sábado, 7 de setembro de 2013

FAROFA-FÁ HERDOU VALORES "CULTURAIS" DA DITADURA MIDIÁTICA



Por Alexandre Figueiredo

A ditadura midiática, simbolizada pela Globo, Folha, Abril, Estadão e outras corporações, está em crise profunda. É cedo para dizer que estejam agonizando, mas os sinais de grave crise se tornam bastante diretos com a perda de público consumidor de seus veículos midiáticos.

Mas a ditadura midiática, que desde a ditadura militar - ou um pouco antes, num interior do país controlado pelo latifúndio - , formatou uma concepção comercial e estereotipada de "cultura popular", adaptável às estruturas de dominação que transformam o povo pobre numa caricatura de si mesmo, precisa manter essa derradeira herança, como um canto de cisne brega.

A Música de Cabresto Brasileira - a forma musical do brega-popularesco - tornou-se hoje a prioridade de um grupo articuladíssimo de intelectuais, ativistas, celebridades, artistas e jornalistas que defendem a supremacia da cafonice (e seus valores ligados ao grotesco, ao piegas, ao pitoresco etc) sob o pretexto de "diversidade cultural", eufemismo para o conceito de "livre mercado" aplicado à música.

O discurso é supostamente progressista, empurrado até mesmo para veículos e cenários de esquerdas, mas o conteúdo é escancaradamente neoliberal, apostando numa visão domesticada de povo pobre que essa intelectualidade associada julga ser "ideal" e "autêntica", e da qual defende com unhas e dentes, sem no entanto admitir os adjetivos "domesticado", "estereotipado" e "caricato".

Um dos redutos dessa pregação toda, patrocinada até pela Fundação Ford, pela Soros Open Society e pelas empresas multinacionais é o blogue Farofa-fá, estranhamente hospedado pelo portal de Carta Capital, meses após seu editor-chefe, Mino Carta, ter reclamado contra a imbecilização cultural no país.

Isso porque o blogue, feito por Eduardo Nunomura e pelo aluno-modelo de Otávio Frias Filho, Pedro Alexandre Sanches, poderia muito bem ser vinculado não à Carta Capital, mas à Folha de São Paulo e O Globo, cujos cadernos culturais compartilham exatamente da mesma visão que ambos os blogueiros escrevem sobre "cultura popular".

Tentando misturar alhos com bugalhos, o Farofa-fá é a última cartada da ditadura midiática de manter seus valores culturais em épocas de mobilizações pelas reformas sociais. O Farofa-fá é o último grito da ditadura midiática de pelo menos manter os parâmetros de "diversidade cultural" que não causem perigo aos barões da grande mídia nem estabeleça a ruptura com as regras dominantes do mercado.

"DISNEYLÂNDIA" BREGA

É evidente que Nunomura e Sanches tentam manipular o discurso, tentando parecer "progressistas" e "libertários" até mesmo para um público que lê periódicos esquerdistas às pressas. Tentam dar ao brega-popularesco um ar "preciosista" ou "arrojado", além de fazerem ouvidos de mercador aos problemas sócio-culturais que realmente vive o povo pobre nos vários cantos do páis.

O discurso de "periferia" - termo empretado da Teoria da Dependência de Fernando Henrique Cardoso - trabalhado pelos "farofa-feiros" dá uma ideia de um "paraíso" de casas mal-construídas, lixo no chão, ruas muito mal asfaltadas (quando são) e comércio clandestino solto pelas calçadas.

Nesse discurso, que transforma as zonas rurais e suburbanas - a tal "periferia" sonhada pioneiramente por FHC - em Disneylândia do brega, não cabem tensões, nem conflitos quaisquer. Tudo tem que ser encarado, à (falta de) luz da sociologia neoliberal, como uma harmoniosa cena de pobreza, em que atribui-se uma autossuficiência de proporções divinas e milagrosas.

É a mesma visão de "autossuficiência das periferias" difundida nos EUA pelo poder político dominante, pelos barões da grande mídia e questionada pelos mais conceituados intelectuais do país, por ser uma desculpa para que nada seja feito para superar a miséria do povo daquele país.

Aqui o discurso neoliberal ganha verniz "libertário", e a turma do Farofa-fá, como outros que defendem a bregalização do país - o jabaculê como fator determinante para o folclore do futuro - , agora investem numa postura "independente", como se quisessem agora transitar nos círculos esquerdistas e direitistas sem medir escrúpulos em cair em contradições.

Isso porque eles agora adotam um discurso "conciliador". Isso se deu também pelo fato deles serem muito criticados, porque difundem para as esquerdas ideias de centro-direita, que qualquer editor do Segundo Caderno de O Globo e da Ilustrada da Folha de São Paulo defendem. Valores que até mesmo Luciano Huck e o pessoal do Instituto Millenium apoiam abertamente.

Daí coisas estranhas como Pedro Alexandre Sanches entrevistar um biógrafo de Wilson Simonal que elogiou o general Emílio Médici. Ou o Farofa-fá dar espaço ao filho de Armínio Fraga, economista ligado a FHC e membro do Instituto Millenium. Sem falar da música "popular" que é tocada pelas rádios controladas pelas diversas oligarquias de caráter regional ou nacional existentes no Brasil.

Essa intelectualidade, não somente os "farofa-feiros", tenta defender a mediocrização cultural do país com novos discursos. É necessário desconstrui-los. Por exemplo, a moda agora é falar em "discurso direto", tanto para defender as grosserias das funqueiras como para defender as rimas pobres e os temas inexpressivos que os "sucessos do povão" despejam diariamente nas rádios.

"Discurso direto" é desculpa, portanto, para palavras chulas, texto mal feito. A intelligentzia tenta relativizar e "positivizar" o problema, como se isso fosse "expressão genial" das classes populares, marcadas pela ignorância, pobreza e manipulada pelo poder midiático.

Portanto, a partir de espaços como o Farofa-fá, a intelectualidade dominante, "sem preconceitos" mas bastante preconceituosa, quer confundir pobreza, miséria e ignorância com "pureza", tentando promover a imbecilização cultural criticada severamente por Mino Carta em "causa libertária", retórica "nobre" que no entanto não passa de desculpa para impor as regras de "livre mercado" para a Música Popular Brasileira.

Agora Mino Carta tem que aguentar hóspedes dessa espécie. Como José Arbex Jr. que acolheu o "filho da Folha" Pedro Sanches, durante um bom tempo. Mas que ninguém se engane, são apenas mascates da velha grande mídia pregando valores da ditadura midiática na trincheira oposta.

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