quarta-feira, 11 de setembro de 2013

A DECADÊNCIA DA AXÉ-MUSIC. FIM DE UMA ERA?

BELL MARQUES, UM DOS BARÕES DO CARNAVAL "TROPI-CARLISTA" BAIANO, ANUNCIOU QUE VAI SAIR DO CHICLETE COM BANANA EM 2014, EM MEIO A RUMORES DE BRIGAS COM SEUS PARCEIROS DE BANDA.

Por Alexandre Figueiredo

Um dos mais megalomaníacos mercados da música brega-popularesca, a axé-music, está em decadência, acumulando denúncias de exploração de músicos, escândalos sexuais e corrupção, além de ações políticas para punir as baixarias de várias de suas músicas.

Um dos símbolos da Era FHC, a axé-music sofre a sua mais grave crise numa época em que toma posse na Academia Brasileira de Letras o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso que, aliado de Antônio Carlos Magalhães, propiciou sua expansão.

Foi durante os dois governos FHC que a axé-music expandiu seu mercado até mesmo em áreas antes hostis ao gênero, como o Sul e o Sudeste, pois, antes disso, os axézeiros só conseguiam firmar mercado em São Paulo e, em parte, em Minas Gerais, Belo Horizonte ou no interior de Santa Catarina onde as tradições culturais locais foram enfraquecidas pelo coronelismo midiático.

A axé-music também foi uma das primeiras categorias derivadas da música brega - fundindo a influência "sensual" da lambada e outros ritmos similares do Norte com o apelo estético da segunda geração brega, simbolizada por Odair José - a se cercar de blindagem intelectual, com trabalhos acadêmicos feitos para promover uma imagem "positiva" do estilo para o que os baianos chamam de "Sul Maravilha" (o eixo Rio-São Paulo).

Foi durante a Era FHC que veio o artigo pretensioso e porralouca do historiador e sociólogo Milton Moura, professor da Universidade Federal da Bahia, intitulado "Esses Pagodes Impertinentes...", um texto nada científico que defendia o É O Tchan com discurso jocoso e argumentos discutíveis. Também na Era FHC, Mônica Neves Leme lançou a tese acadêmica que resultou no livro Que Tchan é Esse?, que só foi lançado em 2003.

A crise que passa a axé-music é tanta que um de seus ritmos derivados, o "arrocha" - espécie de versão eletrônica do brega de Amado Batista, com ecos de Zezé di Camargo e Alexandre Pires - , teve que apelar para parcerias com o "sertanejo universitário", um outro mercado diferente da axé-music, para ter alguma penetração nacional.

Desde as baixarias e o machismo explícito - que não conseguiu ser desmentido pela ditadura midiática - do É O Tchan, a axé-music acumula escândalos, enriquecimento ilícito, exploração de mão-de-obra, escândalos sexuais e calotes.

O É O Tchan já estava associado ao estímulo aberto à pedofilia e à prostituição infantil, e foi a trilha sonora da infância e adolescência de muitas das atuais musas "boazudas" de muitos glúteos e pouco cérebro. E essa pedofilia era estimulada até mesmo, pasmem, pelas "boas famílias", iludidas com o aparato de cores fortes das roupas e os sorrisos arreganhados dos integrantes do grupo.

Depois vieram denúncias de sonegação fiscal envolvendo o cantor Bell Marques, líder do Chiclete Com Banana, grupo que deixará após o Carnaval de 2014, conforme anúncio oficial. Tais denúncias contra o cantor, considerado uma das pessoas mais ricas do Estado e também empresário e latifundiário, chegaram a ser investigadas pelo jornal A Tarde.

Em seguida, vieram denúncias de exploração de músicos de bandas, que tinham o humilhante status de "empregados" e não músicos de apoio nem integrantes de bandas. O próprio Bell Marques foi acusado de explorar o guitarrista Cacique Jonny, que só foi assistido pelo cantor depois que este divulgou que sofria de uma grave doença.

Denúncias similares também atingiram Ivete Sangalo e Durval Lelys, vocalista do grupo Asa de Águia, acusados também de explorar músicos de apoio, obrigando-os a criar empresas "fantasmas" para criar renda e evitar que seus patrões (os "queridos" ídolos do axé) assumam obrigações fiscais com a Receita Federal.

Houve também o caso do agora extinto New Hit, grupo surgido na onda do "pagodão" pós-Tchan, acusado de estuprar duas fãs durante uma apresentação no interior da Bahia, confirmado em laudo criminal. E também o caso do patético grupo Leva Nóiz, pelo conteúdo pornográfico através de um sucesso que falava de uma aparente relação amorosa de dois super-heróis.

Recentemente, a cantora Cláudia Leitte, considerada uma clone musical de Ivete Sangalo, foi acusada por uma sócia de provocar um calote em sua empresa. além de cometer fraudes para atrair investimentos superfaturados do Ministério da Cultura.

Agora, com a anunciada saída de Bell Marques da banda Chiclete Com Banana, começam a surgir rumores de brigas com integrantes, já que Bell é considerado por sua arrogância e autoritarismo. Bell, no passado, teria provocado a expulsão do músico Missinho, um dos fundadores da banda (quando ela se chamava Scorpios) para se tornar líder e vocalista do grupo.

Musicalmente, o som do Chiclete Com Banana é oco e repetitivo, com letras praticamente monotemáticas, relativas ao Carnaval baiano, oscilando apenas entre "pegações amorosas" e letras de autorreverência, como atesta a música "Quero Chiclete", que, não bastasse isso, ainda tem refrão plagiado da música "Terceiro", do Ultraje a Rigor.

Há também outros rumores de que a saída de Bell e a continuidade do "Chicletão" sem ele são na verdade fragmentações de mercado, já que o mesmo repertório será trabalhado pelos dois projetos, Bell Marques solo e sua futura ex-banda. Bell cumprirá toda a agenda como vocalista do Chiclete até o Carnaval de 2014, quando encerrará sua participação na banda.

FORA DA AXÉ-MUSIC - A axé-music se desgasta depois de se tornar um mercado monopolizador na Bahia e de tentar criar reservas de mercado até mesmo em cidades antes hostis, como Niterói, Florianópolis e Belo Horizonte.

A influência imperialista da axé-music chegou a sufocar as demais expressões artísticas de Salvador. Elas não tinham espaço a não ser quando cooptadas pelo parasitismo marqueteiro da axé-music. Se, por exemplo, uma cantora faz MPB autêntica em Salvador, ela não tem espaço, a não ser que faça duetos com Ivete Sangalo, famosa por se apropriar de qualquer tendência musical.

Rumores também noticiaram que o mercado da axé-music tentava até mesmo enfraquecer o Palco do Rock, evento paralelo ao Carnaval baiano, pois os donos de blocos estariam financiando capangas para invadir o palco roqueiro da praia de Piatã para provocar arruaças e enfraquecer o evento, que em certas edições chegou a ser realizado em local fechado, uma casa noturna próxima com ingressos pagos e tudo.

Não deu certo. O rock baiano voltou a se fortalecer, até mesmo o prestigiado músico J Mascis - da banda norte-americana Dinosaur Jr. - foi fazer uma apresentação gratuita e, além do público cada vez maior do Palco do Rock, uma cidade como Camaçari ganhou até mesmo um dia municipal para o gênero, com uma expressiva agenda cultural.

A "monocultura" da axé-music, mesmo com seu falso ecumenismo - expresso até no nome do bloco carnavalesco de Bell Marques e seu (por enquanto) Chiclete, Camaleão - começou a se desgastar, se voltando mais ao público de maior poder aquisitivo, sobretudo pelas fantasias caras (abadás e becas), e com o investimento de tendências "mais populares" que tratam o povo pobre e negro de forma caricata, estereotipada e até pejorativa, o "pagodão" e o "arrocha".

O desgaste inevitável da axé-music, acrescido do sucessivo êxodo de artistas baianos alheios à "monocultura", de Pitty a Mariene de Castro, sem falar dos exemplos históricos de Raul Seixas e Marcelo Nova, que foram fazer carreiras em outros Estados, mostrou as feridas causadas por esse milionário mercado baiano, favorecido e fortalecido nos anos 90 pelas manobras político-midiáticas comandadas por Antônio Carlos Magalhães.

Hoje já se fala até mesmo em fechamentos de blocos carnavalescos. A axé-music ainda possui fanáticos por todo o país, mas ela começa a perder público, como uma espécie de "Rede Globo" musical.

Até para se promover para todo o país, os empresários da axé-music deixaram de alugar atores de novelas e trocá-los por ex-membros do Big Brother Brasil, que custam mais barato. E todo o esquema de corrupção, riquezas ilícitas e exploração de trabalho só agravam a decadência que a axé-music sofre e que pode significar, no futuro, o fim de uma era.

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