sexta-feira, 20 de setembro de 2013

A PROVOCATIVA "URUBOLOGIA DO BEM"


Por Alexandre Figueiredo

Para a intelectualidade dominante, vale a regra: não se deve melhorar a cultura do povo pobre, basta encher de dinheiro, administrar a carreira dos ídolos que estão aí e tudo bem. Pode rolar a imoralidade que for, se é "negro, índio e pobre", vale tudo fora dos salões da casa grande e dentro das senzalas modernas do "popular" midiático.

Como um Black Bloc da etnografia militante, a intelectualidade dominante tenta promover o "mau gosto popular" como se fosse sua bandeira de luta. Acham que isso é "libertário". Mas também os Black Blocs acham "libertário" praticar vandalismos nas cidades.

Adianta ser "provocativo" para descobrir o verdadeiro valor da cultura brasileira? Não. Como também a revolução socialista não virá com um país "mais gay, mais drogado e mais pirateiro". Até porque existem homossexuais, drogados e pirateadores no Instituto Millenium. Polemizar por polemizar, ser "provocativo", é algo que até o Reinaldo Azevedo sabe e (só) consegue fazer.

Temos os "Reinaldo Azevedo" do bem achando que a solução para a cultura popular é o "mau gosto", a breguice, a cafonalha, e tudo o mais. Só que poucos conseguem perceber o que essa "urubologia do bem" quer dizer com isso, algo que nada tem a ver com o sentido progressista que muita gente boa, erroneamente, atribui a ela.

Primeiro, essa turma "sem preconceitos" mas muitíssimo preconceituosa quer promover o separatismo cultural sob o pretexto de "romper o apartheid que destroi a cultura brasileira", no discurso pseudo-progressista deles.

A tese deles se baseia na ideia de que é bonito ver as elites apreciando o lixo cultural associado às classes pobres, mas que é produzido sob o patrocínio das oligarquias, aristocracias e autoridades ultraconservadoras que estão por trás da "humilde" mídia popularesca que veicula esses "valores", "símbolos" e "personalidades".

Só que o problema disso tudo é que o povo não pode ter cultura de qualidade. Esta fica nas mãos dessa elite intelectual. O jornalista cultural tal se gaba de só ele saber quem é Rui Maurity, Lanny Gordin etc e tal. O antropólogo tal se gaba de conhecer o lado B da MPB do passado. A cineasta tal se gaba de ter lido Simone de Beauvoir, Balzac, etc. E o povo?

O povo, dentro do contexto brega-popularesco, só é "sábio" na imaginação fértil dos intelectuais. Eles é que fazem um julgamento de valor "positivo". Eles é que veem, com seus olhares paternalistas, que a mediocridade culturalmente subnutrida do brega-popularesco - dos primeiros ídolos cafonas aos funqueiros de hoje - é cheia de referenciais que o povo pobre, na verdade, nunca ouviu sequer falar.

De que adianta julgar os meros "fenômenos populares" da grande mídia sob os olhos bondosamente etnocêntricos da intelectualidade dominante? Julgar a ignorância alheia como se fosse um "outro tipo de sabedoria" é corromper o sentido da necessidade de aceitação do outro, um princípio antropológico, sucumbindo a uma aceitação cega e condescendente.

De que adianta, por exemplo, dizer que no "funk" carioca existem ecos de Antônio Conselheiro, Oswald de Andrade, Gregório de Mattos, Andy Wahrol, Malcolm McLaren se nenhum funqueiro se interessa por esses personagens? Esses referenciais só existem na imaginação delirante da intelectualidade que acha o "funk" o máximo.

O sentido "urubológico" dessas pregações "generosas" está no fato de que a intelectualidade dominante não quer realmente a melhoria cultural do povo pobre. Ela quer que o povo pobre primeiro expresse tudo aquilo que tem de pior para depois, protegida e aceita pela intelectualidade paternalista, passar a ter uma cosmética "higienista", juntando um extremo a outro.

Afinal, é o povo visto como "cru" na sua degradação sócio-cultural, subordinada a valores que transitam entre o grosseiro e o piegas, que, apoiado pela intelectualidade dominante, é "melhorado" e transformado num arremedo de classe média alta, como os antigos indígenas usando o vestuário doado pelos colonizadores.

Até agora isso nada resolveu na nossa cultura. E não serão as mobilizações por mais verbas do Ministério da Cultura que irão resolver isso. Financiar a mediocridade não irá melhorá-la, porque a mediocrização cultural não é uma questão de falta de dinheiro, mas de ignorância cultural mesmo, inclusive baixa autoestima, imoralidade e submissão às regras de mercado (sim, ele existe).

Romper com a cafonice é que irá resolver o problema cultural do povo pobre. E devolver a ele a cultura de raiz que a intelectualidade dominante tirou do povo pobre nos tempos da ditadura. Nada contra jovens riquinhos de Curitiba fazendo baião nordestino, por exemplo. Mas a ideia é fazer com que os próprios nordestinos voltem a fazer sua verdadeira cultura nordestina.

O problema é que isso irá ferir vaidades intelectuais há um bom tempo infladas. Devolver o patrimônio cultural ao povo pobre, tirando-o das mãos de burocratas e aristocratas do saber é ruim para os privilégios de nossa intelligentzia.

Para ela, seria melhor que ela "urubologicamente" defenda a bregalização com teses "provocativas" e pseudo-progressistas, no seu habitual faz-de-conta discursivo. As vaidades são preservadas e o mercado da visibilidade acadêmica e profissional continua nas mãos de uns poucos.

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