quinta-feira, 29 de agosto de 2013

OS MÉDICOS ESTRANGEIROS E A QUESTÃO DO NACIONALISMO


Por Alexandre Figueiredo

É muito complicada a realidade brasileira. O povo brasileiro tem sua história, mas vários setores da sociedade clamam que a transformação do Brasil dependa sempre de ideias e procedimentos vindos de fora.

Que eventualmente precisamos de ideias de fora, é verdade. E em muitos aspectos isso traz benefícios muito grandes para nosso país, como o fato da vinda de imigrantes europeus e japoneses para exercer atividades industriais e agrícolas no nosso país no século passado e a vinda de professores estrangeiros na Universidade da Bahia (atual UFBA), em Salvador, que dinamizaram a cultura baiana.

O problema é quando superestimamos essa necessidade e renegamos as identidades brasileiras, como se a verdadeira identidade brasileira se limitasse a ser uma junção de "restos" das culturas de fora. Como se o destino do Brasil é ser um eterno Frankenstein, uma aberração que juntasse de forma caótica as "sobras" do que vem de fora...

A questão do programa Mais Médicos trazer médicos estrangeiros tornou-se controversa por aparentemente refoçar o mito de receptividade ilimitada que o Brasil tem aos estrangeiros e que, infelizmente, é defendida por muitas autoridades, empresários e outros setores da sociedade.

Isso porque a ação emergencial lançada pelo governo Dilma Rousseff, de chamar médicos do exterior para atuar em cidades e Estados com maior carência de profissionais de Medicina, trabalhando nos serviços públicos de atendimento médico, está sendo superestimada pelos ideólogos da repectividade estrangeira, que querem não um Brasil brasileiro, mas um Brasil "mundializado", de preferência vassalo dos países ricos.

Afinal, a medida dos médicos estrangeiros, a exemplo do Bolsa Família e das cotas universitárias, é uma medida emergencial. Medidas como estas não podem ser vistas em caráter definitivo, seu sentido está mais em reparar grandes distorções sociais do que em soluções plenas para a vida toda.

Por outro lado, a grande mídia, ao observar o episódio dos médicos estrangeiros, implicou justamente com os médicos cubanos, até pela conhecida orientação política do país centro-africano. E logo surgiram reacionários de plantão, como a internauta do Facebook Cíntia Oliveira, que escreveu que esperava ver médicos cubanos "mortos por aí", como uma Mayara Petruso da hora.

Para quem não sabe, Mayara Petruso era uma estudante universitária que viveu seus "quinze minutos"de fama escrevendo mensagens ofensivas ao povo nordestino, causando uma repercussão tão negativa na Internet que a estudante ficou assustada.

Houve também o caso da jornalista potiguar Micheline Borges que escreveu o comentário infeliz: “Essas médicas cubanas têm cara de empregadas domésticas. Será que são médicas mesmo? Que terrível”, num duplo ataque a empregadas domésticas e médicas cubanas, carregado de preconceitos de classe e de cor.

Os profissionais cubanos viraram os "bodes expiatórios" de outro extremo, a xenofobia, carregada do direitismo mais reacionário. De Reinaldo Azevedo e Eliane Cantanhede a pessoas aparentemente comuns que lançam olhares de rancor a médicos cubanos chegando ao Brasil, nota-se o elitismo doentio que se disfarça de "reprovação natural" à investida de médicos estrangeiros no Brasil.

Isso porque o alvo se limita somente aos cubanos, por conta de serem de um país de orientação socialista e por isso o foco dos ataques das elites reacionárias. Até mesmo a sinistra blogueira Yoani Sanchez tentou desqualificar a medicina em Cuba, que até mesmo parte da sociedade conservadora no mundo inteiro admite ser uma das melhores do mundo.

Não que devamos reprovar também a chegada de argentinos, italianos, espanhóis etc. Se o governo Dilma já decidiu que chegassem médicos estrangeiros, agora é garantir que eles executem seus trabalhos. Desde que não tomem o lugar dos brasileiros, isso é até saudável. O que falta agora é estabelecer o processo de reciclagem ou cursos de extensão desses médicos no Brasil e investimentos pesados para garantir equipamentos modernos e em funcionamento.

Quanto à questão dos estrangeiros, não devemos pensar em xenofobia nem em abertura irrestrita aos estrangeiros. A própria direita que agora ataca o Mais Médicos por causa da medida é bem receptiva quando são empresas nacionais vendidas para os estrangeiros. Eles tentam embarcar em causas sociais para disfarçar seu elitismo, principalmente o medieval Reinaldo Azevedo, da decadente Veja.

O Brasil construiu sua nacionalidade a partir de sucessivas vindas de estrangeiros, sejam os ancestrais dos indígenas vindos da Indonésia e da Oceania, sejam portugueses, espanhóis, chineses, alemães, japoneses, norte-americanos etc. Bem dosada, a influência estrangeira enriquece e aperfeiçoa a vida dos brasileiros. Levada ao extremo, porém, pode significar a negação de nossa nacionalidade e a subordinação das imposições estrangeiras.

Portanto, o Brasil deve manter sua nacionalidade, num claro equilíbrio entre preservar sua identidade local e se abrir para as lições que chegam de fora. E que os médicos estrangeiros a residir no Brasil tenham um excelente trabalho.

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