domingo, 1 de setembro de 2013

HIT-PARADE E A BANALIZAÇÃO DA "ATITUDE"


Por Alexandre Figueiredo

Em tempos de intelectualidade "farofa-feira" e "fora do eixo" mais interessada, com a bregalização do país, em implantar a supremacia do hit-parade do que melhorar a cultura brasileira - apesar de todo blablablá pseudo-libertário que adotam em seus discursos - , é para refletir o que ocorre no "paradão" matriz, lá nos EUA, com a banalização do escândalo e da polêmica.

No último Vídeo Music Awards da MTV - que no Brasil está prestes a mudar de orientação, com o fim da franquia da Abril e o controle assumido diretamente pela proprietária Viacom -  , a cantora Miley Cyrus, filha do pouco expressivo cantor country Billy Ray Cyrus (que chegou a ter, nos anos 90, música até em trilha de novela da Globo), levou a mercantilização da sensualidade ao extremo.

Preferindo bancar a "polêmica", ela interferiu até na própria voz, que piorou em sua performance, mais preocupada estava ela em escandalizar e romper com a antiga imagem careta de ídolo adolescente relativamente comportado, pelo menos dentro dos parâmetros "modernos" do seu antigo seriado, Hannah Montana, produzido pela conservadora empresa Disney.

Usando trajes sumários e apostando numa dança chamada twerk, uma dança sexualmente "provocativa" que mexe os quadris até a posição de cócoras, Miley achou que estava fazendo uma grande façanha, mas criou mais incômodo do que admiração.

Afinal, a banalização da polêmica há muito deixou de ser transgressor. Ser normal agora é adotar uma postura bem mais sóbria, enquanto o que está nas normas do sucesso comercial é o escândalo, a vulgaridade, o grotesco, é a redução da provocação e a polêmica em meras mercadorias para exposição gratuita nos debates públicos.

Mas isso não faz evoluir a cultura mundial. E nem faz a cultura jovem, espécie de termômetro para a cultura futura, se aperfeiçoar com o debate. Pelo contrário, a banalização do escândalo, quando muito, reduz teses modernosas de intelectuais delirantes a meros discursos textuais em que se trabalham retóricas rebuscadas, prolixas e até lisérgicas, com comparações surreais de coisas inócuas com referenciais realmente transgressores.

Ora, para o público médio no Brasil, isso fica ainda mais complicado. Miley Cyrus virou "escandalizadora" num país como os EUA que tem a Lady Gaga como paradigma dessa mesma postura supostamente polêmica e essencialmente inofensiva e banal.

Lady Gaga é uma espécie de "fora do eixo" made in USA. Prefere "escandalizar" com factoides e visuais espalhafatosos. Cria polêmica no nada, como se fizesse Contracultura num copo d'água. É uma falsa cult que, musicalmente medíocre, tem um senso de marketing oportunista, capaz até mesmo de se apropriar de figuras ativistas como Julian Assange. Emicida fica babando...

A banalização da "atitude" nada acrescenta à formação social dos jovens, ao processo de evolução cultural e mesmo à renovação do mercado. A sucessão de pretensos escândalos e polêmicas, embora alimente o mercado midiático, na medida em que se tornam repetitivos, acabam sendo mais inócuos que transgressores. O "mau gosto" de Miley Cyrus é um efeito disso tudo.

Mas no Brasil, isso chega aqui sob o rótulo de "modernismo". O público médio não vê diferença da Lady Gaga cheia de dançarinos a seu redor, usando roupas esquisitas e lançando factoides para disfarçar um pop dançante chinfrim e um King Crimson que, nos anos 80, reciclou o rock progressivo mesclando new wave e música concreta.

Mas para quem acha que o "funk" é a extensão da Semana de 1922, faz sentido uma desinformação dessas. E no Brasil provinciano, em que a visão do mundo é difundida por uma minoria retrógrada de veículos de comunicação, a banalização do escândalo ainda causa deslumbramento.

Que ninguém imagine que Augusto Nunes no Roda Viva e Pedro Alexandre Sanches no Farofa-fá são antagônicos; eles nem são dois lados da mesma moeda, são a mesma moeda em diferentes matizes, uma vez que em ambos há a mesma defesa do "livre mercado", uma focada no jornalismo político, outra no jornalismo cultural.

O contexto do hit-parade brasileiro, supostamente libertário e que, hipócrita, ainda fala em "cultura alternativa" e "mercado independente", como se não fosse um congênere do hit-parade norte-americano, símbolo do que há de mais mercantil, retrógrado e oportunista no mundo da música.

No Brasil, aliás, o hit-parade, seja através do brega-popularesco, seja pelo pop inócuo de gente como Jota Quest e Restart, não é mais do que uma imitação tardia do que faz sucesso nos EUA. Gaby Amarantos, Emicida, Naldo Benny e Anitta fazem hoje o que Beyoncé, Eminem, Chris Brown e Britney Spears faziam há uma década atrás. E isso é fato.

O problema é que quando alguém faz essa constatação, há quem se sinta ofendido ou irritado. A blindagem intelectual fala em "recriação local", chegando mesmo a dizer que a "macaqueação" é "antropofagia", botando tudo na conta de Oswald de Andrade, morto há quase 60 anos. Mas há troleiros e até mesmo representantes dos empresários brasileiros de entretenimento que protestam e posam de "vítimas".

Daí que, não bastasse o hit-parade dos EUA estar decadente, com a ênfase desnecessária em uma multidão de dançarinos cercando um ou mais cantores - recurso feito para disfarçar o fraquíssimo repertório musical - e na produção sensacionalista de escândalos e factoides, o hit-parade brasileiro, mesmo relativamente mais "comportado" e falsamente ativista, já nasce retrógrado.

Daí os factoides de Emicida, Gaby Amarantos, Naldo Benny e Anitta. Dai os Rouge e Vinny que surgem e somem sem deixar grande marca, e um Latino que tenta persistir com seu pretensiosismo blazê.

Se a intelectualidade brasileira está unida para substituir a cultura brasileira pelo hit-parade, apesar de todas as tentativas de dar a impressão contrária, então o país está desnorteado. Não bastassem a imprensa nas mãos de gente reacionária ou o Judiciário cujos juízes se vendem para a mídia. Os urubus voam felizes em direção a um prato de farofa-fá.

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