segunda-feira, 30 de setembro de 2013

INTELECTUALIDADE PRÓ-BREGA FALA NEOLIBELÊS

ESTA É A MAIOR QUALIDADE, PARA NÃO DIZER A ÚNICA, DA "CULTURA" BREGA NO PAÍS: GERAR MUITO DINHEIRO.

Por Alexandre Figueiredo

A intelectualidade dominante defende ideias neoliberais na trincheira oposta. Tentam dar a impressão de que seu discurso em prol da bregalização do país é dotado da verve "mais progressista possível". Tentam convencer as pessoas de que ela é dotada da melhor vocação socialista, trazida por suas teses mais "provocativas" e persuasivas.

No entanto, se observarmos bem, o discurso, confuso e cheio de falhas, desses intelectuais pró-brega é dotado do mais puro economicismo. Pensam a "cultura popular" em termos econômicos, e atribuem à breguice valores que correspondem tão somente a sucessos de ordem econômica, e não exatamente cultural.

Primeiro, é só analisar por que os intelectuais dominantes defendem o brega. De cara, eles descrevem os motivos que os fazem: plateias lotadas, discos vendidos, alta execução nas emissoras de rádio e TV, alta visibilidade nos subúrbios e roças de todo o país, ou ao menos de uma significativa região de cidades ou Estados.

Eles tentam camuflar com verborragia sociológica, até porque vários deles são cientistas sociais, outros são jornalistas culturais e cineastas e todos mexem com uma verborragia que, na prática, parodia narrativas da História das Mentalidades, que descreve a História sob o ponto de vista dos cidadãos comuns, e do New Journalism, que narra reportagens como se fossem romances.

No entanto, é bastante seguro dizer que esses intelectuais, com todo o discurso "social" que trabalham, cheio de clichês pseudo-libertários e pseudo-ativistas, pensam a "cultura popular" sob o aspecto econômico. Atraiu mais gente, para eles é ótimo. Gerou mais dinheiro, para eles é uma maravilha.

A intelectualidade dominante, de Paulo César Araújo convertido a "consultor de brega" das Organizações Globo aos blogueiros "provocativos" do Farofafá, com toda a certeza fala neolibelês. Este termo é uma espécie de "idioma do neoliberalismo", compartilhado entre economistas de direita e a imprensa associada.

Para a intelectualidade dominante - que não consegue disfarçar seu neoliberalismo mesmo atuando nas trincheiras opostas do pensamento progressista mais flexível - , as classes populares só progridem pelo caminho da Economia. Sobretudo através do financiamento do MinC e dos recursos previstos pela Lei Rouanet (ela mesma de origem neoliberal) o povo pobre se emancipará.

De outro jeito, a intelectualidade dominante reprova todo tipo de melhoria. Eliminar o grotesco, o analfabetismo, a imoralidade, dos subúrbios, roças e favelas é visto pela intelectualidade pró-brega como expressões de "elitismo", de "higienismo", de "preconceito social". O povo pobre deve ser preservado, segundo essa visão, na "pureza"de sua pobreza e ignorância.

Para salvar as periferias, só mesmo o apoio das elites intelectuais e as verbas salvadoras do MinC, que dissolvem recursos particulares vindos de órgãos patrocinados pela CIA (como Fundação Ford e Soros Open Society), que somente liberam as melhorias sócio-culturais depois que as classes populares sejam economicamente convertidas em "abastadas".

Isso tem um aspecto grave, porque, enquanto classes populares, elas não podem ter uma cultura de qualidade, não podem ser consideradas gente. Vivem em condição sub-humana, que o paternalismo intelectual define como "positiva".

Para a intelectualidade dominante, tudo o que, na verdade, corresponde a defeitos, limitações e debilidades das classes populares é visto pelo seu discurso apologético como "qualidades positivas". Não se mexe sequer na ignorância das classes populares. Valores morais, nem pensar. Deixa-se o "outro" inalterado, apreciado de forma exótica por intelectuais paternalistas.

É o mito da "pureza" das periferias, que o neolibelês enrustido da intelectualidade que luta pela bregalização do país defende. É a glamourização da ignorância, da pobreza, da imoralidade, absolvidas pelo discurso intelectualoide como se fossem "qualidades do outro", corrompendo o processo de aceitação antropológica daqueles que não correspondem a dita "civilização".

"O que para nós é defeito, para as periferias é felicidade", diz o discurso intelectual. "Não precisamos gostar, mas devemos aceitar", é outro discurso clichê. Nesta retórica só a Economia salva, o que desmascara a intelectualidade que se passa por "progressista", mas que foi formada pelas ideias de Fernando Henrique Cardoso, Folha de São Paulo e até da Rede Globo.

Mesmo cineastas documentaristas que trabalham "antropologicamente" o "funk", usando e abusando dos clichês narrativos tomados de Marc Bloch e de Tom Wolfe, seguem essa lógica neolibelês, mesmo que tentem justificar "sociologicamente" elementos relacionados a sucessos de ordem econômica.

Portanto, a intelectualidade que quer a bregalização do Brasil não está aí com a cidadania. É inútil camuflar tal constatação com discursos "sociais", mesmo com falsas defesas à reforma agrária ou à regulação da mídia. O que a intelectualidade pró-brega quer é sucesso econômico, traduzido em bom neolibelês.

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