segunda-feira, 2 de setembro de 2013

"FUNK" NÃO É CULTURA, É MERCADORIA


Por Alexandre Figueiredo

Parece um debate comunitário e cultural, mas é uma reunião de negócios. A cidade é São Paulo, o local é o Centro Cultural de Juventude Ruth Cardoso e o cenário é a Biblioteca Mário de Andrade. Aparentemente, o acontecimento era um debate sobre o "funk", com debatedores que variavam de autoridades a ativistas e MCs, que debatiam os rumos e dilemas do ritmo.

No entanto, o que se via ali era praticamente um briefing, uma reunião dedicada a discutir o problema de algum produto e criar soluções para tornar esse produto mais consumível e aceitável pela sociedade consumidora.

O "funk" foi descrito com todos os clichês que os defensores do gênero tanto trabalham. Esses cluchês eram levados ao extremo, agora que o "funk", antes carioca, se exilou em São Paulo, para "reciclar" sua imagem num pretenso ativismo. Assustados com a rejeição do gênero no Rio de Janeiro, eles discutem o processo dessa rejeição e reforçam com os conhecidos argumentos de defesa.

Enquanto ocorrem palestras desse tipo - de uma elite intelectual assustada não somente com a rejeição ao "funk", mas também com as tragédias que já ocorrem no "funk ostentação" - , nas cidades do Grande Rio, seja a própria Cidade Maravilhosa, a Baixada Fluminense ou mesmo Niterói e São Gonçalo, automóveis circulam pelas ruas como esquema de divulgação informal do ritmo.

São automóveis dirigidos por rapagões que mais parecem membros de gangues suburbanas, ou capangas de contraventores, em que um poderoso aparelho de som toca algum sucesso funqueiro. Da mesma forma que Salvador com o "pagodão" baiano e Fortaleza e Recife com o "forró eletrônico", essas pessoas são divulgadoras informais que se passam por fãs divulgando o ritmo nos passeios automotivos.

No Rio de Janeiro, rola um clima de desespero. Os defensores do "funk" não conseguem ampliar espaços e reservas de mercado. Páginas de rejeição ao ritmo se multiplicam nas redes sociais. Eles se sentem assustados e acuados diante das acusações de ligação do "funk" com a criminalidade, a pornografia, as drogas e a pedofilia.

Em São Paulo, "exilados", os intelectuais e outras pessoas ligadas ao "funk" promoveram um ciclo de debates em que o palestrante inaugural, o ex-ministro da Cultura Juca Ferreira, fez um discurso dramático dizendo que "funk é cultura". Em seguida, outros palestrantes fizeram seus argumentos não menos dramáticos, sempre trabalhando a imagem do ritmo como "vítima de preconceito".

DEFENSORES DO "FUNK" TÊM PREOCUPAÇÕES PURISTAS

Tentando resumir o que foi relatado nos debates, nota-se que a queixa comum sobre a rejeição do "funk" apela para a comparação histórica com o samba, ignorando diferenças de contextos. Á primeira vista, a sociedade também rejeitou o samba, mas era uma outra sociedade, a de 1910.

A de hoje, a que rejeita o "funk", é bem mais aberta moralmente, e ter flexibilidade moral é muito diferente do que apoiar a imoralidade. A sociedade que rejeitava os sambas se escandalizava com mulheres mostrando os dedos dos pés, a que rejeita o "funk" só não aceita ver mulheres achando que ser sexy é posar como se estivesse defecando na rua.

A outra queixa se refere à vulgaridade feminina do "funk". A alegação dos queixosos é que as mulheres do "funk" não são aceitas no seu "direito de sensualidade". É como na "liberdade de imprensa" dos "urubólogos" (jornalistas políticos reacionários), em que abuso e liberdade são confundidos, e a sociedade que seja convidada ao constrangimento da aceitação forçada.

A "sensualidade" das funqueiras é grotesca, forçada e, por mais que seja atribuída a um suposto feminismo, possui vínculos naturais e insuperáveis com os valores machistas, valores que não são superados pela simples rejeição simbólica - e muitas vezes falsa, visto que, por trás de muitas funqueiras "solteiríssimas", existem mulheres bem casadas - dos homens.

A sociedade que critica as funqueiras pela suposta sensualidade na verdade reclama contra a pornografia grotesca, contra uma suposta sensualidade que nada tem a ver com a liberdade do corpo, até porque é desprovida da liberdade da alma. Não há a intenção de seduzir, mas tão somente a intenção de agredir e provocar polêmicas gratuitas, além de expressar, na verdade, não a sensualidade, mas a presunção e o narcisismo das funqueiras.

As preocupações dos defensores do "funk", portanto, seguem uma orientação purista. Eles se sentem preocupados em ver o "funk" ter que se tornar "comportado", e caem em inúmeras e infinitas contradições na sua defesa do ritmo. E mostra o quanto o "funk" é estático, parado e não contribui para a verdadeira evolução cultural da humanidade.

Aqui existe uma grande diferença do samba, que na verdade envolve umas dezenas de variações, em relação ao monótono "funk". Já se colocou até guitarra elétrica e orquestras eruditas no samba. Mas o funqueiro não pode tocar violão, aprender canto, o único "instrumento" é a balbuciação vocal dos "tchu-tchás" que em si não acrescenta muita coisa.

O "funk" é purista porque já vem com um rigor estético e estrutural extremo. Daí que "funk" não é cultura. Ele não evolui, tudo fica preso a um só som, e a coisa piora quando as supostas "evoluções", como o "tamborzão" (batida eletrônica que imita batuques de umbanda), são decididas tendenciosamente de "cima" pelos DJs.

Isso é que a intelectualidade não entende e nem quer entender. Ela está assustada com a rejeição da sociedade contra o "funk", que não inclui só as elites, mas envolve também as próprias periferias e cuja rejeição nada tem de preconceituosa, por verificar a precariedade sonora dos funqueiros, o nível de grotesco de sua expressão e as associações à pornografia, drogas e violência.

Assustada até a medula, a intelectualidade associada tenta recorrer aos cenários da República Velha para explicar a rejeição contra o "funk". É totalmente ridículo. São outras sociedades, outros contextos, com uma distância temporal enorme.

A intelectualidade já não sabe mais o que fazer com o "funk". Por enquanto, mantém a choradeira de sempre, reforçando no dramalhão discursivo. Ela quer preservar o "funk" na sua concepção "pura", mas é esta concepção que causa grande rejeição da sociedade. E a sociedade que rejeita o "funk" nada tem a ver com a sociedade moralista do Segundo Império e República Velha.

Em outras palavras: a defesa intelectual do "funk" se tornou um grande problema. Melhor seria deixar o rótulo de "cultura" e defender o "funk" como mera mercadoria, porque seria mais fácil debater para melhorar a imagem de um mero produto da mídia, sem delírios pseudo-ativistas.

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