domingo, 29 de setembro de 2013

89 FM PERDEU HÁ TEMPOS A SINTONIA COM A CULTURA ROCK

PARA A 89 FM, "CLÁSSICO DO ROCK" SE REFERE A NOMES DO "ROCK FAROFA" COMO A BANDA BON JOVI.

Por Alexandre Figueiredo

Se nos anos 90, a 89 FM era pop demais para o rock, e no começo deste século era muito brega para o rock, hoje ela simplesmente está antiquada demais para representar esse estilo musical. Isso é fato, conforme se nota na realidade que escapa a qualquer declaração publicitária ou a qualquer dado corporativista lançado pelos portais e fóruns virtuais de rádio.

O aparentemente bom (mas não excepcional) desempenho da 89 FM pouco tem a ver com a cultura rock. A rádio atrai os mesmos fãs de pop e de brega que ouvem outras rádios, como a Jovem Pan2, Energia 97, Band FM e Nativa FM (esta dos mesmos donos da 89, os hoje adeptos de Geraldo Alckmin da famiglia Camargo), interessados em ouvir algo mais "pop-rock".

Portanto, é um público que, entre um One Direction e um Munhoz & Mariano, entre um MC Guimé e um Justin Bieber ou entre uma Jennifer Lopez e uma MC Anitta, aceita ouvir algum Charlie Brown Jr., algum Offspring, algum Guns N'Roses, Evanescence ou Nickelback.

Há muito tempo o suposto radicalismo "roqueiro" da 89 FM, que já causava desconfiança nos roqueiros paulistanos, deixou de convencer até mesmo aqueles que nem são tão entendidos em rock, mas que não se contentam com o cardápio subnutrido oferecido pela emissora, que vai abaixo até mesmo das necessidades mais básicas de cobertura da cultura rock.

Em tempos de fim da MTV Brasil como conhecíamos, a 89 FM hoje soa velha, cansada. E, depois de prometer uma performance "daquelas", em dezembro de 2012, voltou a ser exatamente aquela emissora pseudo-roqueira cuja indignação dos roqueiros fez a emissora abandonar, por um breve período, o perfil supostamente roqueiro, em 2006.

A crise havia se dado pela atitude arrogante dos produtores e adeptos da 89 FM, que, em fóruns sobre rádio, defendiam, sem qualquer sutileza, que rádio de rock não deveria ser feita por quem entendesse de rock, sob a desculpa de que isso se apegaria ao gosto musical pessoal.

Deram um tiro no pé. Tentaram dizer que rádios de rock comandadas por quem não curte rock teriam melhor profissionalismo. Declaração puramente estúpida, uma vez que, segundo as regras do mercado de trabalho, deve-se gostar do que faz, ninguém vira bom profissional pelo fato de não gostar nem entender o que está fazendo.

Naquela época, a Internet já começava a aumentar sua força, e aqueles tempos de supremacia absoluta da suposta "rádio rock" viraram coisa do passado. O You Tube oferece uma infinidade de nomes roqueiros que nem de raspão passam pelos 89,1 mhz paulistanos. E a 89 há muito nem oferece o "feijão com arroz" do rock, mas a "água com farinha" (ou farofa, talvez farofa-fá).

"RÁDIO CROAC"

A 89 perdeu a sintonia com o rock, uma palavrinha mal pronunciada em suas vinhetas, como em toda rádio pseudo-roqueira do Brasil (como houve, por exemplo, na rádio 96 FM de Salvador, no começo dos anos 90, ou na Rede Transamérica, em 1995) em que a palavra rock parece pronunciada por um rapagão imitando um sapo dizendo "croac".

A fuga dos ouvintes que realmente curtem rock de qualquer sintonia da 89, seja na Internet, seja nos 89,1 mhz paulistanos, é tão evidente que os últimos nomes de rock autêntico envolvidos no êxodo são justamente Iron Maiden e AC/DC, sobretudo o primeiro, que apareceu com o mesmo talento e carisma de sempre no último Rock In Rio.

Ninguém vai querer ouvir cinco ou seis sucessos de seus ídolos, se pode ouvi-los e ouvir muito mais músicas na sua seleção de MP3 ou na sua coleção de CDs. O fã de Iron Maiden, por exemplo, é bastante exigente, e prefere colocar seus CDs para rolar no equipamento de som do que ouvir uns poucos sucessos a serem "atropelados" a qualquer momento por um locutor "engraçadinho".

A Internet mostra, além de um acervo mais abrangente de rock, de todas as épocas e vertentes, rádios estrangeiras que dão um banho no provincianismo da 89 FM que pensa que "clássico do rock" é Bon Jovi, Guns N'Roses, Mamonas Assassinas e Smash Mouth.

Outro fator a considerar é que, se nos anos 90 a blindagem do Grupo Folha e do Grupo Abril em proteger a "rádio rock" era considerada um apoio luxuoso, hoje não aumenta mais a reputação. E, como a Folha e a Abril, a 89 soa por demais reacionária, conservadora, antiquada, fora de sintonia com os novos tempos.

Uma rádio cuja linguagem é um "meio-termo" entre a alegria emo e a agressividade dos skinheads, na prática algo como uma Jovem Pan 2 à beira de um surto psicótico, deixou de ter qualquer representatividade para a cultura rock, criando até mesmo um baixo astral para quem, em dezembro passado, apostava que o rock seria o estilo musical predominante em São Paulo.

89 É O "REINALDO AZEVEDO" DAS RÁDIOS DE ROCK

Para piorar, blogueiros da 89 teriam feito trolagens e até hackeagem em diversos sítios, mostrando seu grau de intolerância às críticas. A 89 FM virou uma espécie de "Reinaldo Azevedo" do radialismo rock, pensando que poderia levar vantagem confundindo rebeldia com pavio curto.

A arrogância, ignorância e um certo provincianismo da 89 FM, que mais valoriza um Mamonas Assassinas do que Legião Urbana, que maltrata o rock enquanto gringos como Bruce Springsteen deram toda a consideração ao rock brasileiro, cantando uma música de Raul Seixas em português esforçado, acaba piorando o que já estava pior: sua crise de reputação no segmento rock.

Somando tudo isso ao temor de que os game shows e programas com celebridades da 89 FM voltem a chamar famosos de segundo escalão ou nomes não-roqueiros - como a "rádio rock" havia feito com Wanessa Camargo e até Celso Portiolli - , o público roqueiro de São Paulo prefere manter o rádio desligado.

Não adianta reclamarem. A 89 FM não se adaptou à realidade do rock. Ela vive se autopromovendo às custas de sua efêmera fase boa, mas longe de ser genial, em que tocava mais Eurythmics, Billy Idol, Titãs, Lulu Santos e Kid Abelha, mas poderia inserir Frank Zappa, Violeta de Outono, Fellini e Violent Femmes no meio de tudo isso.

Foram apenas um período muito curto, de 1985 a 1987. Bem mais do que a fase áurea da Fluminense, que durou um pouco mais (1982-1985), fora a fase 1986-1990 em que, mesmo menos ousada, era melhor que os primórdios da 89 FM. A 89 no fundo vive de glórias passadas há 24 anos, quando começou a perder a noção de realidade na cultura rock.

O comercialismo da 89 até conseguiu enganar um país sem Internet. Mas, com um público roqueiro cada vez mais exigente e menos conformado com o "mais do mesmo", mais dedicado a garimpar raridades e comprar discos até de sítios estrangeiros, a 89 soa antiquada, cansada e impotente de acompanhar os novos tempos.

Não se sabe até quando a 89 FM vai durar nesta fase. Mas a velha grande mídia, que protege tanto a decadente Veja, vai proteger a 89. Sem ter o poder de prestígio de outrora. Seria melhor a 89 FM assumir logo seu "filho bastardo", o Restart, banda de emo alegre que só existe graças à linha (d)evolutiva que a 89 trabalhou em formas "comportadas" de punk rock, a partir do Não Religião.

Afinal, o Restart poderia pelo menos garantir uns pontos seguros no Ibope da 89 FM já que a rádio comandada pelo ex-vocalista do Não Religião, Tatola (com apelido do mesmo estilo do Tutinha da Jovem Pan 2 e locução do estilo da mesma emissora) anda em baixa no segmento roqueiro autêntico, por sinal hostilizado sem disfarce pelos ouvintes da 89.

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