terça-feira, 17 de setembro de 2013

GOSTO POPULAR É BALELA NUMA SOCIEDADE MIDIATIZADA

MUNHOZ & MARIANO E O CARRO CAMARO, DA GENERAL MOTORS - O "gosto popular", tal como o automóvel, é um subproduto da persuasão midiática.

Por Alexandre Figueiredo

O que é o "gosto popular"? E o que é o "mau gosto popular"? Nada, embora a intelectualidade dominante insista em defini-los como "causas nobres", algo a "ser respeitado" e coisa e tal.

Isso é uma grande perda de tempo. Jornalistas tidos como "tarimbados", documentaristas considerados "esforçados" e acadêmicos supostamente "dedicados" desperdiçam palavras e métodos para defender algo que, na sociedade midiatizada em que vivemos, simplesmente não existe.

Afinal, vive-se na sociedade de consumo, do espetáculo, das sub-celebridades, do poder midiático. Seria tolo acreditar que a ditadura midiática manipula o grande público pelas pregações sombrias dos comentaristas do noticiário político.

Enquanto se acredita em pessoas como Paulo César Araújo e Pedro Alexandre Sanches quando lançam seus delírios sobre o tal "gosto popular" que tanto exaltam em suas pregações, a realidade mostra que esse "gosto" nada tem de espontâneo.

Tudo é planejado pela sociedade marcada pelo mercado e pelo poder midiático. Assim que se vende sabão em pó, se vende automóvel e se vende até porcaria como se fosse a "salvação do seu dia a dia", vendem-se ídolos supostamente populares da música e do entretenimento midiático.

É por isso que o tal "mau gosto popular" se desenvolveu e cresceu de tal forma que ele é tido como "natural" e "espontâneo". Mas não é. Ele é fruto de todo um processo de persuasão midiática.

Temos que admitir: os ídolos bregas, funqueiros, tecnobregas, axézeiros, "sertanejos" e tudo que pareça "popular" no cativeiro da grande mídia (sim, ela explora o "popular"; este não seria anti-midiático, não existe lógica para isso), servem a um sistema mercadológico e empresarial.

Esse sistema envolve dinheiro, muito dinheiro, e é articulado pelo poder midiático regional, que existe e se articula tanto com oligarquias políticas quanto o coronelismo estadual existente.

As carreiras de nomes que podem ser Cavaleiros do Forró, Munhoz & Mariano, MC Guimé, Gaby Amarantos, Psirico, como pode ser a "reabilitação" de um Michael Sullivan, por exemplo, envolvem todo um esquema de marketing e um planejamento de mercado.

É claro que o fator inédito desse mercado, que antes era marcado só pelo jabaculê radiofônico - hoje o "jabá" das FMs trocou a música pelo futebol, porque enriquece mais e não repassa grana pro ECAD - , é a blindagem intelectual que envolve acadêmicos, celebridades e cineastas.

Mas tirando toda essa retórica delirante, que transforma mercadorias em "anti-mercadorias" e descreve o consumismo popular como se fosse "cidadania", toda a estratégia marqueteira é a mesma que qualquer mercadoria lançada pelas indústrias no mercado consumidor.

Tudo é tendencioso no brega-popularesco. A mediocridade é proposital, porque os cantores e músicos envolvidos seguem fórmulas de sucesso em que o padrão cultural precisa ser o mais baixo possível para ser aceito por um grande público marcado pela ignorância e pela servilidade midiática.

Sim, esses ídolos "populares" são ultramidiáticos. Mais midiáticos que Merval Pereira, Reinaldo Azevedo e Eliane Cantanhede juntos, diga-se de passagem! Para o chamado "povão", noticiário político reacionário parece grego, a empregada doméstica simplesmente não entende os "urubólogos".

Alguém viu Eliane Cantanhede fazendo "arquivo confidencial" no Domingão do Faustão? Então como é que ela pode simbolizar a manipulação do povo pelo poder midiático? Como é que ela, ou Reinaldo, ou Merval, vão simbolizar o poder midiático sobre o grande público?

ÍDOLOS "POPULARES" REPRESENTAM PODER MIDIÁTICO

Quem manipula o povo pobre, no poderio midiático, são mesmo os ídolos "populares". Os mesmos que os "farofa-feiros" e simpatizantes dizem que são "discriminados" por esse mesmo poder midiático. Conversa para boi dormir. E, pelo jeito, o povo pobre é tratado feito gado nesse processo todo.

O intelectual é que "viaja" muito. Fazer o quê? Alguém esperaria que Pedro Alexandre Sanches traria a revolução socialista no jornalismo cultural, num país de Fernando Henrique Cardoso, Merval Pereira e Joaquim Barbosa deturpando as instituições sociais? Não faz o menor sentido.

O intelectual dominante, tomado das mesmas neuroses político-midiáticas de FHC, Merval e JB, vai criar toda uma argumentação, confusa, contraditória mas verossímil, que tenta classificar os ídolos supostamente populares, de grande sucesso comercial, como "anti-comerciais" e "anti-midiáticos"?

Isso é um grande absurdo. Os ídolos bregas, que são comerciais, queiram ou não queiram, fazem sucesso graças ao apoio do poder midiático, seja ele regional ou nacional. Não podem representar o oposto desse poder que é responsável direto pelo seu sucesso.

Por outro lado, como eles podem ser "populares" e "não-populares" ao mesmo tempo? Se eles lotam plateias, como é que eles são tratados como se fossem "alternativos", termo relacionado a plateias menores?

Da mesma forma, a intelectualidade cai em grande contradição quando tenta definir a retaguarda simbolizada por esses ídolos - sempre retardatária e superficial diante dos modismos culturais, como "vanguarda" só por causa de umas tantas vaias de uma parcela da sociedade.

Dizer que fulano é "vanguardista" porque "incomoda" é algo muito, muito preguiçoso. Mas é esse argumento que está lá, no mundinho encantado do Farofa-fá e sua fábrica de chocolates pseudo-etnográficos e seus wompa-lompas do "mau gosto popular".

Em primeiro lugar, vamos deixar de brincadeira. Se os Cavaleiros do Forró são "populares", eles tiveram a lógica de mercado e publicidade para atingir tais objetivos. Tiveram apoio da grande mídia, sobretudo do coronelismo midiático local, apoiado pelo latifúndio, e divulgaram sucessos pelo esquema jabazeiro.

São produzidos factoides, matérias pagas, apresentações são patrocinadas até por deputados de direita ou mesmo por fazendeiros de poderio até mesmo criminoso, vide o histórico de conflitos de terras que não nos deixa mentir.

Daí que não dá para advogados, jornalistas, cineastas, antropólogos etc falarem, distantes do interior do país, que os tais ídolos "populares" são "vanguardistas", "anti-midiáticos" ou que expressam uma suposta "reforma agrária da MPB".

Aliás, que "reforma agrária" eles iriam simbolizar se eles atendem, da forma mais explícita possível, aos interesses do coronelismo midiático local? Só se for a "reforma agrária" defendida pelo próprio latifúndio, sob pesada indenização financeira do Estado.

O "gosto popular", nesse contexto de poder midiático, mercado neoliberal e coronelismo político-midiático, é uma grande balela. "Gosta-se" de um sucesso musical como quem gosta de um sabão em pó ou de um automóvel que ninguém precisaria comprar, mas é obrigado a "precisar" dele.

Daí a síntese que a dupla breganeja Munhoz & Mariano faz com seu sucesso sobre o carro amarelo do modelo Chevrolet Camaro, da General Motors. É a persuasão do mercado publicitário envolvendo dois produtos, juntando o consumismo automotivo com o "gosto" supostamente popular a ser forjado.

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