quarta-feira, 4 de setembro de 2013

A INTELECTUALIDADE QUER "SAMPLEAR" A HISTÓRIA


Por Alexandre Figueiredo

A intelectualidade dominante no Brasil quer copiar a História. Através das comparações, bastante tendenciosas, em relação às expressões ditas "populares" que simbolizam o "mau gosto popular", elas tentam fazer uma falsa analogia entre a sociedade de hoje e a sociedade de 1910, que vivia valores originários do Segundo Império e da República Velha.

Não apenas com o "funk", mas também com o "pagodão" baiano, com a axé-music e o "forró eletrônico", já ocorriam tais alegações, além das conhecidas manobras discursivas que a intelectualidade faz em relação aos defeitos inerentes a esses ritmos mercadológicos da grande mídia.

Se, por exemplo, o "forró eletrônico" está estrangeiro demais, trocando a regionalidade dos antigos ritmos nordestinos com o engodo sonoro que mistura disco music, country e merengue, a intelectualidade bota a culpa em Oswald de Andrade, achando que esse estrangeirismo gratuito e claramente entreguista é "antropofagia".

Não é preciso aqui falarmos muito sobre "antropofagia", porque já escrevemos muito aqui. Mas sabe-se da diferença que esta ideia tem, que se fundamenta na tese de que elementos estrangeiros são usados para somar às culturas locais, com o estrangeirismo gratuito, em que elementos estrangeiros (que já são mal assimilados) são usados para subtrair as culturas locais.

Se o caso for o conteúdo de baixarias existentes no É O Tchan e nos ídolos do "funk carioca", a intelectualidade solta o alarme e tira de suas mangas a desculpa habilidosa de que esse conteúdo está "de acordo" com a poesia arrojada de Gregório de Mattos, poeta baiano que viveu no século XVIII.

Com o "funk carioca", tornou-se uma constante que seus defensores e ideólogos comparem a rejeição sofrida pelo ritmo hoje com a rejeição que ritmos como o maxixe, o samba e o lundu sofreram há 100 anos atrás. Trata-se de uma grande incoerência, porque a História não se repete e as sociedades não são as mesmas.

"PODER SUAVE"

Quando comparamos o caso do Coletivo Fora do Eixo e da Mídia Ninja com o caso da Revolta dos Marinheiros em 1964 e seu líder Cabo Anselmo, deixamos claro que existem diferenças de contexto. Mas, neste caso, existem os aspectos comuns de supostos movimentos que desviam os debates das reivindicações sociais, consideradas "perigosas" para os interesses imperialistas.

Os dois casos têm em comum, portanto, o fato de serem movimentações que desviam o debate público para discutir não mais as reformas sociais, mas a validade dessas movimentações ou mesmo a subordinação dos movimentos populares a esses pequenos movimentos.

O que quisemos com isso foi lembrar que, com o passar do tempo, Cabo Anselmo se revelou agente da CIA, através da denúncia que ele fez contra seus colegas e até contra uma namorada sua, que foram presos e mortos pela repressão militar. Eram tempos de Guerra Fria explícita e o imperialismo norte-americano agia nos outros países do mundo com o método do "poder duro" (hard power).

Hoje o imperialismo vive os tempos de "poder suave" (soft power) e é evidente que Pablo Capilé não vai entregar os manifestantes do Movimento Passe Livre, por exemplo, para a CIA. É certo que o Coletivo Fora do Eixo é patrocinado por um colaborador da CIA, o magnata George Soros, vide a propaganda que o grupo faz do projeto da Soros Open Society, o "negócio aberto" (open business).

Mas o que pode ocorrer é que, com o FdE transformado em partido, provavelmente PFdE, ele poderá ser desmascarado de outra forma, quando, com outros ventos políticos anos adiante, ele costurar alianças com o DEM, PSDB ou o PMDB em campanhas eleitorais. A própria "versatilidade" ideológica dos FdE, com um apoiando Marina, outro Lula e outro José Serra, diz muito disso.

ARISTOCRACIA APOIA O "FUNK"

O que se nota, hoje, é que a intelectualidade quer atribuir, aos que rejeitam o "funk", o mesmo moralismo que sofreu a sociedade brasileira nos idos de 1910, tempos de um moralismo bastante fechado e de um sistema de valores que combinava autoritarismo e injustiças, rigor extremo e corrupção.

Hoje temos uma sociedade moralmente flexível. A que rejeita o "funk" se insere neste contexto e, em sua maioria, são pessoas que nem fazem parte das ricas elites aristocráticas. Rejeita-se o "funk" pelos danos que, moralismos ou imoralismos à parte, causam na sociedade pobre, e não são poucas as pessoas das próprias periferias que rejeitam o "funk", até mais do que muita elite aristocrática.

Por outro lado, quem apoia o "funk" e pouco importa se a pedofilia estimulada pelos "bailes funk" é imoral ou não vem da burguesia "intelectualizada" e de muitos círculos aristocráticos. Verdadeiras dondocas da high society acham bonito que funqueiras, a pretexto da "mais pura sensualidade", posarem como se estivessem "fazendo as necessidades" no chão.

Para a burguesia, para a sociedade aristocrática, pouco importam as baixarias que ocorrem no cenário do "funk". Seus integrantes, dotados de algum sentimento paternalista, acham isso bonito. Só querem eliminar as baixarias quando elas ocorrem em comerciais de tevê, como os de detergentes, roupas íntimas ou canais de TV por assinatura.

Fora dos cenários da "casa grande", tudo é permitido. Os intelectuais que estão a serviço dessas elites, mas que se atrevem a fazer suas pregações nas plateias das esquerdas, tentam até dar valores positivos às imoralidades, quando elas ocorrem "lá longe", nas periferias.

BAIXARIAS COMO VISÃO ETNOCÊNTRICA DE "PUREZA"

Isso porque, para a visão "bondosamente" elitista da sociedade paternalista - aquela que prefere ver o povo pobre domesticado do que vê-lo lutando pelos seus direitos - , a imoralidade do "funk" sugere uma concepção de "pureza" que as aristocracias, tomadas de um pragmatismo geo-antropológico, atribuem de maneira etnocêntrica à miséria e à ignorância das populações pobres.

Como se seus membros criassem, nas suas imaginações férteis, uma visão "paradisíaca" das periferias, a intelectualidade dominante aposta nesta visão cordialmente aristocrática, e nesta ótica claramente etnocêntrica ela dissolve ideias que colheu, de maneira deturpada e sem a essência original, de conceitos difundidos por Charles Darwin, Claude Levi-Strauss e outros cientistas.

Daí a glamourização da pobreza e a consequente apologia da miséria e da ignorância associadas ao "funk". Mas cuja defesa, por parte de intelectuais, ativistas, artistas, políticos e celebridades, por mais que seja feita supostamente em prol de uma conscientização social, expressa um elitismo muito cruel e preconceitos piores do que aqueles que tal elite "engajada" diz combater.

Afinal, defendendo o "funk" com tais argumentos, tira-se a culpa do poder midiático e da corrupção política pela pobreza vivida pelo povo das periferias. Joga-se o problema para debaixo do tapete, enquanto arremedos de solução são feitos. Verbas estatais para serem misturadas ao suspeito investimento estrangeiro da Fundação Ford e de George Soros, e por aí vai.

Se o "funk" é rentável, deixa tudo como está. Pouco importa se o "povão" paga ingressos que depois se convertem nas fortunas dos DJs que empresariam o ritmo. Pouco importa se o povo pobre não evolui, se o grotesco permanece intato, se os valores retrógrados ainda prevalecem nas periferias. Isso acaba sendo um espetáculo que causa deleite para a intelectualidade dominante brasileira.

Não dá para copiar a História. O samba, o maxixe, ou mesmo o jazz nos EUA não tinham as baixarias como um fim em si mesmos. Eram menos provocativos e se preocupavam com a música em si. O "funk" é preso nas suas batidas, ritmos e vocais, num rigor estético excessivo, e por isso a intelectualidade está desesperada e apavorada com os "rumos" do ritmo.

É sinal de como o "funk", fechado em si mesmo, não consegue evoluir. E a intelectualidade fica confusa diante desse dilema do "funk" se "evoluir" sem se evoluir. Mas "samplear" a História é impossível, porque o tempo não para.

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