quinta-feira, 22 de agosto de 2013

O HIGIENISMO PELO AVESSO DAS FUNQUEIRAS DE "DISCURSO DIRETO"


Por Alexandre Figueiredo

Na sociedade midiatizada em que vivemos, a intelectualidade "viaja" e não vê diferença entre factoides e fatos, confundindo mito e realidade, em um discurso em que se "filosofa" demais sobre meros fenômenos de entretenimento, numa clara intenção protecionista da cultura de massa.

Lendo o texto da educadora sexual Jarid Arraes, publicado no blogue Blogueiras Negras, nota-se que a autora não observa as diferenças entre "cultura de massa" e cultura no sentido comunitário do termo. Confunde os dois sentidos.

Isso é observado quando, no texto em que questiona a funqueira Anitta, a autora defende as outras "artistas funkeiras", como se elas não fizessem parte do contexto comercial em que se insere a intérprete do sucesso "Show das Poderosas".

Achando que o grotesco é parte inerente das classes populares, a autora tenta vincular a negritude feminina contemporânea ou mesmo às raízes históricas. "Esse repúdio contra as artistas femininas do funk é intimamente relacionado à repulsa às mulheres negras. A maioria das funkeiras são negras, e o funk tem raízes históricas ligadas à cultura negra brasileira", escreve.

É um grande equívoco. A autora desconhece que o "funk", acima de tudo, é mercado, é mídia, e muito antes de ser oficialmente tido como "expressão natural das periferias", teve seu discurso pseudo-ativista desenvolvido pela grande mídia (Organizações Globo e Grupo Folha) sob encomenda de empresários-DJs ambiciosos em ampliar e prolongar seu mercado.

Querendo "sociologizar" demais sobre o caso, a autora tenta desvincular as funqueiras do contexto midiático em que se inserem, e adota uma postura conivente com a vulgaridade sexual das "letras explícitas", como se fosse apenas uma "sexualidade de forma objetiva e direta".

A autora se baseia nos estereótipos atribuídos oficialmente às classes populares, em que estas são vinculadas à supremacia do "mau gosto" e do grotesco, que são defendidos por uma intelectualidade que, mesmo se dizendo "progressista", adota valores elitistas, tidos como "não-elitistas".

HIGIENISMO PELO AVESSO

Jarid Arraes tenta criar um maniqueísmo entre Anitta e outras funqueiras. Ela acerta quando define Anitta como "higienista" e "pronta para o consumo". Mas erra quando tenta desvincular as demais funqueiras de "discurso sexual direto" também ao higienismo e ao consumismo.

O "funk" é higienista. Seu higienismo ocorre pelo avesso, porque transforma as classes pobres em reféns de seu mercado. No "funk" o jovem pobre não pode sequer tocar violão, que um dia foi considerado "instrumento de pobre" e até de "vagabundo". No "funk" não pode haver melodia nem poesia e também as moças pobres são obrigadas a adotar um comportamento mais grotesco.

O "discurso sexual direto", em que até Gregório de Mattos, falecido há mais de 300 anos, é usado de forma oportunista pelo discurso intelectual - pelo menos o poeta da "Boca do Lixo" não aparece no texto de Jarid - , é a desculpa usada para um outro higienismo "para baixo", que é o de prender as moças pobres na obrigação de expressar o grotesco.

Aí entra o "bom" preconceito de Jarid Arraes. Ela define como "preconceituosa" a limitação de "sensualidade" imposta às funqueiras. Mas, no decorrer do texto, ela é obrigada a admitir que as funqueiras acabam se tornando, inevitavelmente, objetos sexuais.

No "funk", as mulheres são induzidas mesmo a fazer seu papel de servas do machismo. O que existe de "ameaçador" aos valores machistas é tão somente um jogo de cão-e-gato entre funqueiras e os machistas de seus meios, e o "discurso sexual direto" nada tem de libertador.

Essas letras expressam tão somente o jogo do "amor-ódio" bem típico da "cultura" brega, vide a música "Entre Tapas e Beijos", sucesso de Leandro & Leonardo. No fundo, um jogo de sedução em que sentimentos de repulsa e atração se alternam e que, no "funk", mostram que suas "musas", ainda que digam "odiar" os machões de seu meio, no fundo os amam e dependem deles de certa forma.

Além disso, as letras que elas "cantam" não são o uso livre do palavrão ou da agressividade textual como se via na expressão de Gregório de Mattos e uma linha de poetas ou letristas do gênero ao longo dos tempos, mas a baixaria como um fim em si mesmo, em que o uso de palavrões e termos chulos deixa de ser um direito para ser obrigação.

Portanto, dentro do contexto mercadológico do "funk", Anitta apenas é uma adaptação adocicada de fenômenos que não são menos comerciais ou higienistas. Todas lançam mão de corpos siliconados feitos para o consumo do imaginário sexual dos machistas.

E o "ativismo" de Valesca Popozuda, também não seria feito para o "consumo" das vaidades etnocêntricas de professores universitários? Ela, originalmente mestiça, ela é siliconada e também fez cirurgias plásticas que a transformaram de sósia de Carla Perez a uma sósia cafona de Lady Gaga. Também foi "embalada e pronta para o consumo".

São apenas dois lados da mesma moeda. Anitta com seu discurso comportado, feito para o consumo de famílias de classe média, como se nota no "funk melody". As demais funkeiras, com seu "discurso sexual direto", são embaladas e prontas para o consumo voraz de um público com menor poder aquisitivo. Mas são sempre comercialismo, que alimentam o poder midiático de qualquer maneira.

Quanto à negritude, o "funk" apenas transforma as mulheres negras em estereótipos. Já temos exemplos bem melhores e mais dignos de expressão da negritude feminina. Se boa parte das funqueiras é negra, isso torna-se lamentável, até porque elas se tornam escravas de um mercado "sensual" e "cultural" do qual elas saem naturalmente rejeitadas.

As funqueiras é que acabam contribuindo para serem rejeitadas. Não será o vínculo ao grotesco ou ao "mau gosto" que libertará as classes populares nem as populações negras nem as mulheres pobres e negras. Pelo contrário, isso as aprisiona.

E isso é fato, vide as mães dessas mulheres negras, que também são negras, mulheres e pobres, que ficam preocupadas com o envolvimento de suas filhas com esse universo de vulgaridade e machismo (do qual as funqueiras, no fundo, não têm a menor necessidade de romper), fora outros aspectos negativos. O "funk" nunca favoreceu realmente a negritude popular, só se promoveu às custas dela.

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