domingo, 29 de setembro de 2013

ERIC HOBSBAWM NUNCA COMEU "FAROFA-FÁ"


Por Alexandre Figueiredo

A intelectualidade cultural do exterior é muito diferente da festiva intelligentzia brasileira. Pensa as coisas de forma mais responsável, até porque provém de países que experimentaram todo tipo de problema relacionado aos problemas sociais, políticos e culturais enfrentados, principalmente em períodos trágicos como os das duas guerras mundiais.

No exterior, pesquisadores sérios não estudam a cultura de massa para defender o "estabelecido", e lá não existe a "panelinha" de acadêmicos defendendo a degradação sócio-cultural do povo pobre, nem existe a delirante obsessão em tratar o "mau gosto" como se fosse causa libertária. Lá fora, o termo "popular" não é desculpa para que se aceite qualquer porcaria comodamente.

Mesmo as verbas estatais não significam que a análise intelectual de cientistas sociais e jornalistas culturais deva se domesticar. Pelo contrário, o patrocínio estatal permite que mesmo modismos rentáveis sejam postos em xeque, as pesquisas intelectuais não se preocupam em preservar necessariamente toda a estrutura de entretenimento "popular" vigente.

Aqui, no entanto, existem intelectuais preocupados em defender o "estabelecido". Preferem vender o "peixe" travestindo modismos comerciais popularescos com um "verniz" de folclore e etnografia, num discurso supostamente libertário.

Lá fora, nomes como Umberto Eco, Noam Chomsky e os falecidos Jean Baudrillard, Guy Debord e Pierre Bourdieu, entre tantos outros, haviam escrito questionamentos sérios sobre cultura de massa.

Se eles não compartilham das teses apocalípticas dos antigos intelectuais como Walter Benjamin e Theodor Adorno, que ainda viviam na teoria epidérmica (corrente da Teoria da Comunicação que define a "cultura de massa" como uma relação mecanicista do poder midiático manipulando o povo sem possibilitar em tese sua reação), também não consentem com a utopia massificante.

Não por acaso, Eco havia escrito o livro Apocalípticos e Integrados, criticando os dois extremos: o questionamento fatalista da cultura de massa, tão típico da teoria epidérmica, quanto o adesismo que, no Brasil, se observa em gente como Pedro Alexandre Sanches e Paulo César Araújo.

E aí estou lendo o livro do historiador marxista Eric Hobsbawm (1917-2012), História Social do Jazz (The Jazz Scene, no original), originalmente lançado em 1959 sob o pseudônimo de Francis Newton, que o autor fez por bem abandoná-lo posteriormente e assumir o livro com seu próprio nome, ligado a livros como A Era dos Extremos (1914-1991) e Como Mudar o Mundo.

Adquiri a edição de 2011, baseada na edição de 1989 da publicação original, na época em que Eric havia escrito um prefácio a respeito dos trinta anos do livro, descrevendo sobretudo o cenário jazzístico dos anos 80, do qual se destacam nomes como os filhos do jazzista Ellis Marsalis, Winton e Branford Marsalis.

No texto original do livro, que Eric começou a escrever por volta de 1958, ele faz uma definição de "cultura de massa" que soa bastante atual e encaixa exatamente nos tempos brasileiros de hoje, em que a "cultura" brega-popularesca configura toda uma supremacia de uma indústria que se acha dona da cultura popular e que acha que pode se confundir com esta.

Eric define "cultura popular" sem as aspas, mas pode ser entendida como uma forma trabalhada pelos mecanismos industriais, em que os vínculos sociais não são espontâneos e existe uma relação vertical e não horizontal de promoção de fenômenos, símbolos, ídolos e valores.

Cabe aqui retirar um pequeno trecho, que esclarece tudo, através da tradução em português feita por Ângela Noronha. Ele se encontra impresso entre as páginas 39 e 40 na edição de 2011 do referido livro, publicado no Brasil pela editora Paz e Terra:

"A cultura popular atual, nos países urbanizados e industrializados, consiste em entretenimento comercializado, padronizado e massificado, transmitido por meios de comunicação como a imprensa, a televisão, o cinema e o resto, e produzindo o empobrecimento cultural e a passividade: um povo de espectadores e ouvintes, que aceita coisas pré-empacotadas e pré-digeridas. Não faz muito tempo (...) a cultura popular era viva, vigorosa e em grande medida autêntica, como no caso de canções folclóricas rurais, danças folclóricas e atividades semelhantes".

Bingo! Quanta diferença faz uma análise dessas. Aqui o que se tem é a intelectualidade endeusando o tal "entretenimento comercializado, padronizado e massificado" e escondendo seus vínculos com a grande mídia por debaixo do tapete.

Aqui existe até mesmo uma tendência, tão dominante quanto incoerente, de contraditoriamente defender os fenômenos "populares" atribuindo-os como "populares" e "não-populares" ao mesmo tempo. O ídolo faz sucesso na mídia, vende muitos discos, alavanca audiência de emissoras de rádio e TV, mas no entanto é tido (erroneamente) como "alternativo".

E o pior é que essa "panela" de intelectuais é que detém os privilégios de visibilidade nos meios sócio-acadêmicos, praticamente monopolizando seus "microfones abertos" e dando a palavra final (por sinal inconsistente) nos supostos debates sobre cultura popular que dizem defender.

Pior, essa intelectualidade brasileira, que cria uma série de armadilhas discursivas, ainda quer pegar carona nas campanhas pela regulação da mídia, mas no fundo não da forma que pessoas sérias como Venício A. de Lima, Emir Sader e Laurindo Lalo Leal Filho fazem, mas da forma duvidosa da pirataria e da supremacia da Informática sobre a ação humana.

O Brasil é um país já com avançado processo de industrialização e urbanização. No entanto, ainda não tem uma intelectualidade suficientemente madura que possa questionar de verdade a cultura de massa. O que temos são "debates" que não debatem, "provocações" que não provocam, "reflexões" que não refletem, "questionamentos" que não questionam.

A intelectualidade dominante brasileira, ou melhor, "transbrasileira" e "farofafeira", adepta de um "pós-modernismo de resultados", só está aí para defender o "estabelecido" com uma verborragia etnográfico-libertária.

E, por mais que essa intelectualidade tente renegar seu vínculo com a grande mídia, suas ideias nem de longe ameaçam ou contradizem os interesses dos barões da grande mídia. Estes há muito oferecem "farofa-fá" nos banquetes do Instituto Millenium. Mas, lá fora, a intelectualidade séria nem está aí para essas "farofa-fices" intelectualoides.

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