domingo, 4 de agosto de 2013

QUEM OUVE MESMO RÁDIO FM NO BRASIL?




Por Alexandre Figueiredo

Quer ir a um outro planeta? Não precisa ir para a NASA, se inscrever como astronauta, se sujeitar a testes diversos, enfrentar a queda da gravidade e tudo o mais. Basta entrar numa coluna de rádio, num fórum ou num portal de notícias sobre rádio. Lá você entra num novo planeta, diferente da realidade em que vivemos concretamente.

Lá todos vivem com o rádio grudado no seu organismo. Todas as rádios, sobretudo FM, possuem audiência gigantesca. Qualquer locutor surgido do nada é "Rei do Ibope", e as audiências radiofônicas não são superiores a 15 mil pessoas. Locutores esportivos nunca possuem queda de audiência, apesar de nossa realidade admitir que, no futebol, até os grandes times caem um dia para divisões inferiores de campeonatos.

Que o rádio FM continua tendo audiência, é verdade. Como a TV tem espectadores e jornais e revistas possuem leitores. Mas o problema é que, na violenta crise midiática que atinge corporações midiáticas, o rádio FM tenta negar sua própria realidade e inverter sua situação no contexto dessa crise. No seu narcisismo, o corporativismo radiófilo chega mesmo a "afirmar" que a força do rádio supera a da Internet.

Daí o "mundo diferente" que é o dos radiófilos. Nele, o corporativismo chega mesmo a adotar fantasias como verdades. Astros do rádio não são cultuados como profissionais competentes, antes fossem tidos como semi-deuses da Comunicação. Audiências de emissoras de rádio envolvem números surreais, que somados podem até mesmo superar o número de habitantes de uma cidade. Reina a fantasia no país dos radiófilos.

É bom demais de ser verdade que, num contexto em que redes de televisão sofrem crise de audiência, jornais e revistas perdem leitores e várias publicações entram em falência, o rádio FM diga que "está crescendo". E isso com dados de institutos de pesquisas, que contraditoriamente não têm a menor confiabilidade quanto às pesquisas eleitorais, mas detém a verdade absoluta quanto às pesquisas de audiência de rádio.

Por trás desse mundo da fantasia, o rádio, como um todo, segue a mesma crise da TV, do jornal e da revista, todos sofrendo a concorrência da Internet. E, se o rádio AM está hoje em coma, o rádio FM sofreu um AVC. As FMs perderam de qualidade, a Frequência Modulada virou uma mesa de negócios empresariais e políticos, portanto, se a população do Brasil aumentou nos últimos anos e o rádio FM perdeu mais audiência, paciência.

Não há como tapar o sol com a peneira. Mas o rádio FM insiste em tapar. Primeiro, com a surreal supervalorização das sintonias nos automóveis, uma atitude bastante risível, pois sabemos que o motorista de automóvel não é necessariamente um público sofisticado e qualificado. Agora, o rádio FM busca desesperadamente as sintonias "coletivas".

Essa segunda manobra já é considerada uma prática de jabaculê, uma vez que várias emissoras em FM, inclusive as que adotam programação tipo "Aemão" (noticiários, esportes e "variedades"), que têm a pior audiência (apesar de serem as mais ostensivas, devido à poluição sonora), tentam diluir audiências individuais em estabelecimentos comerciais, onde fregueses acabam "ouvindo" a rádio que só interessa ao seu gerente ouvir.

Isso se comprova diante da contradição das andanças nas ruas - não é preciso ser estatístico nem jornalista para tal tarefa - , quando as pessoas estão ocupadas demais em suas vidas para ouvir rádios, daí a audiência baixíssima, e os números "gigantescos" registrados pelos institutos de pesquisas (tipo Ibope). É porque vários desses "ouvintes" vem de estabelecimentos comerciais onde apenas o gerente ou o dono decide sintonizar tal emissora.

Muitas das emissoras FM, sejam as grandes redes, sejam as emissoras regionais, em sua maior parte são controladas por grupos oligárquicos, cujo contexto de poder midiático não é diferente do que se vê nos chamados "jornalões", por exemplo. Sem falar que boa parte do poder latifundiário no interior do país estende seus domínios através de emissoras FM, principalmente as de perfil popularesco.

Junte-se a isso o desaparecimento de emissoras de referência - como a Antena Um carioca e a Fluminense FM niteroiense - e a crônica falta de criatividade das programações de FM ou mesmo da obsessão de jogar velhas fórmulas de AM em FM do que renovar o rádio AM, e cria-se um quadro que afasta milhares e milhares de ouvintes do dial radiofônico.

Daí a alternativa mais abrangente da blogosfera, dos arquivos de MP3, que fazem a diferença e que não possuem a repetitividade e a superficialidade das FMs. A Frequência Modulada está em crise, mas por enquanto o corporativismo radiófilo está fora de sintonia com a realidade.

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