quarta-feira, 18 de setembro de 2013

BREGA É O "FOLCLORE" DA DITADURA MIDIÁTICA


Por Alexandre Figueiredo

A intelectualidade dominante está perdendo tempo querendo que o brega seja considerado o novo folclore brasileiro, juntamente com seus derivados, sobretudo o "funk", agora focado no chamado "funk ostentação".

Isso porque é impossível desvincular tais expressões "populares" dos valores e signos relacionados à ditadura midiática, daí ser constrangedor qualquer discurso pseudo-libertário que possa defender essas tendências ligadas ao "mau gosto popular".

Inútil chamar, lá do além, Oswald de Andrade, Gregório de Mattos e até Raul Seixas e Itamar Assumpção, ou mesmo Leila Diniz, para assinarem embaixo e aprovarem qualquer baixaria associada à "fauna" popularesca. Eles não iriam se vender para causas tão baixas.

A intelectualidade dominante, festiva, festejada e dotada do mais alto grau de visibilidade, pode chorar todas as suas lágrimas, para tentar nos convencer que as retaguardas do brega-popularesco são "a vanguarda da MPB".

Há uns dez anos essas lágrimas são derramadas em palestras, documentários, monografias, reportagens, blogues, entrevistas, reportagens, na TV, no rádio, nas revistas, nos jornais, na Internet, no cinema, nos bastidores, colegiados, fóruns virtuais, etc etc etc, e até agora seus resultados nada surtiram de efeito positivo para a cultura brasileira.

Até agora, o que se vende como "vanguarda" na música brasileira são apenas bobos-alegres que posam com roupas misturadas compradas em brechós e misturam bregas com arranjos pretensiosamente vanguardistas, que seguem todos os caminhos sem chegar a lugar algum.

Tudo isso não é cultura de verdade. Não adianta reclamar. Tudo isso é herança da ditadura midiática, que faz as pessoas não quererem mais ser elas mesmas. Elas acham que perderam o preconceito com o "outro", mas na verdade reforçam mas escondem os piores preconceitos contra si mesmas.

É dura esta constatação, uma vez que o antropólogo tal, a cineasta qual, ao saberem disso, vão correndo em lágrimas para a primeira palestra em que estão inscritos para reclamarem: "Meu Deus, eu estou querendo entender a cultura popular do meu país, esse caleidoscópio de tendências, e eu só vejo preconceito de todos os lados!".

Claro, vão dizer que os preconceitos são dos outros. Não. São da mesma intelectualidade que se diz "sem preconceitos". A mesma que defende dos bregas "de raiz", tipo Waldick Soriano, ao "funk ostentação". Para ela, se alguém quiser desvincular as classes populares da supremacia do "mau gosto", está cometendo "higienismo". Esta visão é equivocada.

Então, não valem campanhas educativas, não vale melhorar a Educação, não vale ensinar novos valores e mostrar a cultura melhor para a população? Vamos ter que exaltar um Leandro Lehart da vida, que primeiro fechou os ouvidos para o verdadeiro samba, falou mal da MPB e tudo, para depois posar de "músico de vanguarda", coisa que ele nunca foi nem tem vocação para ser?

Quer dizer, melhorar a cultura só serve para maquiar os bregas de sempre e revendê-los numa embalagem bonitinha, só para justificar uma suposta "diversidade cultural" que não passa de eufemismo para "livre mercado" referente à música? Retórica pseudo-socialista pode justificar intenções tão claramente neoliberais?

Pensa-se que está protegendo o folclore, a verdadeira diversidade cultural, o verdadeiro patrimônio artístico e cultural do povo brasileiro? Não. Protegendo o brega e seus derivados, protege-se, na verdade, uma "cultura" que não é mais do que expressão dos executivos de rádio e TV, do coronelismo midiático, dos interesses de lucro dos barões da grande mídia.

Não adianta a intelectualidade fingir, dizer que "não recebe recursos", que "não tem a ver com a mídia" ou fazer falsas alegações de que "o mercado morreu e a mídia agoniza". Posar de esquerdistas, de indie, de alternativos, não é a solução para camuflar a defesa da supremacia do brega no nosso país.

Porque o brega é comercial, é tendencioso. Manipula os desejos do povo pobre, substituindo suas necessidades pelos (não) desejos. No brega, vale o supérfluo, vale o não-ser, vale a baixa auto-estima que diverte as elites intelectuais. E estas, dizendo-se "sem preconceitos", são muito mais preconceituosas, porque, para elas, o povo só é "melhor" pelo que tem de ruim.

Chega de relativizações, chega de camuflagem de discurso. Chega da intelectualidade xingar a Folha, a Globo, a Caras, o Instituto Millenium, enquanto elogia o brega. Porque o brega, na verdade, é a Rede Globo, a Folha de São Paulo, a revista Caras, o Instituto Millenium, colocando seus valores nas periferias, nas roças, nas favelas, impondo papéis para a população pobre desempenhar.

Não adianta desmentir, mesmo em engenhosos e bem trabalhados documentários e monografias. O brega, o "funk", o tecnobrega, o "sertanejo", o "forró eletrônico" nada seriam se não fosse o poder midiático. Tudo isso, toda essa concepção de "verdadeiro popular" é na verdade fruto de uma construção que os barões da mídia investiram na estereotipação das classes populares.

Aceitando o brega e seus derivados, não se está perdendo preconceito contra as classes populares. Está, sim, reforçando o apoio a uma imagem preconceituosa de classes populares trabalhada pelo poder midiático, que sempre apoiou o brega em suas diversas matizes, do contrário que a própria choradeira intelectual insiste em tentar afirmar.

Mas a própria intelectualidade dominante que existe hoje é cria do poder midiático. Ela viu TV feliz da vida durante a ditadura militar. Ela mesma não sabe das contradições e tensões da indústria cultural, que só passaram a conhecer vagamente (e a recusar-se a admitir) nas universidades. Tentam desqualificar essas contradições, achando que cultura não se discute.

Porém, em seus "debates" que não debatem, em "provocações" que não provocam, "reflexões" que não refletem e "questionamentos" que não questionam, a intelectualidade dominante, sem assumir na sua retórica mimetista, acaba afirmando que ela mesma é cria do poder midiático.

Na sociedade midiatizada em que vivemos, os maiores manipulados são os que nem de longe admitem-se como tal. E a intelectualidade pró-brega, por vezes fora-do-eixo e farofa-feira, é a que mais foi afetada pelas manipulações do poder midiático do qual dizem renegar.

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