quarta-feira, 7 de agosto de 2013

POR QUE A INTELECTUALIDADE DOMINANTE RENEGA A HERANÇA TUCANA?


Por Alexandre Figueiredo

O que faz a intelectualidade dominante, que acredita no jabaculê de hoje como o caminho viável para a cultura popular do futuro, renegar a herança ideológica do neoliberalismo? Por que os ideólogos da "cultura" brega e seus derivados insistem tanto em se mascarar de esquerdistas, quando seu discurso, confuso, mesmo bem construído não evita falhas sérias?

Afinal, eles apenas defendem o "estabelecido" na cutlura brasileira, exaltando a cultura de qualidade apenas como forma de dizer à opinião pública que eles "prezam pelo zelo da verdadeira cultura", mas também como gancho para jogar o joio da breguice hegemônica no nosso trigo cultural.

Há muito descrevemos quem e como são esses "pensadores", e como e por que eles são ligados ideologicamente a Fernando Henrique Cardoso. Uma intelectualidade não se ascende num estalo. Ela se ascende depois de um tempo de muita persuasão nas cátedras acadêmicas, muita manipulação ideológica, muita lavagem cerebral travestida de cursos de extensão ou pós-graduação.

A geração que se ascendeu na Era Lula - Paulo César Araújo, Hermano Vianna, Pedro Alexandre Sanches, Eugênio Raggi e outros - vem do tempo anterior. E o que era o tempo anterior? O de FHC, evidentemente. Foi nesse período em que os ideólogos da "cultura" brega se formaram, foi durante os dois governos do sociólogo do PSDB que eles trabalharam seu sistema ideológico.

Não há como escapar. Mas o que leva eles a renegar essa herança, a ponto de darem puxões de orelha em alguns dos representantes do tucanato político midiático, de Marcelo Tas a José Serra, de Ali Kamel a Eliane Cantanhede, é um grande mistério.

Afinal, é uma manobra "suicida". O intelectual que defende o mesmo brega que aparece feliz da vida na tela da Globo costuma alfinetar seus afins, talvez por uma estratégia de tentar impressionar amigos esquerdistas dos quais ele quer tirar alguma vantagem.

Em contrapartida, o mesmo intelectual rói de raiva e discordância para com gente que varia de José Ramos Tinhorão a Dioclécio Luz, mas precisa se conter, em silêncio. Também em relação a bandeiras esquerdistas, como a reforma agrária e a regulação da mídia, costumam adotar uma postura quase silenciosa, embora finjam estarem plenamente favoráveis.

A gente aqui infere que a intelectualidade dominante foi tomada de surpresa. Todos apostavam suas fichas para ver Paulo César Araújo como o intelectual símbolo da Era José Serra e puxar toda uma geração de intelectuais que pensava a cultura popular sob uma perspectiva neoliberal, que corteja o brega e seus derivados.

Só que Lula foi eleito e, diante do barco eleitoral furado do PSDB, a intelectualidade dominante, tal qual um bando de piratas, foi migrar para a embarcação inimiga para dominar a tripulação desta. Hoje parte da opinião pública acha que esses intelectuais são mesmo "de esquerda", só porque eles falam "em nome do popular" e "pelo pobre".

Grande engano. Essa mesma intelectualidade, incluindo seus fãs e seguidores, nada tem das esquerdas progressistas às quais tentam um vínculo desesperado. Se abrirmos mão da memória curta, espécie de "mal de Alzheimer" histórico do Brasil, lembraremos do orgulho que, há 20 anos atrás, esses mesmos intelectuais tinham pelo tucanato político e midiático.

Eles faziam parte de uma elite que viveu suas infâncias e juventudes felizes manobradas pelo espetáculo domesticador da Rede Globo durante a ditadura militar, e mergulharam numa puberdade ou maturidade lendo as páginas da Folha de São Paulo. Descontentes com a Era Collor, viam no tecnocrata Fernando Henrique Cardoso a salvação da lavoura para o Brasil.

Nos anos 90, essa postura era clara, e vinha da USP para o resto do país. A Folha de São Paulo foi um paradigma de jornalismo moderno e dinâmico, e eu mesmo pude verificar isso, na Universidade Federal da Bahia, em Salvador. Aristocráticos, "descolados" e mesmo esquerdistas médios buscavam o status fácil da sabedoria aparente comprando o periódico de Otávio Frias Filho.

Além disso, tinha a ideologia predominante da USP, que se orgulhava em ver seus antigos tecnocratas se ascenderem na vida política, como Fernando Henrique Cardoso e José Serra, e a Folha tinha um projeto ideológico, o Projeto Folha, inspirado em utopias neoliberais e tecnocráticas trazidas por eventos como a queda do Leste Europeu e a globalização econômica e tecnológica.

Não é coincidência que muitas das ideias veiculadas hoje por essa intelectualidade, pelo Coletivo Fora do Eixo, pelo Jornalismo nas Américas e outros movimentos similares, vem das ideias de Fernando Henrique Cardoso, Otávio Frias Filho e companhia.

O conteúdo neoliberal da "cultura" brega e seus derivados pressupõe a teoria de "livre mercado" no qual a MPB, o feminismo, o ativismo popular e estudantil são apenas pretextos para que valores ligados ao "mau gosto" - mas que agradam até mesmo latifundiários e barões da mídia - penetrem na "alta cultura" como se fossem "valores positivos do outro".

Também não é coincidência que pontos de vista que nomes como Pedro Alexandre Sanches, Denise Garcia, Alice Riff e Eduardo Nunomura veiculam nas esquerdas são rigorosamente os mesmos que se lê nas páginas do Segundo Caderno de O Globo e na Ilustrada da Folha e que até nomes como Nelson Motta, lá do Instituto Millenium, defende com todas as letras, acentos e pontuações.

Mesmo as ideias de "novas mídias digitais" pregam, na verdade, a coisificação do homem, reduzindo seu potencial transformador do mundo em que vive numa ferramenta das novas tecnologias. O homem deixa de ser o sujeito, as novas mídias é que são o "sujeito transformador" que usam o ser humano como ferramenta, de acordo com o que pensam esses intelectuais.

Com tantos vestígios dessa herança não só de FHC, Folha e Globo, mas de tudo o que corresponde ao pensamento neoliberal, à visão "senhorial" de classes populares e ao "livre mercado", não há como entender tanta histeria em esconder uma herança ideológica tão integralmente mantida quanto desesperadamente renegada.

Ver essa mesma intelectualidade, amestrada pelas ideias acadêmicas de FHC, pelas abordagens imagéticas da Rede Globo e pelas pregações intelectuais da Folha de São Paulo agora se dizer "socialista da gema" e julgar revolucionário as teses neoliberais "populistas" que defendem, é algo que requer uma investigação cautelosa.

A exemplo dos "ministros" do Supremo Tribunal Federal amigos do tucanato político-midiático, a intelectualidade dominante também usa os mesmos procedimentos para manter o status quo da "cultura popular" oficialmente patrocinada pelos barões da mídia. Mascarar isso com alegações "esquerdistas" é um grande mistério, porque a intelectualidade não precisa disso.

Mas talvez o que podemos inferir, mais uma vez, é que a intelectualidade dominante quer "arrombar a festa". Ainda há um grande vácuo na abordagem da cultura popular pelas esquerdas, depois da campanha academicista contra José Ramos Tinhorão, o ISEB e os CPCs da UNE, que promoviam um debate menos condescendente da cultura popular, em que pese suas imperfeições.

Só que esse grande vácuo não será preenchido por elites que apenas tomam por "libertário" o mesmo lero-lero cafona, brega, pitoresco, piegas e sensacionalista que a grande mídia veicula, não por acidente, mas é porque garante altos lucros às custas da domesticação sócio-cultural do povo pobre.

Portanto, essa intelectualidade que, sob o rótulo de "esquerda", sai por aí dizendo que o brega é "provocativamente sensacional", havia trabalhado seu repertório ideológico quando ainda se orgulhavam, felizes, em estarem do lado de FHC, da Globo e da Folha.

O que cabe a nós não é perguntar para eles por que não assumem tal herança. Vão dizer que nunca tiveram a ver com FHC e sempre odiaram ele. Máscaras discursivas garantidas pela memória curta. O que cabe a nós é investigar o que faziam esses intelectuais no passado, em vez de aceitarmos de maneira tola e servil seu proselitismo dentro dos cenários esquerdistas.

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