sexta-feira, 13 de setembro de 2013

A MISTURA PÓS-TROPICALISTA DO "FIM DAS IDEOLOGIAS"

JUNTOS NA "GELEIA GERAL" - Em sentido horário, Sandro Vaia, André Forastieri, Álvaro Pereira Jr. e Arnaldo Jabor.

Por Alexandre Figueiredo

O texto Música, Jornalismo e Política, de Pedro Alexandre Sanches, é uma declaração de amor a Francis Fukuyama. Ele, o único ausente das milhares de palavras escritas nesse texto, era o profeta do "fim da História", do "fim das ideologias", o historiador que, como animal político, declarou politicamente que a História "acabou". Agora vamos brincar, bregalizar, consumir, piratear etc.

Embora seja seu atestado de ideologia política e um manifesto de defesa da politização, o jornalista do Farofa-fá não estabelece um aparente caminho ideológico. Sabemos que ele não é um jornalista de esquerda. Escrever para tais espaços não significa, necessariamente, ser de esquerda, uma vez que isso depende das ideias transmitidas, e elas nem de longe refletem um esquerdismo sincero e seguro.

Pelo contrário. O que se vê aí é um aparente ressentimento com o background conservador que garantiu a formação e o DNA ideológico de Pedro Sanches, que, criticado por um texto que havia escrito sobre Chico Buarque (em que estava mais preocupado em falar mal do assessor dele), resolveu falar bem, pelo menos aparentemente, das canções de protesto.

Como em todo texto seu, ele realiza um desfile de nomes (ou "cores e nomes", no caso as "cores" ideológicas) e parece enumerar uma galeria de supostos desafetos da imprensa paulistana: de Roberto Carlos ao Instituto Millenium, passando por jornalistas como Sandro Vaia (que substituiu o vaiado Pimenta Neves no Estadão), André Forastieri, Álvaro Pereira Jr., Suzana Singer e Arnaldo Jabor.

O caminho "politizado" surge com Sanches tomando as dores de sua classe intelectual - aquela que pensa que o brega é a salvação para a cultura brasileira - com a desilusão em torno de Roberto Carlos, despolitizado e conservador, antes o ídolo máximo de uma suposta "antropofagia" pós-tropicalista, popularizador da guitarra elétrica na música brasileira e, depois de atuar como discreto soulman, patrono involuntário de uma geração de ídolos bregas pós-Jovem Guarda.

Sabe-se que Roberto Carlos, antes endeusado até mesmo nas suas canções dos anos 80, que embalaram os começos de carreira de gerações de neo-bregas pedantes, sejam "sertanejos", "pagodeiros" e similares, absolvido até de seus piores pecados musicais, tornou-se vilão da intelectualidade festiva de hoje por conta de um famoso incidente com o "papa" Paulo César Araújo.

Evidentemente, o religioso "Rei" ameaçando processar o "papa Paulo" tão querido e intocável pela intelligentzia brasileira, a partir de suas invencionices historiográficas sobre os ídolos cafonas, puxou a onda de desilusões dessa intelectualidade que quer um país promíscuo, uma gororoba cultural que mais parece uma caricatura subdesenvolvida da Contracultura do Primeiro Mundo.

No aspecto jornalístico, ele lamenta as atitudes de um Sandro Vaia que teria recebido colaborações "frilas" (jargão para jornalista free-lancer) de Sanches, a "antipolítica" de André Forastieri, o cinismo de Arnaldo Jabor e a submissão profissional de Suzana Singer, sobrando ataques a um Álvaro Pereira Jr. esquecendo de seu apoio ao É O Tchan, o "funk ostentação" da vez (1996-2000).

E ainda há as (discretas?) críticas ao Instituto Millenium, mas curiosamente com Pedro Sanches fazendo as mesmas indagações que se faz ao Coletivo Fora do Eixo, das tais das "verbas públicas". Virou a questão da vez.

No entanto, não se fala, por exemplo de investimentos privados, já que tanto o Imil quanto o FdE também se servem de investimentos privados, inclusive de instituições que colaboram com a CIA, agência de informação do governo dos EUA. E aí Sanches faz uma discreta crítica a "estranha blogueira cubana" que tem quase o mesmo sobrenome, Yoani Sanchez, sem citar o nome da mesma.

"DESPOLITIZAÇÕES"

À "despolitização" jornalística, Sanches contrapõe o lamento politicamente despolitizador. "O escândalo. A grana pública. O sexismo. A exploração dos artistas. A exploração das mulheres. A exploracão dos negros. A exploração dos indios (...). A homofobia. Todos os males do mundo concentrados em um 'quero que vá tudo pro inferno' só".

A "despolitização" dos imitadores do "inimitável" Roberto Carlos, da queixa deles não poderem ser considerados "geniais" mesmo com talento com "t" bem minúsculo. A "despolitização" de seus colegas da revista Fórum, que não queriam discutir as questões de "velha" ou "nova", "boa" ou "ruim" na MPB, em nome da apreciação cega da gororoba sonora de um Superpopular, mais um dessa leva de "performáticos-bregas" que pipocam por aí.

Ou então há a "despolitização" da discussão sobre o "funk", que só aceita o debate quando a meta é fazer o "funk" ser aceito, com todos os grotescos, pela sociedade, sobretudo o "discurso direto" de musas capazes de exibir seus glúteos ultrasiliconados no close da televisão, em horário diurno, na frente das crianças.

Usa-se até a desculpa da raça para permitir as baixarias do brega-popularesco. Se o "funk" tem baixaria, é coisa de negros e índios pobres. Se o "forró eletrônico" não presta, é porque é nordestino. Na "despolitização" discursiva, criticar vira "preconceito" social de qualquer espécie.

Politicamente, se "despolitiza" na discussão da mediocridade musical, da veiculação de baixos valores sociais, na contestação do "mau gosto", enquanto este é divinizado pela intelectualidade festiva como um "pecado original que já nasce absolvido", ou como um "sarampo" das periferias a ser curado milagrosamente pelo afago carinhoso da intelectualidade associada.

Tudo é "pobre", é "negro", é "índio". Pouco importam se há exploração no mercado "independente" da música popularesca. Pouco importam os valores associados ao machismo, pouco importa a imagem domesticada e caricatural do povo pobre. Pouco importam as drogas. Aceita-se tudo, porque é a mistura da mistura da mistura da mistura.

Não se discute essa "mistura". É o "fim das ideologias". Pouco importa o "funk" na Globo, o machismo das "boazudas", a constrangedora tristeza dos bregas, a felicidade caricata dos pobres cafonizados. "Fim das ideologias", "fim da História", fim dos questionamentos, hora de consumir os bens industriais e os pirateados.

Se, nesse "fim 'não-fim' da História", os problemas sociais têm solução de continuidade. O sarampo da cafonice no brega, "funk" e similares não será curado com a conversão de seus ídolos em filhinhos adotivos da nata da MPB. O cafona não será vanguardista acoplado no dodecafonismo pós-tropicalista. A "despolitização" da provocação, restrita à exaltação do "mau gosto", é o recado pós-tropical de Fukuyama. O brega é o "fim da História" da cultura brasileira.

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