domingo, 18 de agosto de 2013

O QUE VAI ACONTECER COM O "ENTULHO CULTURAL" DA GLOBO?

SUPOSTAMENTE "À MARGEM" DA GRANDE MÍDIA, NOMES COMO ZEZÉ DI CAMARGO & LUCIANO TÊM CADEIRA CATIVA NA REDE GLOBO.

Por Alexandre Figueiredo

A Rede Globo atravessa uma grave crise de audiência, que atinge seus diversos programas. Vai desde o Jornal Nacional até o Esporte Espetacular e Fantástico, além das novelas, do Domingão do Faustão e outros que antes eram sinônimo de liderança de audiência.

É um quadro comparável a, por exemplo, a decadência do Grupo Abril, que, além de encerrar a franquia da MTV - que agora voltará vinculada à sua dona, a Viacom, em sua filial brasileira - , tirou das bancas diversos periódicos e demitiu centenas de pessoas (mas voltou atrás em parte delas, mediante determinação da Justiça).

É bom lembrar que a Rede Globo, muito mais do que propagar um jornalismo político ranzinza e um noticiário geral ao mesmo tempo conservador e fantasioso, havia formatado um paradigma de "cultura popular" cujo processo e gravidade as esquerdas ainda não compreenderam plenamente.

Afinal, até hoje as esquerdas, pelo menos as médias (as que adotam um posicionamento crítico ainda débil), insistem em dizer que os valores e fenômenos "culturais" derivados do brega e que caraterizam o suposto "popular" da grande mídia estão "à margem" da mesma. Tentam criar discursos libertários em torno desses ídolos, em argumentos constrangedores, embora persistentes.

O que poucos sabem é que existe uma diferença, para pior, do "popular" de hoje com o realmente popular de outrora. Tínhamos grandes personalidades e grandes artistas vindos das classes populares e que não precisavam se enriquecer primeiro para mostrarem qualidades depois.

Eram épocas de Jackson do Pandeiro, Milton Santos, Carolina Maria de Jesus, Cartola, Luiz Gonzaga, Adoniran Barbosa, e tantos outros. E isso numa época sem Internet, onde as informações atualizadas tinham muito tempo para se difundir para longe.

Hoje, em tempos de Internet e de uma diversidade de informações, o que se vê é um brega-popularesco rasteiro em que a ignorância e a estupidez se tornam moedas de ascensão de sub-celebridades e sub-artistas, que chegam na grande mídia posando de "coitadinhos" e que, mediante um volumoso investimento financeiro, tornam-se famosos e populares.

São ídolos de tendências musicais brega-popularescas, como o "sertanejo" e o "pagode romântico", o "forró eletrônico" e o "funk" etc. São sub-celebridades de reality shows. São musas "popozudas" que só vivem de mostrar o corpo. São jornalistas policialescos incitando a violência ou fazendo propaganda de aberrações e situações ridículas. E por aí vai.

O problema é que a intelectualidade dominante que temos é de formação elitista. Se preocupam em dizer que "não possuem preconceitos" ou "sofrem" por causa do "preconceito" dos outros. Se acham "progressistas" com valores herdados do PSDB, da Folha de São Paulo e, principalmente, das Organizações Globo. E ainda falam mal da grande mídia.

Eles é que glamourizam esse "popular" midiático, se esforçando em criar um "consenso" em favor desse mercado. Tentam dizer que essa pretensa cultura é "independente", "alternativa" ou "à margem da mídia", pondo para debaixo de seus tapetes de luxo de suas casas a evidente contribuição da Globo na propagação dessa pseudo-cultura.

É só ver o Domingão do Faustão, o Caldeirão do Huck, os programas da Xuxa, as trilhas de novelas, os especiais musicais. A breguice dominante é até "embelezada" para atingir as plateias médias, mas isso nunca significou um salto de qualidade, pois tudo continua medíocre, apenas "com mais categoria".

E o jornal O Globo, que volta e meia anda exaltando os bregas de raiz e o "funk carioca", e tenta transformar os neo-bregas dos anos 90 ora em "sofisticados", ora em "alternativos", também deixa claro que a cafonice que o brasileiro comum acredita ser "libertária" e "anti-mídia", na verdade se define na ideia desconfortável, incômoda mas realista de "sub-produto" da grande mídia.

Com a decadência da Rede Globo, é evidente que os ídolos popularescos já tinham espaço também nas emissoras concorrentes. E tentam agora desvincular-se do império midiático em declínio. Tentam se passar por vanguarda, quando na verdade são retaguarda, usando um forte lobby intelectual que difunde ideias de valor discutível, mas detém um privilégio de visibilidade.

O "entulho cultural" da Globo tenta ser repassado para outros meios. É jogado até nos espaços esquerdistas, não sem tantos protestos. Porque hoje em dia, quando um intelectual de esquerda tenta defender o "funk carioca", as críticas negativas aumentam, e quem pensa que se trata de uma elite "preconceituosa", está enganado. São pessoas bastante esclarecidas das coisas em geral.

O problema da intelectualidadeé querer transformar entulho em ouro. Mas entulho não é ouro. O brega e seus derivados estão velhos, mais velhos do que a verdadeira cultura popular que é mais antiga. Isso porque o brega sempre olhou, meio cabisbaixo, para trás, pegava modismos em última hora, do contrário da antiga cultura popular que era feita de cabeça erguida e olhando para a frente.

Até agora, o lobby intelectual pode até ter criado uma visão "positiva" dominante dos bregas e seus derivados, mas não conseguiu reabilitar os ídolos defendidos. Seja um Odair José, um Fernando Mendes, um Leandro Lehart. Ou seja o "funk carioca", o tecnobrega ou o recente "funk ostentação". São tendências velhas, mofadas, que só o provincianismo dos brasileiros consegue aceitar.

É duro definir o brega-popularesco como o "entulho cultural" da Globo. Mas o entulho se carateriza por "restos" de uma cultura destruída pela ditadura. A ditadura tirou os sambas, afoxés, baiões e modinhas das mãos do povo pobre, despejando o brega no lugar, e o brega teve que se desdobrar depois em falsos sambas, falsos faoxés, falsos baiões e falsas modinhas.

Tudo isso conseguiu popularização plena graças à Rede Globo. Graças ao apoio explícito de Fausto Silva, Xuxa, Luciano Huck, Ana Maria Braga, William Waack, Ali Kamel, William Bonner, Marcelo Madureira etc. É gente demais da grande mídia para um antropólogo ou uma cineasta vierem para dizer na cara dura que o brega-popularesco é "boicotado pela mídia".

Talvez o brega-popularesco tente insistir em outros espaços, sem medir escrúpulos para invadir espaços de cultura alternativa ou de MPB autêntica. Mas sempre haverá um vestígio da influência das Organizações Globo nesses artistas, vestígio que, como pó de entulho, continuará a se esfumaçar pelo ambiente, pegando a intelectualidade dominante desprevenida.

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