terça-feira, 3 de setembro de 2013

O "FIM DA HISTÓRIA" E A "ÚLTIMA CANÇÃO"


Por Alexandre Figueiredo

"Será que alguém sabe quem é Paulo Sergio, aquele cantor da última canção?", escrevia Alberto Villas, colunista de Carta Capital, num momento em que o portal progressista passou a abrigar um blogue com nome de sucesso brega, Farofa-fá, que tem o aluno-modelo de Otávio Frias Filho, Pedro Alexandre Sanches, como um dos responsáveis.

A alusão ao sucesso "A Última Canção", do falecido ídolo brega com voz parecida com a de Roberto Carlos - Paulo Sérgio é o nosso Bobby Darin, este que imitava, na voz, o cantor Elvis Presley - , é ilustrativa para a tendência da intelectualidade dominante, mesmo em seu verniz "progressista", adotar Francis Fukuyama como profeta adotivo da corrente brega do pós-tropicalismo.

A intelectualidade parece estar "cansada" de tanto ouvir MPB - a mesma MPB autêntica que o povo até agora quase não conheceu, senão dos acessos restritos de seus artistas às trilhas sonoras de novelas da Rede Globo - e por isso acha que seu apoio ao brega soa como se fosse a "descoberta da pólvora".

Alegações chorosas de que seus ídolos eram "discriminados pela grande mídia" - ora, o sucesso estrondoso deles não veio num passe de mágica - e um esforço hercúleo e organizado entre seus pares (de cineastas a professores universitários, passando por cientistas sociais, críticos culturais e artistas) dão o tom da defesa lacrimosa em prol da "cultura" brega, do vovô Waldick aos lelekes funqueiros.

O que faz a intelectualidade defender tanto a bregalização do país?

Embora encham seus discursos com alegações "libertárias", que dissimulam muito bem o tom piegas e desesperado de suas pregações, o que eles sentem é um misto de paternalismo elitista com alguma nostalgia conservadora de vários deles.

Defendendo o brega, desde suas formas "tradicionais" popularizadas por Waldick Soriano, Odair José e Paulo Sérgio, até as formas "modernas" do "funk", desta vez com o foco no "funk ostentação" paulista, a intelectualidade dominante parece sentir um saudosismo de um Brasil provinciano, tamanha a visão glamourizada que seus "pensadores" têm da pobreza, da miséria e da ignorância.

Eles acreditam num "Jardim do Eden" dotado de lixo, casas mal-construídas, mendigos nas ruas, ébrios nos bares, mocinhas jogadas na prostituição, moços jogados no trabalho informal ou no comércio clandestino, dentro de uma visão "poética" de pobreza que a falta de contato direto com as periferias faz as elites intelectuais brasileiras sonharem com a supremacia da cafonice.

Paciência. Em outras oportunidades escrevi que esses intelectuais, por mais progressistas que se autoproclamem, ainda guardam resíduos ideológicos de quando eles eram felizes vendo Rede Globo, lendo Folha de São Paulo e votando em Fernando Henrique Cardoso acreditando que o "príncipe" iria colocar o Brasil no Primeiro Mundo.

E aí, até por uma incompreensão do que ocorre fora dos escritórios, dos gabinetes, dos colegiados e das cátedras docentes, a intelectualidade "cansada da MPB" achava que o "povão" ouvia até mesmo o "lado B" da MPB experimental e "difícil" que apenas pouca gente dos grandes centros conhecia.

Daí o discurso persistente e persuasivo, que parece lindo à primeira vista. Mas que esconde um preconceito cruel vindo de uma elite tida como "sem preconceitos", mas que é portadora de um elitismo que juram ser "anti-elitista".

Isso porque, para eles, bonito é intelectual apreciar o brega, o "funk" e similares, achar que a supremacia do "mau gosto" irá salvar as classes populares, que "vale a pena" apostar em tudo isso a pretexto de garantir a prosperidade e aaparente felicidade do povo pobre, dentro de uma alegação de "diversidade cultural" que agrada também, e muito, os barões da grande mídia.

Em contrapartida, torna-se "abominável" ver o povo pobre ouvindo música de qualidade, mesmo que sejam sambas, baiões, modinhas, o próprio patrimônio cultural dos antepassados. A intelectualidade solta seus instintos "urubológicos" e diz que isso é "antiquado", "elitista", "velho" e "ultrapassado".

"Como os jovens das periferias de hoje vão ouvir sambas, lundus e maracatus? Isso é inadmissível, no contexto da modernidade globalizada de hoje. O jovem pobre de hoje só ouve hip hop e 'funk', além dos sucessos populares de hoje, isso é que é sua cultura, que vem do rádio e não dos avós", é o discurso corrente dessa intelectualidade.

Agora que o Farofa-fá e o Coletivo Fora do Eixo tentam dar a orientação oficial do que um intelectual médio de esquerda "deve pensar" sobre cultura popular, a intelectualidade dominante (que não assume esta condição) sofre a influência dos conceitos de "fim da História" de Francis Fukuyama aplicados à Música Popular Brasileira.

Com esta adaptação "pós-tropicalista" das ideias do historiador norte-americano, o rico patrimônio musical brasileiro chegou ao seu "termo final" e agora o que importa é a canção de consumo como meio de garantir a "felicidade" das classes populares, e junta-se um discurso supostamente esquerdista sobre cultura e novas mídias para promover a bregalização do país como se fosse "causa nobre".

Tal qual o "fim da História" de Fukuyama, que põe termo final aos eventos que marcaram a humanidade, anunciando a "nova era" de consumismo e utopias liberais, o "fim da História" da MPB anuncia o "fim" do rico patrimônio cultural brasileiro e uma "nova era" de bregalização que garante o consumismo de comportamentos e fórmulas musicais, de forte apelo comercial, dito "popular".

A intelectualidade dominante deve estar fazendo apostas sobre qual será, para elas, a última grande canção da MPB. Certamente não é a "Última Canção" de Paulo Sérgio, que está mais para os ditos "clássicos" do brega, um dos grandes sucessos da primeira fase do brega, que desprezava completamente a MPB sendo um subproduto dos "valores" musicais impostos pelo rádio.

Daí o equívoco da intelectualidade dizer que o brega é "discriminado pela grande mídia". Afinal, foi a grande mídia que construiu o brega, através da difusão de símbolos, fórmulas e padrões de comportamento e produção musical e estética.

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