sexta-feira, 6 de setembro de 2013

BREGA E O MITO DA DISCRIMINAÇÃO DA GRANDE MÍDIA


Por Alexandre Figueiredo

Existe uma visão que, embora aparentemente unânime e oficial, é completamente equivocada. A de que a música brega era discriminada pela grande mídia. É um mito que é constantemente trabalhado pela opinião pública, mas que consiste numa grande inverdade, se deixarmos de lado a memória curta que conforta tantas almas acomodadas.

O próprio fato do brega, como música comercial brasileira, ter sido sucesso estrondoso é resultante do apoio da grande mídia. Entende-se por grande mídia não somente as grandes redes e os grandes grupos que possuem escritórios na Avenida Paulista, como também as grandes gravadoras não se limitam àquelas que possuem escritórios em Miami, Nova York e Los Angeles.

Grande mídia é aquela que exerce algum poder sobre a população através dos controles dos meios de comunicação. Se a rádio é regional mas é controlada por um poderoso fazendeiro, ela já é expressão de poder midiático. No interior do país, o coronelismo manda até mesmo nos serviços de autofalantes transmitidos nas ruas de suas cidades.

Mas pelo raciocínio intelectual de hoje, essa rádio é "mídia nanica" porque não tem escritório na Avenida Paulista. Só que não é preciso um esforço de raciocínio para ver que, se for por essa visão, até a revista Veja pareceria "mídia alternativa" para os parâmetros de poder midiático observados em Nova York e Los Angeles.

O mito de que o brega "sempre foi discriminado pela grande mídia" foi plantado por uma intelectualidade que, por mais que se esforce em parecer "sem preconceitos", é bastante preconceituosa e, fechada em si mesma, imagina que pode se abrir para o que elas entendem por "cultura das periferias", conceito aprendido pelas ideias de Fernando Henrique Cardoso.

Essa intelectualidade, fechada em seus apartamentos confortáveis, em seus colegiados refrigerados, tenta de tudo para parecer a "mais entendida" em cultura popular. Mas só ela usufruiu dos benefícios da sofisticação cultural, só seus intelectuais é que conheciam a fundo o lado A e o lado B da MPB autêntica, e agora parece que se "cansaram" dela.

Com tanto isolamento, esses intelectuais não sabiam que os barões da grande mídia também apoiavam o brega. O isolamento é tanto que, na onda do "funk carioca" (hoje um tanto "ferido" pela opinião pública, que fez os defensores do "funk" mudarem o foco para o "funk ostentação" paulista), falou-se que Mr. Catra "permanecia fora da mídia", mesmo depois dele aparecer tantas vezes na Rede Globo, com direito a generosos espaços no Caldeirão de Luciano Huck.

Ficam trancados achando que o povo pobre dos mais isolados recantos do Pantanal, da Caatinga e da Amazônia, ouviam as mesmas coisas que a intelectualidade dominante de hoje. E, por isso, acham que a "complexa" e "combalida" MPB não presta mais, e que a única salvação é jogar a música brega para os mesmos cenários da MPB autêntica, a pretexto de uma suposta diversidade cultural.

Às vezes pessoas relativamente informadas podem estar seriamente desinformadas em outros aspectos, e é isso que se vê na intelectualidade dominante, sobretudo nos "farofa-feiros" de plantão, ou mesmo num Paulo César Araújo promovido a um consultor informal de brega das Organizações Globo.

O brega NUNCA foi discriminado pela grande mídia. Como canção mercadológica, sempre agradou o poder midiático. Seu DNA é midiático, seu formato de "canção" é o do hit-parade, seu processo de divulgação inclui o jabaculê, e seu valor artístico é bastante duvidoso, da mesma forma que seu nível sócio-cultural é bastante inofensivo.

O problema é que os bregas foram promovidos, nos últimos dez anos, a supostos e falsos "heróis libertários", por um corporativismo intelectual que tenta parecer generoso com a opinião pública, e por isso há diversos mitos ligados a preconceitos e discriminações que na prática não existem. E que provam a FALTA DE NOÇÃO dessa intelectualidade a respeito da diversidade cultural que dizem entender.

Se os bregas não eram ouvidos na esquina do prédio onde mora o cineasta tal, o antropólogo qual, o problema está não no fato dos bregas serem boicotados pela grande mídia, mas pelo fato deles terem feito parte de cenários da grande mídia que apenas não tiveram alcance nas residências dessa intelectualidade bronzeada mas empalidecida pelos próprios preconceitos.

Na verdade, a intelectualidade é que tem preconceito com o comercialismo musical que julga "libertário". Um preconceito "do bem", mas que consiste numa aceitação sem verificação, bem mais preconceituosa do que uma rejeição raciocinada e verificada.

É o preconceito de não admitir as relações entre brega e poder midiático, que chegam a ser explícitas demais para serem rejeitadas por gente que deveria se comprometer a exercer o pensamento crítico sobre a cultura brasileira.

O brega sempre esteve de mãos dadas com a grande mídia. Seus ídolos sempre agradaram ao poder midiático. Se os ídolos bregas, de uma forma ou de outra, desapareceram da grande mídia, é que seus sucessos cansam de tão repetitivos e fracos. A própria grande mídia "aposenta" os bregas a contragosto, porque o mercado que abraça a mediocridade cultural não aguenta a repetição da mesma.

Por isso os bregas surgem e somem, por conta das normas contraditórias do mercado. Mas nem por isso eles se tornam mais libertários. Música comercial é música comercial de todo jeito, e não é um simples saudosismo que vai transformar em preciosidades coisas que surgiram para ser meramente descartáveis.

Daí o pior preconceito da intelectualidade "sem preconceitos": a de ver o brega como realmente é, um mero pop comercial descartável, feito apenas para aquecer o mercado associado, sob o claro e entusiasmado apoio dos donos da grande mídia.

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