domingo, 22 de setembro de 2013

"FUNK" É UM RITMO CONSERVADOR

DJ MARLBORO - Ícone do chamado "funk exportação", feito para turista ver.

Por Alexandre Figueiredo

O "funk" é um ritmo muito rígido e fechado nos valores e na sua estrutura. Essa constatação põe em xeque todo tipo de alegação de "riqueza artístico-cultural" atribuída por seus propagandistas ao ritmo, o que faz a intelectualidade associada reagir com neurótico desespero, na tentativa de tentar salvar a reputação do gênero.

A intelectualidade dominante está muito preocupada com o desgaste do "funk", que recorre, com um apelo bastante tendencioso, às comparações com a sociedade brasileira de 1910, bem diferente da atual, para "explicar" a rejeição que o ritmo carioca anda sofrendo.

Sem poder apresentar argumentos consistentes - são sempre as mesmas desculpas de "preconceito", a mesma choradeira - , os intelectuais dominantes e seus adeptos demonstram muita aflição de não poderem elevar a reputação do "funk" num pretenso status de superioridade cultural.

O que eles não sabem é que o "funk" é um ritmo bastante conservador. Tanto no sentido ideológico quanto no sentido sonoro. Nele não há possibilidade de evoluções sonoras e artísticas nem progressos sociais. O "funk" prende o povo pobre numa concepção sonora e num projeto ideológico que nunca muda e não traz qualidade de vida.

No âmbito sonoro, o "funk" não aceita instrumentos musicais diversos, o que coloca o ritmo num patamar abaixo até mesmo do rock. O "funk" consiste na formação de um DJ, um MC principal e outro MC de apoio que fica balbuciando. E só. Não se admite mudanças nem evoluções, porque estraga com a "originalidade" e o "discurso direto" que os defensores veem no gênero.

A própria intelectualidade dominante já rejeitou um aparente caminho "evolutivo", bastante patético e caricato, mas cogitável: os "fenômenos" Anitta e Naldo Benny podem ser bregas, cafonas, bem mais domesticados que a média dos funqueiros, mas aparentemente sinalizariam algum caminho para as mudanças sonoras do "funk".

O "funk" não se tornará grande coisa com esses dois astros do "funk melody", mas o que se quis dizer é que eles poderiam, dentro da retórica e da ideologia funqueira, sinalizarem algum caminho de mudança, numa adaptação aos públicos de maior poder aquisitivo.

O aparente radicalismo dos intelectuais, que não demonstra senão outra coisa que é o caráter conservador do "funk", já que se eles nem aceitam Anitta - tida como "higienista", como se o "funk", como um todo, não fosse higienista - , então o "funk" torna-se vítima de seu próprio discurso de defesa.

Mesmo a suposta sofisticação do "funk exportação", ou "funk de DJ", transformado em arremedo de música eletrônica, não consegue garantir a evolução de seu som. Representado por DJs como o próprio DJ Marlboro, o "funk exportação" é "melhor elaborado" visando o público estrangeiro, turistas e as plateias de maior poder aquisitivo possível.

Outro agravante é que única novidade em torno do "funk ostentação", a cena funqueira de São Paulo, é apenas simbólica, em elementos ligados ao gangsta rap norte-americano, como a adoração da riqueza e do luxo, que nada acrescenta aos funqueiros. Pelo contrário, os põe em contradição diante da surrada alusão à "cultura pobre".

O "funk" não permite que o MC toque instrumento, não permite inclusão de melodias. E isso faz com que sonoramente ele fique bastante repetitivo, o que faz com que a rejeição dada ao gênero nem de longe seja fruto de algum preconceito, mas sim de uma observação atenta que não faz o "funk" parecer agradável nem aceitável, por razões óbvias.

Ideologicamente, então, o "funk" também é conservador. Ele não quer a superação da pobreza das favelas, não quer qualidade de vida, as tentativas de associar "funk" e Educação sempre foram patéticas e a imoralidade associada ao gênero é apenas aceita de forma condescendente por intelectuais a pretexto de serem "outros valores".

O "funk" até parece, com determinada sutileza, defender o fim do policiamento nas favelas. Tenta generalizar a violência policial. Evidentemente, no discurso, os dirigentes funqueiros não mostram isso de forma evidente, mas da forma como falam em policiamento nas favelas, a impressão que se tem que o modelo de policial que querem é o de um "biruta" de posto de gasolina.

O "funk" não quer qualidade de vida. Mesmo o "funk ostentação" usa português errado até para falar de carrões e joias. A imoralidade, com suas baixarias explícitas que envolvem até mesmo pedofilia - que voltará a ficar em alta com a autorização judicial para integrantes menores no Bonde das Maravilhas - e a criminalidade, é, infelizmente, vista pela intelectualidade como "virtude".

E é tudo isso que faz o "funk" não um ritmo revolucionário ou subversivo, e nem mesmo como um ritmo transformador. O "funk" resiste à transformação, daí que ele não viverá as mesmas experiências do jazz, do samba e do rock, que sempre eram receptivos à evolução sócio-cultural.

O "funk" nunca foi. Ele usa um discurso de "diversidade cultural", de "riqueza artística", que na realidade não procede de forma alguma. As ricas referências culturais associadas ao "funk" - de Antônio Conselheiro a Andy Wahrol, passando por Leila Diniz, Hélio Oiticica, Oswald de Andrade, Mário de Andrade e Malcolm McLaren - só existem na imaginação etnocêntrica da intelectualidade dominante.

Isso porque nenhum desses referenciais é sequer de conhecimento pleno de um funqueiro. Pouco importa se o dirigente funqueiro passou a ouvir falar em Movimento Pop Art e dizer, de uma forma bem pretensiosa, que Andy Wahrol e Roy Lichtenstein "têm a ver" com o "funk". Tal atitude só revela a hipocrisia demagógica e os malabarismos discursivos e ideológicos que cercam o ritmo.

O "funk" é conservador. Essa é a conclusão definitiva, que nada tem de moralista, elitista ou higienista. O "funk" é moralista com sua imoralidade, pois através desse moralismo às avessas - aceitar as baixarias do "funk" - se estabelece todo um processo higienista e elitista da degradação sócio-cultural das periferias.

Afinal, sem qualidade de vida as periferias acabam se autodestruindo dentro de um processo de domesticação mesclada com degradação de valores, sejam culturais, artísticos ou morais. Aliás, o "funk" não é cultura porque cultura se evolui, algo que o "funk" se recusa a assumir.

O que o "funk" quis até agora é ser aceito pelas elites, mesmo em todos os defeitos. Isso nem de longe possibilita a evolução cultural em si. Pelo contrário, o "funk" deixa a máscara cair no seu conservadorismo um tanto fascista de manter o povo pobre refém de sua própria pobreza, se não a financeira, pelo menos a pobreza simbólica da baixa qualidade de vida.

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