo, havia censores de todo tipo, de donas de casa e sargentos do Exército.

O que deve ser levado em conta é que, se, como Paulo César Araújo escreveu em Eu Não Sou Cachorro Não, o brega fez sucesso durante o período de vigência do AI-5 (o temido ato institucional que tornou rígidas a censura e a repressão), é porque as rádios que mais tocaram música brega eram justamente aquelas que APOIARAM a ditadura militar.

Araújo, como que trabalhando em teorias conspiratórias que agradam ao gosto das elites paternalistas - que precisam provar, até para as esquerdas, que são "solidárias" às classes populares - , tentou contrapor ao brega falsamente libertário a ideia de que a MPB autêntica é que era ligada à ditadura. Urubologia maior não há.

E aí Araújo, que estava orientando Gustavo Alonso - um blogueiro e escritor que se diz "de esquerda" mas tem QI de articulista da Veja - no seu livro sobre Wilson Simonal, a jogar o falecido cantor contra Chico Buarque, "plantando" até mesmo a acusação de que o compositor de "A Banda" (gravada por Simonal) teve sua imagem de artista engajado criada pela RCA italiana (?!).

A intelectualidade dominante de hoje, cria da Era FHC mas hoje posando de esquerdista, tentou desmoralizar a MPB. Mas, nos últimos anos, tenta agora parecer simpatizante, até por intenções tendenciosas de vincular o brega-popularesco na geleia-geral emepebista.

No âmbito da grande mídia, há muitas homenagens e reverências, como se a MPB fosse um velho prestes a morrer amanhã. E aí há toda aquela badalação estranha da grande mídia quando Paulinho da Viola, um dos mestres do samba, foi tocar de graça em Madureira, seu bairro de origem. Parecia Paul McCartney tocando no Engenhão, no Engenho de Dentro.

Se, para a grande mídia, Paulinho da Viola parecia estrangeiro na sua própria cidade, já que a grande mídia atribui como "cultura local" os falsos sambas, de tão pasteurizados e bregas, de gente como Belo, Alexandre Pires, Bom Gosto, Thiaguinho e Péricles, mesmo não sendo alguns deles cariocas, então a coisa está muito, muito grave.

Daí as homenagens soarem estranhas. A MPB recebe mil homenagens, prêmios, medalhas, troféus, títulos, reduzida a uma Academia Brasileira de Letras musical. E ainda há ídolos brega-popularescos observando o processo, para depois se aproveitarem e parasitar a MPB de uma forma ou de outra, seja com duetos com medalhões da MPB, seja regravando seus sucessos.

De que adianta tantas homenagens à MPB se ela não faz parte do gosto prioritário do grande público? O grande público não é beneficiado com isso. A MPB só lhes chega, parcialmente, com canções de trabalho divulgadas em trilhas de novelas da Globo, ou diluída em covers feitas por ídolos bregas. Muito pouco para ver a verdadeira música brasileira atingindo o grande público.

A MPB não é para ser homenageada, mas para ser apreciada, para estar no cotidiano das pessoas. E não é também para fazer parte de um gosto secundário, feito mais para parecer erudito do que por uma identificação natural.

A MPB é para ser vivida no cotidiano, mas ela mesma é que é a verdadeira vítima de preconceito, porque mesmo os ídolos bregas mais ambiciosos passam muito tempo rejeitando a MPB da qual eles só recorrem tardiamente em troca de alguma vantagem pessoal. Não é a MPB que tem preconceito contra o brega, é o brega que sempre teve um preconceito histórico contra a MPB.

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