sexta-feira, 27 de setembro de 2013

BRIGAS SOBRE AUTORIA DE MÚSICAS NOS FAZ PENSAR SOBRE O TAL "COPYLEFT"


Por Alexandre Figueiredo

Os intelectuais dominantes fazem a pregação do tal "copyleft", o engodo que "flexibiliza" as relações de propriedade intelectual das obras artísticas, mas que na prática aposta na pirataria e na derrubada de qualquer tipo de normas de direitos autorais, transformando o processo de produção cultural num verdadeiro vale-tudo, numa "feira de Acari".

Nossa intelligentzia, que acha tão zelosa pelo que entendem como "verdadeira cultura popular" - o brega-popularesco - sobretudo os "farofa-feiros" (o Black Bloc da intelectualidade pró-brega), acha que o "copyleft" irá proteger os autores e garantir o devido retorno da veiculação de sua obra, mas não é assim que acontece.

Se as normas rígidas do copyright fazem com que a renda da execução de um produto cultural se concentre nas mãos de editores, produtores, empresários e outros chefões envolvidos, o "copyleft" também não é garantia que o autor seja realmente o beneficiário de sua obra. Pelo contrário, há atravessadores e, quando todo mundo "rouba", o verdadeiro responsável se torna um mistério.

O "copyleft" acaba criando um problema maior do que havia nos anos 40, quando havia a exploração comercial dos sambas do morro. Havia casos de seresteiros comprando sambas de compositores das favelas e tomando para si o crédito de autoria, mesmo não tendo capacidade de compor um samba dessa natureza, mas quando muito alguma marchinha carnavalesca.

Existe até mesmo uma frase dita pelo sambista Sinhô, que diz: "Samba é como passarinho; é de quem pegar". Há um grande histórico de autorias controversas nos sambas brasileiros, fruto de disputas de autores, o que causou muita controvérsia na época, entre os anos 40 e 50.

Num contexto bem diferente, o brega-popularesco, que do contrário do samba se insere num contexto propositalmente comercial, há dois casos de disputas por autorias envolvendo dois sucessos da Música de Cabresto Brasileira.

Um é a música "Ai Se Eu Te Pego", o hoje mofado sucesso do breganejo Michel Teló. A música, na verdade, nem é de autoria dele, mas de três garotas que, fãs de breganejo, compuseram a letra de pirraça, lembrando de suas festas de fins de semana. A música chegou a ser alvo de disputa, já que Teló, apenas intérprete, não podia ficar com os créditos.

Outro caso é o sucesso "Passinho do Volante", do grupo MC Federado e Os Lelekes, um dos nomes do "funk carioca" que hoje se desgasta na sociedade. Conhecido pelo refrão "Ai Lelek-Lek-Lek-Lek", o sucesso teve problemas quando um antigo empresário criou um clone do grupo funqueiro para se apresentar paralelamente ao original.

Não bastasse isso, há disputas também no âmbito da autoria. Ninguém sabe quem realmente compôs o tal "Lelek-Lek", e a coisa está tão complicada que, em processo na Justiça, está impedindo o grupo original de se apresentar, já que não tem o seu maior sucesso. Música comercial é isso aí.

Daí que a intelectualidade dominante brasileira, aquela mesma que possui uma reputação aparentemente alta obtida às custas de sua visibilidade - nada diferente dos juízes midiáticos do STF - , às vezes brinca com fogo e acha que a "pimenta" do brega nos olhos dos "outros" (as classes populares) é refresco.

Para ela, é legal samplear, haquear, imitar, caricaturar. Vide os Black Blocs (ou Brega Blocs) do Farofa-fá, com suas pregações "provocativas" que soam como música para os barões da grande mídia. Só que essa coisa de derrubar as regras do copyright só cria bagunça, muita bagunça.

Daí que o ideal não é derrubar as normas do copyright, mas tornar suas regras mais justas, mais democráticas e que estejam em sintonia com as novas tecnologias e linguagens. "Copyleft" só transforma a produção cultural numa grande desordem.

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