sábado, 21 de setembro de 2013

INTELECTUALIDADE FAZ MALABARISMO COM A CRISE DO BREGA


Por Alexandre Figueiredo

O brega-popularesco começa a agravar sua crise. Tendências se desgastam em efeito dominó, valores da supremacia do "mau gosto popular" estão em crise, enquanto que as críticas a tudo isso vão além dos limites das elites esclarecidas para chegar até mesmo às mais pobres famílias das periferias.

O "forró eletrônico" foi um dos primeiros a apontar esse quadro, tanto é seu desgaste. Mas a intelectualidade pró-brega, "urubologicamente", chora a sua decadência, choramingando o fim de uma imagem estereotipada de Nordeste, de um Nordeste que só existia nas suas imaginações acadêmicas, imagem que os divertia plenamente.

Vendo a decadência de um modelo de "cultura popular" trabalhado pelo poder midiático e reforçado pela verborragia acadêmica e pelas edições de imagens dos documentários, entre outros recursos discursivos sofisticados, a intelectualidade faz mil malabarismos para fazer prevalecer sua visão "provocativa" sobre o futuro do folclore brasileiro.

Há mobilizações por todos os lados. Das mães pobres preocupadas com o "vale-tudo" dos ritmos popularescos e dos fenômenos "populares" - da imprensa policialesca às "popozudas" - até as lutas pela regulação da mídia, os intelectuais pró-brega, supostamente progressistas mas alinhados a uma linha de pensamento herdada do PSDB e dos barões da mídia, tentam mudar as estratégias.

Sem defender tanto algumas tendências brega-popularescas, depois do choque causado pelos surtos neocons de nomes como Zezé di Camargo & Luciano e Banda Calypso, ou da explícita ligação do "funk carioca" com as Organizações Globo, a intelectualidade se contenta em criar um "elenco" de bregas-coitados para continuar promovendo "provocativamente" como "gênios injustiçados".

As argumentações ficam mais confusas. Até parte do movimento feminista adepta do brega, sem poder explicar a contradição entre repudiar uma Gisele Bündchen "sensualizando" em comerciais e o apoio às chamadas "popozudas" cometendo grosserias piores, tenta explicar que, no contexto do "popular", deve-se respeitar o tal "direito à sensualidade".

Mais parecendo as "neuras" dos comerciais, com suas conversas chatas sobre "defender as periferias", dentro de uma perspectiva que mais parece surgir das mentes de um produtor da Globo ou de um editor da Folha de São Paulo, os intelectuais choram ao ver os fracassos sucessivos da diluição da cultura popular por todo o país.

A CRISE DO BREGA E SUAS TENDÊNCIAS

O "brega de raiz" não conseguiu até agora uma reabilitação plena de seus antigos ídolos, de Waldick Soriano a Michael Sullivan, passando por Odair José e José Augusto, por enquanto integrando o dirigismo ideológico dos intelectuais, que, como que numa determinação de cúpula, pregam que tais ídolos sejam considerados "vanguarda", mesmo nada tendo a ver com isso.

A falsa sofisticação dos neo-bregas dos anos 90 - Chitãozinho & Xororó, Só Pra Contrariar, Belo, Exaltasamba, Leonardo, Daniel, Ivete Sangalo etc - consegue ter ainda um forte apelo de mídia, mas já não arranca qualquer prestígio como antes, até porque sua verossimilhança em relação à MPB pasteurizada pelas gravadoras faz os neo-bregas ficarem piores ainda que a chamada "Música Para Burguês".

A axé-music, com sua megalomania e seu mimetismo camaleônico de parasitar do rock ao samba-reggae, dos ritmos caribenhos à Bossa Nova, não conseguiu se segurar e, começando um processo de falência devido às denúncias de precarização do trabalho, sonegação fiscal e até de violência sexual, ainda é questionado pelo monopólio que exerce no mercado baiano, que causa a fuga para outras capitais de artistas que não querem compactuar com esse cenário.

O tecnobrega, uma das "meninas dos olhos" da intelectualidade dominante, só é mesmo exaltado por ela. No Pará, o tecnobrega, tido como "discriminado pela mídia", é na verdade símbolo de neo-coronelismo cultural, patrocinado pelos barões da mídia e pelos latifundiários de lá. Os "farofa-feiros" e até George Soros acham o tecnobrega o máximo, a grande mídia "do Sul" adotou Gaby Amarantos, mas os paraenses estão irritados com sua supremacia e o rejeitam.

O "forró eletrônico", do qual o tecnobrega é seu derivado, vive uma aguda crise, acumulando denúncias de precarização do trabalho, concorrência desleal de compositores e de letras que estimulam do alcoolismo à pornografia, além de deter um monopólio de mercado que se estende do Acre até o Espírito Santo, passando por capitais como Belém e Recife. O povo passou a rejeitar esse monopólio, reconhecendo nisso um ponto nocivo, e não benéfico, à regionalidade cultural.

O "funk carioca", mesmo com a mais poderosa blindagem intelectual, não conseguiu convencer tentando passar uma imagem de falsa superioridade artístico-cultural. A intelectualidade falou demais, disse muitas bobagens, atribuiu ao "funk" um caleidoscópio de referências que só existia na imaginação dessa elite, enquanto o ritmo mostrava sua indigência sonora, suas baixarias, seus escândalos, irritando não somente as elites como também as próprias periferias.

Além disso, a conversa de que o "funk" era "discriminado pela grande mídia" - lorota que era difundida até mesmo nas páginas da Folha de São Paulo (!) e de O Globo (!!) - a ninguém convenceu, a não ser as "focas" que aplaudem até tosse de antropólogo. A associação do "funk" com a grande mídia era explícita demais, era só ligar a Rede Globo que tinha "funk" por todo lado.

Hoje o discurso pró-funqueiro mudou o foco para o "funk ostentação". Mas ele começa a ser duramente criticado, apavorando a intelectualidade, os dirigentes funqueiros, assustados com o fim de seu poder de persuasão. Tentam dizer que isso não tem a ver com a crise midiática, mas tem, e muito. Por enquanto, insistem na choradeira pela cena paulista, mas a crise de reputação já começa a assombrar.

E a vulgaridade feminina? Ela também sofre uma grave crise, e as chamadas "popozudas" são duramente criticadas até mesmo por homens. É só aparecer uma nota sobre elas que a lista de comentários acumula mensagens negativas, sobretudo relacionadas ao baixo QI das "musas" relacionadas. O "direito à sensualidade" descrito pelas intelectuais feministas (?!) solidárias não procede, da mesma forma que as tentativas de desvincular as "popozudas" de seu contexto machista.

E a imprensa policialesca? A "divertida" ou "realista" imprensa "popular" - dependendo do contexto, um mesmo periódico pode ser visto como "humorístico" ou "investigativo" conforme o sabor da retórica - já aponta uma crise quando seus porta-vozes não conseguem esconder seu caráter desumano, através da exploração gratuita das desgraças alheias ou mesmo da exploração leviana que atinge até mesmo astros falecidos como Heath Ledger.

E os demais aspectos? Por que a intelectualidade acha maravilhoso o povo pobre ficar no subemprego, na prostituição, no alcoolismo, na contravenção? Acha que as verbas do Ministério da Cultura irão "melhorar" essa situação? Ou será que com mais dinheiro em circulação, a cidadania virá num piscar de olhos?

A crise dessa ótica "popular", dessa visão pitoresca, caricata e estereotipada que diverte antropólogos, sociólogos, cineastas, historiadores, documentaristas e outros que pregam a bregalização do país, desafia a intelectualidade a mudar seu discurso, a tentar vincular o que resta da cafonice à cultura de qualidade que tais "pensadores" tanto desprezavam.

Temendo que o povo pobre supere seu processo de cafonização, sobretudo à revelia do paternalismo intelectual, as elites intelectuais, através da "provocativa" blindagem de "farofa-feiros", tenta dar seus últimos gritos, numa sociedade que se transforma fora de redações, colegiados, escritórios. O "povão" começa a se cansar de sua imagem de "brega" trabalhada pela mídia.

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