sábado, 17 de agosto de 2013

O "FUNK CARIOCA" VIROU O TCHAN DA VEZ?

A DANÇA DA  BOQUINHA DA GARRAFA FOI HERDADA PELO "FUNK CARIOCA" SOB O RÓTULO DE "COREOGRAFIA PÓS-MODERNA" OU "DANÇA FOLCLÓRICA".

Por Alexandre Figueiredo

De repente, a intelectualidade dominante recuou. Incapaz de convencer a opinião pública da "superioridade artística" de um gênero marcado pela imbecilização comportamental e grotesco sonoro do ritmo carioca, ela reagiu em silêncio. Fora a discurseira em torno do "funk ostentação", parece que as apologias ao "funk" feito no Rio de Janeiro, se não acabaram diminuíram.

Chega um ponto em que a argumentação desesperada esbarra em contradições que não se podem resolver nas mesmas réplicas chorosas de sempre. E nem mesmo o embelezamento discursivo da "etnografia de resultados", com suas técnicas narrativas inspiradas tanto no New Journalism quanto na História das Mentalidades, funcionaria sempre.

Em 1996, o "fenômeno" É O Tchan também se serviu da blindagem intelectual. Só que ela foi bem mais tímida. Teve o artigo "Esses pagodes impertinentes...", do sociólogo-historiador "pop" Milton Moura, na Bahia, corroborado por Roberto Albergaria e seu machismo "feminista" em relação às pobres baianas. E teve o livro "provocativo" de Mônica Neves Leme, endossado por Hermano Vianna.

Fora isso, algumas declarações deslumbradas e ingênuas de artistas. Ou então o lero-lero de uma imprensa "popular" incompetente. Mas o É O Tchan logo foi bombardeado por uma intelectualidade do outro lado, a que não tem medo de questionar a mediocrização cultural e não aceita gorjetinha de George Soros ou de quem quer que seja para dizer que o "mau gosto popular" é "causa libertária".

Aquelas roupas em cores aberrantes, como verdadeira propaganda pedófila, aliada à falsa solteirice das dançarinas, à baixaria das letras, ao machismo dos vocalistas e do empresário Cal Adan, ao som caricato de um samba de gafieira pasteurizado até o nada, e vendido enganosamente como se fosse "samba de roda do Recôncavo Baiano". Tudo isso era questionado pelos pensadores da época.

Não havia uma blindagem intelectual grande, que só teve depois em 2003 e, de forma mais intensa, em 2005, quando o fracasso do livro de Mônica Neves Leme sobre o É O Tchan - no qual difundia os mesmos argumentos "alternativos" e "indie" do "negócio aberto" do tecnobrega do livro de Ronaldo Lemos e Oona Castro - fez a intelectualidade se articular em prol do "funk carioca".

DISCURSO "SOCIALIZANTE" RADICALIZADO

O "funk carioca" havia herdado o apelo "sensual" do É O Tchan. O próprio CD do grupo com mixagem de DJ Marlboro foi o divisor de águas, foi como se Cal Adan passasse o bastão para o empresário-DJ carioca assumir a "causa".

E aí, aquele discurso "socializante" feito de forma envergonhada sobre o É O Tchan, mas rebatido corajosamente por gente que variava de Arnaldo Jabor a José Ramos Tinhorão, foi adotado de forma mais radical e firme em relação ao "funk carioca". Até a dança da "boquinha da garrafa", adotada explicitamente no "funk", ganhou um contexto de suposta coreografia ou dança folclórica.

Tudo era justificado pela intelectualidade, qualquer baixaria ligada ao "funk" era confusa mas desesperadamente defendida pela "intelligentzia" por um relativismo que mais parecia um segregacionismo, já que a mesma intelectualidade que defendia uma moralidade sócio-cultural para si se consentia com a imoralidade correndo solta nas periferias.

Para a intelectualidade, o que é realmente imoral no lado das periferias era defendido como se fossem "outros valores". "Eu pessoalmente acho imoral, mas isso é que faz o povo feliz", era o argumento corrente, típico da glamourização da miséria do discurso intelectual vigente.

APOIO DO "BOM MOÇO" LUCIANO HUCK E DO "REBELDE" LOBÃO

Além das claras ligações com as Organizações Globo, o "funk carioca" ainda tem, dentro dos círculos direitistas, o apoio explícito e entusiasmado de gente como Luciano Huck, símbolo de um suposto "bom mocismo" da grande mídia, e o outrora rebelde Lobão, hoje mais um carneirinho dos interesses grão-midiáticos.

Luciano Huck sempre foi um grande divulgador do "funk carioca" e suas variações (exceto o "proibidão", embora ele seja receptivo até aos "proibidões" convertidos), e é fato indiscutível que boa parte da popularização do ritmo se deu ao apresentador do Caldeirão do Huck. O programa inspirou até uma gíria funqueira, "é o caldeirão", que significa "é o máximo".

Lobão é um roqueiro que, nos últimos anos, deixou o esquerdismo de lado e virou "neocon". Atacando praticamente tudo e todos, como um "Reinaldo Azevedo" do rock, Lobão praticamente vira um doce diante do "funk carioca", dando um apoio apaixonado ao ritmo.

Acrescenta-se a esse rol de impasses os mal-entendidos que tentaram favorecer o "funk", como tomar como verdadeiro um boato de que Paul McCartney teria virado "funqueiro" por supostamente ter ouvido Bonde do Rolê, e uma tese acadêmica, que contestava a imagem de objeto das funqueiras, vista erroneamente como defesa do suposto feminismo das "musas do funk".

Diante de tudo isso, será que o "funk carioca" terá o mesmo desgaste de imagem do É O Tchan? De qualquer modo, ambos são subprodutos da ditadura midiática e chega um ponto em que a choradeira de intelectuais defensores torna-se cansativo e repetitivo.

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