segunda-feira, 2 de setembro de 2013

A CIA E A 'MEA CULPA' DA GLOBO


Por Alexandre Figueiredo

Um dia depois do jornal O Globo publicar comunicado em que as Organizações Globo classificaram seu apoio ao golpe de 1964 como "um erro", o Fantástico, telejornal de variedades da Rede Globo, fez uma reportagem sobre as denúncias da CIA feitas por Edward Snowden, seu ex-funcionário, ao jornalista inglês Glenn Greenwald, do The Guardian.

É certo que a reportagem foi feita por Sônia Bridi e seu marido Paulo Zero, responsável pelas imagens. O casal é um daqueles brilhantes profissionais que constituem exceção na grande mídia, como bem alerta pessoas como Rodrigo Vianna e Marco Aurélio Mello. Sônia e Paulo procuram fazer um jornalismo honesto, abrangente e vibrante, mesmo trabalhando para um veículo como a Globo.

Mas essa brecha, que acompanha o processo da Rede Globo e de O Globo de publicar denúncias de Snowden sobre a CIA, que estaria fazendo intervenção tanto em internautas estadunidenses comuns quanto em autoridades de países considerados "problemáticos" (para a geopolítica imperialista dos EUA) como México e Brasil.

Numa época em que o presidente dos EUA, Barack Obama, já planeja uma intervenção bélica na Síria, as denúncias relacionadas ao seu órgão central de informação soam como uma bomba. A CIA há muito virou personagens de escândalo político depois do caso Wikileaks.

Hoje Bradley Manning foi condenado a prisão, Julian Assange e Edward Snowden estão exilados, e multiplicam-se as denúncias contra a CIA e sua arbitrária e abusiva espionagem. E por que as Organizações Globo estão publicando reportagens nesse sentido, se a corporação brasileira da grande mídia sempre foi historicamente subserviente aos ditames dos EUA?

A que interessa a Globo veicular denúncias contra a CIA? E por que a "autocrítica" em relação ao seu apoio ao golpe de 1964? Não dá para entender, se não observarmos as sutilezas. Talvez o caso da CIA seja tão grave nos EUA que mesmo investidores daquele país têm medo de fazer negócios na Internet com medo de serem rastreados pelo órgão de informação política.

Talvez a Globo tenha que recuar diante da má reputação que anda sofrendo na sociedade. É provável que seja uma forma de adaptar sua imagem publicitária aos novos tempos, a exemplo do que ocorreu há poucos meses, na tentativa da Globo de pegar carona nos movimentos sociais.

A desculpa de que as Organizações Globo apoiaram o golpe militar em razão de um clamor popular contra a crise do governo João Goulart, que sofria a pressão violenta da oposição contra suas promessas de reformas sociais, é uma grande hipocrisia.

Historicamente, a Globo apoiou os interesses do capitalismo norte-americano. A Rede Globo teve seu embrião no acordo Time-Life, firmado em 1962 e que chegou a ser investigado por uma CPI no Congresso Nacional, por volta de 1966.

Quanto ao caso da CIA, que era um dos artífices do golpe militar de 1964 e que tinha pronto um plano de guerra contra o Brasil - nos moldes do que hoje prepara contra a Síria - , no caso de uma resistência dos militares de Leonel Brizola, aliado mais ousado do governo João Goulart, a atitude das Organizações Globo em relação às denúncias contra a CIA requer reflexão.

Primeiro, por se tratar de uma brecha editorial vinda de um fato que até a grande imprensa conservadora dos EUA também faz cobertura. Nem todos os jornalistas da Globo seguem fielmente à opinião do dono, e em certas ocasiões os patrões precisam liberar os seus empregados para fazer um trabalho honesto, já que mentiras e omissões podem se tornar um sério risco de reputação.

Segundo, porque a sociedade afetada pela espionagem da CIA envolve não apenas o povo nem as esquerdas, mas qualquer um que potencialmente poderia desviar dos interesses estratégicos das autoridades estadunidenses, podendo ser executivos e profissionais liberais também.

Terceiro, a Globo sofre um desgaste de reputação tão grande que, eventualmente, precisa ceder. Não que ela se torne, de repente, uma mídia progressista ou plenamente honesta, mas precisa sobreviver às pressões sociais diante das sérias denúncias de sonegação fiscal que atingem a corporação dos Marinho.

Neste sentido, a liberação para a Globo fazer reportagens sobre denúncias contra sua "amiga" CIA, na prática, soa como uma troca de anéis para preservar os dedos.

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